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Presidente do Sinpol/MS expõe realidade dos policiais civis e diz que a instituição está de luto

Reivindicações

8 FEV 2014
Vanessa Ricarte
09h49min
Presidente do Sindicado dos Policiais Civis de MS. Foto: Vanessa Ricarte

Algumas faixas pretas assinadas pelo Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso do Sul estão nas ruas de Campo Grande. À primeira vista, frases como "Estamos de luto" e "Perdemos mais um grande policial" mostram parte da indignação de uma classe que, segundo o presidente do Sinpol/MS, Alexandre Barbosa da Silva, está desprestigiada pelo estado. Há quase 5 anos à frente da presidência da instituição, Barbosa escancara a realidade e a rotina dos policiais civis de MS, fala do estresse, risco de morte, custódia de presos, dos baixos salários e sobre a infraestrutura aquém do que a população necessita. Veja a seguir a primeira parte da entrevista:

TopMídia News - O senhor poderia nos traçar um panorama atual da realidade em que se encontra a Polícia Civil do Mato Grosso do Sul? Em que pé está a situação?


Alexandre Barbosa - A situação está muito complicada, pois o policial civil está desassistido de diversas formas. Atualmente, existe uma defasagem de 1000 policiais no efetivo de MS. Há um concurso em andamento com 220 vagas abertas, porém esse número não é suficiente nem para repor os policiais que se aposentam anualmente no estado. Levando em consideração que os concursos são realizados entre cada 4 ou 5 anos, a quantidade de policiais civis trabalhando sempre será abaixo do que é preciso para que a PC possa operar com eficiência.

Hoje, cerca de 60% das viaturas estão estragadas e encostadas. Apesar da compra de armamentos através da verba do Enafron (Estratégia Nacional de Fronteira), estes foram enviados para algumas delegacias do interior do estado, nas regiões de fronteira, contudo, não mandaram munição.

Se não houver munição no estoque (que também está defasado), o policial tem que fazer uma solicitação e esperar o envio desse material. Enquanto isso, o armamento fica ocioso, o que é um absurdo.

Outro exemplo é a qualidade do armamento usado. Se a pistola do policial estiver com defeito, ele terá que utilizar um revólver calibre 38, pois não existe uma pistola de reserva. A situação da Polícia Civil está realmente agonizante. 

TopMídia News - De dezembro de 2013 para cá, cerca de 700 presos estão nas delegacias do estado, dos quais 83 já foram condenados. Como o senhor avalia essa circunstância inclusive apresentada à Comissão Temporária do Sistema Carcerário da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul (OAB/MS)? Quais são os riscos e prejuízos da PC manter os presos em delegacias?


Alexandre Barbosa - O que acontece é que a custódia de presos não é função da Polícia Civil. A nossa responsabilidade constitucional é com as investigações de crimes. O policial vai para a academia, é preparado para solucionar os crimes que acontecem no dia a dia do cidadão e estamos tendo um desvio de função nesse sentido.

Já existe uma falta de efetivo e o policial tem que ficar na delegacia, pois acaba prestando assistência ao preso - verifica plano de saúde, alimentação, visita de advogados, faz a segurança do preso e a revista de familiares para evitar a entrada de drogas e armas dentro das delegacias. A função do investigador fica em segundo plano, pois não tem como fazer, já que não há como fechar a delegacia para ir a campo.

Que sofre com isso é a sociedade. Quando você vai até a delegacia e registra um boletim de ocorrência, você tem uma esperança de reaver aquele bem que foi furtado ou roubado, e que o autor do crime seja punido. E o que acontece é que esse trabalho de fato fica prejudicado.

Para se ter uma ideia, nem a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) manda a alimentação dos presos para as delegacias. É preciso destacar um policial para buscar os alimentos nas penitenciárias todos os dias.

 

O estado emitiu um decreto que fixa a alimentação em R$ 12 por preso. Em Sidrolândia, aconteceu o caso de ter que retirar todos os presos nas delegacias da cidade não pelo fato de a PC não ter a obrigação de fazer a custódia deles, mas porque não apareceu um fornecedor que aceitasse o pagamento desse valor para poucos presos, já que é uma cidade pequena.

Entramos com uma representação na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) explicando o nosso caso. Já buscamos a esfera estadual, federal e não obtivemos um retorno. Fizemos um dossiê mostrando essa superlotação de presos nas delegacias de MS e estamos aguardando a resposta.

De fato, o preso jamais será educado, assistido e ressocializado dentro das delegacias. Ali o preso não se recupera, já que não há um trabalho de assistência social ou atendimento psicológico. Lá ele fica parado e sai pior do que entrou.

TopMídia News - Na sua visão, como o policial civil se sente diante dessas circunstâncias relatadas acima?


Alexandre Barbosa - Definitivamente, se sente desprestigiado. O policial faz um concurso e entra na academia na esperança de se sentir útil para a sociedade, ou seja, trabalhar por ela e para ela. Quem fica na Polícia Civil é porque gosta. Não há o retorno do Estado, nem investimentos necessários, por isso muitos acabam se decepcionando, inclusive desistindo da carreira.

O estado gasta com concursos e na preparação dos policiais. Após 1 ou 2 anos na luta diária, muitos percebem  que não há uma previsão de melhoria nas condições de trabalho e fazem outros concursos, pois para entrar na Policial Civil é preciso ter graduação a nível superior. O salário do policial civil de MS é baixo, o 18º do país e ele opta por uma carreira em que se ganha mais.

Segundo o boletim divulgado anualmente pelo Ministério da Justiça, somos a 6ª melhor Polícia Civil do país na resolução de casos de homicídio e estamos entre as dez melhores em casos gerais. Somos comprovadamente uma das polícias mais eficientes do Brasil mesmo trabalhando com dificuldades.

 

Aqueles que ficam por amor à profissão encontram todas essas dificuldades. São situações cotidianas como estresse, conflitos com bandidos todos os dias, sobrecarga de trabalho, não recebem por hora extra. Tudo isso acarreta em depressão e problemas familiares.

O percentual de divórcio dentro da corporação é muito alto, já que as famílias não aguentam a rotina, pois os policiais tem hora para entrar, mas não tem hora para sair. É quase um regime de escravidão.

TopMídia News - Durante a solenidade de abertura dos trabalhos da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, o governador André Puccinelli afirmou que um dos pilares da tríade de investimentos maciços em seu último ano de mandato será a segurança pública. Diante dessa declaração, quais são as suas expectativas para a melhoria do setor em 2014?


Alexandre Barbosa - Todo ano, durante as reuniões, o governador fala a mesma coisa para nós:  "vou investir na Polícia Civil, na segurança pública"e não investe. Não acredito que ele vá fazer isso no último ano de mandato. É preciso deixar claro que tudo o que ele está comprando para a segurança pública é proveniente da verba do Enafron, uma verba federal. Ou seja, o estado não está investindo os recursos próprios.

Cadê o dinheiro do estado? Se estivesse pelo menos investindo em salários seria ótimo, mas nem isso está. Quer dizer que ele está mandando várias viaturas pra região de fronteira, mas quem vai dirigir um daqueles carros?

TopMídia News - A situação de fronteira está realmente calamitosa, como o policial civil da região lida com esse aumento do narcotráfico?


Alexandre Barbosa - Ele está inseguro. Não tem como combater o crime se nem ao menos há munição suficiente. Esse negócio de Força Nacional é uma enganação. O Governo federal só destinou essas verbas e existe essa mídia toda em cima do Enafron por causa da Copa do Mundo que acontece nesse ano. A hora que ela acabar, tudo isso vai morrer.

Eu espero que o governo invista na segurança pública, mas só acredito vendo. Durante os 7 anos que André Puccinelli ficou em seu mandato, vejo que investiu pouco, o mínimo. Percebi que ficou preocupado em fazer asfalto, obras, o que é bom também, mas a situação chegará num ponto em que a bolha explode uma hora. Basta olhar qualquer pesquisa de opinião pública e para ver que segurança está em segundo lugar como prioridade para os cidadãos, atrás da saúde à frente da educação.

Não adianta você ganhar bem, ter um bom emprego se você não pode usufruir dos bens que compra. O cidadão acaba se tornando um prisioneiro dentro da própria casa, atrás das grades. A segurança pública está esquecida, abandonada por este governo.

Nós do sindicato estamos batalhando para que realmente não aconteça o caos, não vire uma Colômbia, porque aqui é fronteira seca. E o crime organizado é uma realidade em todos os estados, inclusive no MS. Se o governo não implementar uma política efetiva de combate, será melhor que o aparelhamento do estado.