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Da pecuária ao álcool: como uma propriedade rural se tornou uma fábrica a céu aberto

27 OUT 2016
Laryssa Caetano, especial para o TopMídiaNews
16h48min
IACO: indústria sucroalcooleira migrou para a atividade em 2007 Foto: Laryssa Caetano

Desde 1980 a história da fazenda Ribeirão, localizada em um entroncamento a 45 km dos municípios de Costa Rica, Chapadão do Sul e Paraíso das Águas, no norte do Mato Grosso do Sul se mistura com a de Edson Luiz Cunha da Rocha, diretor-superintendente da propriedade. Quando o empresário gaúcho Sady Arnildo Schmidt adquiriu a fazenda, que fica cerca 330 km de Campo Grande, não imaginava as dificuldades que enfrentaria para iniciar as operações: o último gerente que havia abraçado o desafio de torná-la rentável, havia ligado dizendo que tinha abandonado o projeto. Era difícil lidar com o volume de trabalho, com o tamanho da propriedade e com a falta de mão-de-obra. A fazenda estava abandonada.

Para Edson, um rapaz jovem e solteiro que vivia dilemas na juventude no interior do Rio Grande do Sul, a oferta de assumir temporariamente a fazenda até que encontrassem um administrador fixo, soou emocionante. Sair do interior do Rio Grande do Sul e se mudar para uma fazenda no interior do Mato Grosso do Sul seria, no mínimo, uma aventura. Mal sabia ele que ali iniciava a trajetória de sucesso da fazenda Ribeirão entrelaçada às suas próprias conquistas.

A oferta de trabalho temporário na fazenda já dura 36 anos e acumula uma série de mudanças: está na terceira geração de herdeiros que administram o patrimônio do grupo, acompanhou e contribuiu com o desenvolvimento econômico da região norte do Mato Grosso do Sul, mudou o sistema produtivo algumas vezes até chegar ao formato que tem hoje, produzindo etanol anidro, que é o puro, e o hidratado, que compõe a mistura da gasolina e está pronto para consumo.

Parque industrial da IACO - Indústria Agrícola Centro-Oeste - Foto: Laryssa Caetano

No início: o desafio era tornar o negócio sustentável

Durante os primeiros cinco anos, todo o rendimento da propriedade foi reinvestido em mais infraestrutura para que o negócio fosse sustentável. Construção de casas, condições salubres de vida para os trabalhadores, treinamento intensivo para a formação de uma equipe homogênea e focada nos resultados, ações de integração da equipe: premiações para quem contribuísse com ideias para melhorias no processo, fortalecimento de relações com a sociedade local, manutenção de áreas verdes, abertura de estradas dentro da propriedade e, muita disposição da equipe em conviver com o isolamento geográfico.

A propriedade começou suas atividades com a pecuária de corte, chegou a ser sócia de um restaurante de carnes nobres em Campo Grande, o Vermelho Grill, fornecendo cortes finos de Angus, raça bovina de origem escocesa que é reconhecida pela qualidade da carne - apresenta boa distribuição de gordura intermuscular, que dá sabor característico à carne.

Fazenda demonstra boas práticas no controle de pragas: benefício em toda a região

Há 20 anos, quando a mosca-dos-chifres (Haematobia irritans) aterrorizava os criadores de gado da região - e o próprio rebanho - os gestores da fazenda Ribeirão deram carta branca para encontrar uma solução que atendesse a região em curto e longo prazo, sem danos ao meio ambiente. Descobriu-se que o besouro africano (Digitonthophagus gazella) era o controle biológico ideal: além de predador da mosca e de larvas de vermes gastrointestinais que atacavam os bovinos, ele também era um instrumento na melhoria da fertilidade do solo, ao incorporar matéria orgânica e promover a reciclagem de nitrogênio.

Neste modelo de negócio não existem ações com benefícios isolados: ao optar por doar casais de besouro para os pecuaristas da região e a orientá-los o manuseio correto para resolver o problema, os gestores demonstraram que ações conjuntas que beneficiam toda a cadeia produtiva são mais eficazes que soluções que beneficiem somente a própria produção. Uma ação simples trouxe impacto positivo para toda a cadeia produtiva e que praticamente extinguiu a tal mosca da região.

Oportunidade sinalizada pelo mercado: a fazenda torna-se uma indústria

Anos se passaram deste episódio e, em 2007, a fazenda passou a migrar suas atividades de pecuária, milho, soja e algodão para a produção sucroalcooleira e mudou o nome para IACO - Indústria Agrícola Centro-Oeste. A transição de 67 mil cabeças de gado para a produção de 300 milhões de litros de álcool foi feita gradualmente considerando a tendência no consumo de combustíveis alternativos, a alta produtividade desta cultivar por hectare, o manejo simples, a dimensão da propriedade e as condições climáticas ideais da região, dada a abundância de sol e chuva. "Não somos presos a nenhuma atividade do agronegócio, nosso intuito é sempre estar atento às tendências e vamos sempre nos adaptar à realidade do mercado" explica Edson Rocha.

Edson Rocha diante do parque industrial: "A cada colher de açúcar que é consumida a mais na Ásia, nossa produção aumenta" - Foto: Laryssa Caetano

Enquanto isso, as cidades do entorno também passavam por mudanças geradas pelo aquecimento na economia local. Para se ter uma ideia, com a atividade industrial, somente o município de Chapadão do Sul saiu de cerca de 15 mil habitantes em 2007 para 23.284 em 2016, um aumento estimado de 66% em nove anos, enquanto a população brasileira, no mesmo período, teve um avanço de 8%. E como a indústria opta pelos fornecedores locais na sua cadeia de suprimento e, tem preferência na contratação de mão-de-obra local, todos os setores da economia na região são fortalecidos, gerando um efeito positivo - ao proporcionar novas oportunidades de empregos indiretos - tanto para fornecedores que atendem a indústria, quanto para o comércio e serviços que atendem a nova demanda do mercado consumidor. O Produto Interno Bruto per capita do município ultrapassou 50 mil reais em 2012 e se mantém estável desde então, em comparação com a realidade brasileira, que não chega a 30 mil reais.

Como somente a atividade havia mudado e não os valores da empresa, a propriedade de 33.400 hectares, já havia reservado 7.200 hectares de APP (Área de Preservação Permanente) e de reserva ambiental, afinal "se a gente não cuidar do nosso patrimônio, quem vai sofrer as consequëncias no futuro seremos nós mesmos" explica Edson enquanto dirige pela propriedade.


Irrigação de vinhaça na plantação: o meio ambiente é poupado e os custos com fertilizantes são reduzidos - Foto: Laryssa Caetano

Se, de um lado, Edson ocupa o papel de gestor atento à pluralidade de uma "fábrica a céu aberto", com todos os impedimentos que possam surgir com uma tempestade e todos os fatores externos que implicam na produtividade do negócio, Edson também procura valorizar as pessoas ao promover treinamentos, qualificação e qualidade de vida aos funcionários. Como a indústria funciona 24 horas por dia e sete dias por semana, criar um ambiente para que a equipe se sinta confortável - com planos de cargos e salários e participação nos lucros - garante uma baixa rotatividade de pessoal, fortalecendo os laços da equipe, a manutenção do conhecimento adquirido e uma equipe que conhece profundamente o negócio.

Descendente de italianos e criado em uma colônia alemã no Rio Grande do Sul, desde cedo Edson conviveu com as diferenças culturais e aprendeu a ser flexível com as diferenças. Graças a isso, o homem casado e pai de três filhos convive com os mesmos dilemas em um "prefeito, padre e delegado" na cidade construída dentro da propriedade para os funcionários. Acessível aos 1350 funcionários da indústria, ele apazigua desavenças e busca o equilíbrio na cidade que ajudou a fundar, mostra com orgulho as primeiras casas construídas, todas de madeira e devidamente funcionais até hoje. Ao passear pelos alojamentos fica a impressão de percorrer as ruas de um condomínio fechado bem cuidado, com a diferença que ao redor desta pequena cidade, toda a vizinhança é constituída pela plantação de cana-de-açúcar.

O Brasil é o maior produtor da gramínea e, de acordo com o Ministério da Agricultura, é responsável por mais da metade do açúcar que é consumido no mundo e a produção deverá seguir em ascensão nos próximos anos, graças ao aumento do consumo de etanol no mercado interno e ao aumento do consumo de açúcar no mundo. A previsão é de que a produção aumente 3,25% ao ano até 2018/19, com um volume de 32,6 milhões de toneladas de açúcar exportado em 2019 e, um consumo interno de 50 bilhões de litros de etanol somados a 8,8 bilhões de litros a serem exportados. Com 800 mil hectares plantados, o Mato Grosso do Sul é o quarto maior produtor de cana-de-açúcar do país, tendo produzido 43.924 milhões de toneladas em 2015, ocupando o ranking de açúçar (5º), etanol (4º) e bioeletricidade (3º), respectivamente.

Cinza da caldeira é preparada para virar adubo - Foto: Laryssa Caetano

Da cana-de-açúcar aproveita tudo. A vinhaça, resíduo líquido da destilação do álcool, transforma-se em fertilizante rico em cálcio, magnésio e potássio que é irrigado diariamente na plantação; a cinza da caldeira e a torta do filtro são destinados à horta e; o bagaço se transforma em energia elétrica que é consumida em toda a propriedade e o excedente é vendido para a rede de distribuição - suficiente para abastecer uma cidade de 300 mil habitantes, gerando uma receita de aproximadamente 35 milhões de reais por ano.

Fortalecimento da equipe: ênfase em gestão de pessoas e produtividade

Os funcionários têm acesso a plano de saúde, muitos conseguem moradia gratuita no alojamento da IACO; a energia elétrica consumida tanto na indústria quanto nas residências é gerada com resíduos da cana na propriedade, portanto, gratuita; há acesso à internet; escola até a quarta série para as crianças e; ambulatório emergencial em uma cidade habitada por 650 pessoas. Os refeitórios ficam localizados próximos à plantação e atendem diariamente toda a equipe.

Essa é a cara da indústria que, apesar de altamente mecanizada no  manejo e tecnológica na operação, ela é integralmente humanizada na gestão. "Sem as pessoas não alcançamos os resultados, desde a pessoa que faz o café ao segurança da plantação, todos sabem que o trabalho final deles é contribuir com a produção de cana e álcool". E, diante de um cenário delicado na economia brasileira, a indústria sucroalcooleira segue em franco crescimento, com a aposta em valorização de pessoas, tecnologia de ponta, atenção às tendências e gestão eficiente.


Área residencial dentro da indústria atende 650 pessoas - Foto: Laryssa Caetano

A partir de 2017 a IACO incorpora o açúcar à sua produção, pois nas palavras do superintendente "uma colher a mais de açúcar que é consumida na Ásia, tem um efeito extremamente positivo na nossa produção". Se depender da IACO, o mercado mundial vai contar com 28 mil sacos ao dia a mais tanto na balança comercial quanto na gôndola.

Para Edson, ter se tornado gestor de um negócio que gera 300 milhões de litros de álcool por ano prova que uma grande aventura e uma parceria sólida podem ser lucrativas. Hoje, a indústria sucroalcooleira é uma alternativa de vida rentável para o trabalhador da região norte que, dada a distância de grandes centros e a presença esparsa de indústrias, teria opções restritas no mercado de trabalho local: atendendo órgãos públicos ou o comércio; e uma diversificação de cultivares e na economia local. O investimento em pessoal e a melhoria constante de processos enriquecem o mercado com conhecimento, tecnologia e trabalho ético - lições valiosas para os rincões do Centro-Oeste. 

 

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