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'As mudanças devem começar no Congresso Nacional', afirma cientista político, Eron Brum

Entrevista

27 JAN 2014
Marcelo Villalba
15h57min
Foto: Reprodução

Em meio ao contexto político que Campo Grande vive, o cientista político Eron Brun, traça um entendimento do que estamos passando no cenário eleitoreiro. Professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), nascido em Dourados, ele fala que as mudanças ocorrem frequentemente, e que é natural esse momento conturbado que Campo Grande passa nas mudanças administrativas. Confira a entrevista exclusiva que Eron Brum concedeu ao Top Mídia News.

 

Até onde vai a fidelidade partidária e a ideologia pessoal dos políticos?

 

Eron Brum – Na maioria dos casos, a fidelidade partidária é praticada quando há interesse do partido ou do postulante do cargo. Como a maioria dos partidos é simplesmente uma sigla, e quase sempre sigla de aluguel, a fidelidade se transforma em moeda de troca. E já que o produto sigla de aluguel é numeroso, sempre se acopla a um dos chamados grandes partidos e, estes, dão as cartas. Dependendo do interesse, cassa-se ou perdoa o candidato. Eis um dos maiores absurdos do nossos sistema político, pois, para concorrer a uma eleição, de vereador a presidente da República, o candidato, obrigatoriamente por lei, tem de estar filiado a um partido. Ora, se foi eleito por um partido A ou B deve permanecer nele até o final do mandato. Se sair antes, a lógica diz que o mandato volta ao partido e o primeiro suplente assume. Não é o que acontece, na maioria das vezes. Já ideologia está fora da quase totalidade dos partidos e inexiste nas siglas de aluguel que, a cada eleição, abrem o balcão de negócios. Ideologia é uma miragem na política brasileira.

 

Como você enxerga essas expulsões de vereadores e secretários dos partidos em Campo Grande?

 

EB - O Partido Progressista, que elegeu o prefeito Alcides Bernal, expulsou o vereador Chocolate e, vejam outro absurdo, o PT, da base de sustentação do prefeito, ofereceu-se para abrigá-lo. Dá para levar essa história a sério? Aguardemos os próximos capítulos desse novela de horror.

 

O Brasil, Campo Grande vem sofrendo uma reformulação política ?

 

EB – De forma alguma, Campo Grande faz o mesmo que todos os colégios eleitorais. Quem deveria reformular o nosso ultrapassado, esclerosado e corrupto sistema político é o Congresso Nacional. Por sinal, o texto de uma reforma política avançada em alguns aspectos – fidelidade partidária, voto distrital misto, financiamento de campanha, voto em lista, verticalidade nas coligações, entre outras – está há mais de duas décadas nas gavetas das comissões. E para as eleições desde 2014 não acredito que teremos mudanças relevantes.

 

Com isso os partidos mostram o que podemos chamar de “ditadura” reafirmando suas imposições?

 

EB – Se fossem partidos políticos coerentes e alinhados às reais necessidades da população, seria até louvável que defendessem seus ideais, projetos e ideologias. Não é o caso dos mais de 30 partidos e/ou siglas que formam o sistema político brasileiro.

 

Será que os vereadores se elegem e mudam de lado por serem fácil de ser corrompidos “comprados”?

 

EB – De haver algo de “podre no reino da Dinamarca” para, num passe de mágica, o postulante do cargo mudar de partido como muda de camisa. Os políticos deveriam honrar o voto recebido nas urnas e defender seus representantes com dignidade, respeito e muito trabalho. Essa desculpa esfarrapada de que foi “maltratado”no partido é conversa pra boi dormir. Até porque as diferenças entre este e aquele partido são mínimas. O fator decisivo na troca de partidos se chama tramoia de bastidores.

 

Em uma breve analise da política na capital, como os escândalos vão influenciar nas eleições de 2014?

 

EB – A alternância de poder é saudável nas democracias e o eleitor campo-grandense votou exatamente pensando assim, nas últimas eleições para prefeito. Depois de eleger por duas décadas prefeitos do PMDB e PSDB - aliados históricos no município, pendeu para um nome que poderia encarnar a alternância. Só que o prefeito Alcides Bernal ainda não colocou Campo Grande nos trilhos. A impressão que tenho é que a ‘sombra’ dos seus adversários já fez sérios estragos em sua administração e, como estamos em ano eleitoral, as tempestades políticas tendem a vir acompanhadas de granizo. O que acontecer – de bom ou de ruim - na capital sul-mato-grossense, com seus cerca de 800 mil habitantes, vai pesar muito no momento em que o eleitor digitar na urna eletrônica o nome/número dos seus candidatos.