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‘Nem todos conseguem pedir ajuda’; psicóloga avalia tabus por trás do suicídio

Inara Leão Barbosa fala em entrevista exclusiva sobre o papel da sociedade para diminuir índices alarmantes

26 SET 2016
Amanda Amaral
15h44min
Professora e psicóloga Inara Barbosa Foto: André de Abreu

No mês em que acontece a campanha Setembro Amarelo, que acontece desde 2014 como uma forma de conscientização sobre a prevenção do suicídio, o TopMídiaNews entrevista a professora e psicóloga Inara Leão Barbosa. Um problema de saúde pública envolto por tabus, esse tipo de morte soma cerca de 32 vítimas por dia no Brasil, conforme a OMS (Organização Mundial de Saúde). 

Doutora em psicologia social pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, Inara também é coordenadora do curso de psicologia na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e responde sobre algumas questões sobre o tema. Confira abaixo a entrevista, na íntegra:

É possível conceituar o que é o suicídio para a psicologia?

O conceito do suicídio depende muito daquilo que a gente chama de visão de mundo, forma de entendimento da realidade, porque é isso que vai fazer a pessoa interpretar ou compreender a ação de uma pessoa que delibera ou não parar de viver. Há algumas pessoas que pensam que ninguém teria esse direito, porque essa vida seria um compromisso com a sociedade, ou por questões religiosas. Há outra parte mais liberal, com uma visão mais individual, que entende que qualquer um pode fazer o que quiser, porque cada um tem sua vida, portanto, ninguém tem o direito de interferir.

A gente trabalha um pouco com a perspectiva de que o suicídio é um exercício de liberdade, como um modo de você se relacionar com a sua vida. Então aí é claro que há um compromisso com a sociedade, ou não. Mas não partimos do princípio que cada um faz o que quer, já que vivemos em grupo e dependemos de uma boa relação com o mundo. É uma decisão tão importante e individual como ter um filho, ter uma carreira, apesar de nada simples.

Nem sempre a pessoa está sofrendo algum distúrbio, como a depressão, e que se estivesse sob tratamento poderia não cometer o ato. Venho refletido sobre isso, cada um tem um suporte social e um limite próprio.

Os motivos que levam a pessoa a tirar a própria vida variam conforme a idade e condição socioeconômica? 

Se formos ver de maneira geral, apesar de que nada no mundo é de um jeito só, podemos estabelecer algumas características mais marcantes. Em algumas culturas, por exemplo, há muito mais exigência nas metas estabelecidas para a vida, como no Japão. Aqui no Brasil, nossas relações são um pouco mais condescendentes, especialmente com os jovens, é mais tolerante com os erros.

Eu acredito que a tendência é que os adultos cometam mais suicídio no país, justamente por essas pressões maiores relacionadas a dinheiro. Os índices de suicídio aumentam muito quando a economia não vai bem, basta observar.

Ainda assim, são crescentes os casos de jovens homossexuais que não foram aceitos pela família e pela sociedade ou por sofrerem bullying devido à obesidade, raça, etc. É uma característica dessa geração?

Então, há essa questão, os motivos sociais matam mesmo determinados grupos. Muitas vezes o ambiente ao redor é tão hostil que a pessoa não tem outra escolha, na visão dela, não consegue resolver e não há perspectiva a vista, pois ela não tem amparo social algum. Na universidade mesmo, muitos alunos são homossexuais e se sentem protegidos em cursos onde há maior entendimento sobre a sociedade, como os das áreas de ciências humanas e sociais. Trabalhei já no Centro de Combate à Homofobia e o que eu ouvia na época, o sofrimento dessas pessoas, era inimaginável. Essa dificuldade é encontrada em outros grupos, de maneira diferente.

Foto: André de Abreu

A algum fator genético que pode influenciar a pessoa a ter um quadro suicida?

O que sabemos é que existem alguns quadros de depressão que são de causa endógena, sim. Alguns tipos de depressão, não todos, promovem ideias de suicídio, como uma solução do mal estar. Contudo, a gente não tem certeza ainda de tudo, de todas as causas e soluções para cada caso e o quanto isso depende do fator genético. Os remédios são muito importantes nesses casos, não há porque temê-los.

Apesar de atingir mais jovens e adultos, há registros de que as tendências suicidas podem começar ainda na infância. O que se sabe sobre isso?

O suicídio infantil é uma situação muito específica, sabemos que há, mas a estrutura psíquica por trás disso eu não saberia dizer com propriedade. Parece-me que é mais ou menos localizada, difere de regiões geográficas, em campo grande mesmo são pouquíssimos casos já registrados. Há uma diferença na população indígena, que antes costumava ter mais casos de adultos, agora se vê crianças e jovens. Alguns podem trazer traços patológicos sim, mas outros não.

Esse comportamento está mais comumente associado a quais distúrbios psiquiátricos?

Não há um padrão, a depressão aparece de várias formas. A gente sabe que algumas doenças que acabam exigindo internação, onde a pessoa fica muito isolada, pode ser despertada essa ideia de tirar a própria vida. O sentimento de abandono, no geral, é o que vai causar essa vontade mais intensa. Mas uma vinculação direta não existe em todos os casos, apesar de ter relação em vários deles.

Quais são os sinais mais comuns, apesar de não haver padrão, que a família ou pessoas próximas devem se atentar?

Qualquer alteração de comportamento pode ser um indício, apesar da pessoa não falar que tem algo errado. Mas infelizmente muitas vezes não dá pra perceber, porque a pessoa já vem programando aquilo há bastante tempo, então ela não dá pistas.

Algumas pessoas podem tentar mostrar o sofrimento tentando se matar, mas no fundo querem apenas receber ajuda, cuidado, e não querem morrer de verdade. Porém, é errado dizer que alguém faça isso ‘para chamar atenção’, para ‘aparecer’. Há alguns momentos na vida em que precisamos de ajuda, todo mundo precisa. Alguns conseguem pedir, outros não. Nesses casos a pessoa até pode acabar de matando sem real intenção, o que chamamos de morte por acidente, por exemplo, pela ingestão de medicamentos ou drogas ilícitas.

O quando menos a sociedade e o seu grupo de convívio são individualizados, mais fácil é obter essa ajuda e proteção, aí a percepção do que está acontecendo, o valor das coisas, pode ficar muito distorcido.

E como a sociedade tende a lidar com essa questão? Falta discussão?

Eu vejo que estamos pessoalmente bem indiferentes. As vezes a pessoa nem sabe o nome do vizinho. A manutenção da vida é também uma obrigação da sociedade como um todo. Por exemplo, temos um alto numero de moradores de rua na cidade, que podem até parecer que querem morrer, que acham que a vida não vale mais a pena. Mas se pararmos pra pensar, se eles quisessem mesmo, já teriam conseguido. O fato dessas pessoas estarem ao nosso redor não nos exima de termos responsabilidade sobre elas. Muito do que se poderia pensar em cuidados, vem dessas pequenas relações, o fim da indiferença. A pessoa que tem uma estrutura psíquica mais frágil tende a sofrer muito no mundo contemporâneo, narcísico.

É impressionante, trabalho com alunos muito novos que me falam o quanto são solitários e até já se medicam. Além disso, o aumento de casos em locais de trabalho é alarmante, é uma verdadeira denúncia sobre o nosso tempo. Não temos uma estrutura pronta para sermos saudáveis, ainda mais com tantos problemas socioeconômicos.

Você acha que essa questão na mídia deveria ser tratada ou evitada?

Não acho que ‘dá ideia’ falar sobre o suicídio. A questão é que, a não ser as grandes tragédias, o suicídio não é notícia, não deveria ser. Apesar de você ter um perfil ali, cada pessoa tem uma causa e uma vida por trás da sua escolha, e no jornal não aparece isso, parece banal. A morte é uma condição dada a todos que estão vivos, mas tirar a própria vida se torna uma questão mais impressionante por questões culturais e religiosas, por isso gera certo interesse.  

Que serviços a pessoa procurar para pedir ajuda?

Tem muitos serviços como o CVV (Centro de Valorização da Vida), que ajudam, mas não vão ser a solução. Para trabalhar com um suicida, é necessário ter uma boa preparação e na maioria das vezes esses serviços são voluntariados. São atividades voluntárias, por mais que haja boa vontade de quem ajuda, não é o mais indicado para casos graves. O atendimento especializado é o mais indicado, com certeza, aliado a medicamento e terapia na maioria das vezes. Em minha opinião, isso é obrigação, prioridade do serviço público de saúde.

Às vezes a pessoa também pode ter alivio fazendo alguma atividade, como dança, leitura, esporte, cada um tem um jeito, mas sempre existe a necessidade de ter alguém que entenda por perto.

Como a família e amigos podem ajudar a pessoa que tem tendência suicida? Como, também, tentar superar um caso em que a pessoa querida comete o suicídio?

Quem está em volta tem dois caminhos possíveis, achar que é culpado por não ter ajudado e não ter evitado ou achar que não poderia ter feito nada, que aquele era o caminho natural. Em nenhuma das duas situações esses comportamentos ajudam nem quem está perto, nem quem está sofrendo, nem elas mesmas. Não adianta a pessoa tomar toda a responsabilidade para si, afinal todos tem sua liberdade, mas é preciso tentar ajudar, intervir em forma de apoio a conduzir melhor a vida dessa vítima, sem omissões.

O grupo, familiar ou não, deve achar algum conforto ao entender que o suicídio é uma escolha, dolorosa, mas nem sempre temos todos os instrumentos para lidar com a complexidade da vida.