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A vida sorriu para eles: professor e jornalista transplantados caminham em direção à cura

2016 foi um divisor de águas para a saúde de Alcindo Rocha e Professor Carlão

1 JAN 2017
Thiago de Souza
09h05min
Alcindo e Carlão recebem medula óssea em Jaú (SP) Foto: arquivo pessoal

2016 ficará na memória do jornalista Alcindo Rocha e do Professor Carlão, profissionais bem conhecidos na Capital, como o ano de luta, mas também de recuperação. Ambos transplantados de medula óssea, seguem na luta contra a leucemia e aplasia medular. A vida, ao mesmo tempo frágil diante de doenças graves, se revela sublime e resistente a cada pequeno passo dado por eles.

A mudança na vida de Alcindo veio em janeiro de 2015. Leucemia! No mesmo ano, só que em agosto, a notícia fatídica veio para o Professor Carlos Alberto Rezende, o  ‘Carlão’. Pouco tempo depois o diagnóstico do docente mudou para aplasia medular, não menos grave. No início o professor disse que a notícia foi ‘assustadora’, mas decidiu defender sua vida. ‘’Sabia que a luta não seria nada fácil’’, resumiu.  

Os dois tiveram trajetórias parecidas no início. Foram para Jaú (SP), onde fica o HAC (Hospital Amaral Carvalho), referência em transplantes de medula óssea, para realizar as sacrificantes sessões de quimioterapia.

Mas antes do transplante é preciso destacar a busca pelo doador de medula compatível com seu organismo. Em muitos casos isso demora anos, e o paciente, muitas vezes, não resiste. Mas o jornalista teve sorte. Encontrou o que precisava no seio da família, precisamente em dois irmãos de um total de cinco.

Se o termo que podemos usar é sorte (muitos atribuem a uma providência divina), Carlão ganhou na loteria. Encontrou em 2016 um doador chamado de ‘10x10’, o que significa que a medula óssea é 100% compatível e não parental. A força para enfrentar as dificuldades veio  dos amigos. Em seus 30 anos de sala de aula, ele contabiliza 50 mil alunos, sendo que alguns criaram o grupo no Facebook ‘Amigos do Professor Carlão’, para dar suporte e acompanhar a evolução do tratamento.

(Alcindo junto aos irmãos durante o tratamento, sendo José Roberto (azul) o doador da medula)

O transplante do jornalista aconteceu em dezembro de 2015. Foi um sucesso. Porém, quando se trata de um câncer no sangue, é preciso bastante cuidado ao comemorar. ‘’Os primeiros dias são contados, um a um, como pequena vitórias: D+1, D+2, D+3 e assim por diante’’, relata Alcindo. O processo seguinte ao transplante, conforme o jornalista, é bem complicado. ‘’ No aspecto imunológico, é como se voltássemos à infância, uma nova medula implica um novo sistema imunológico, é um reboot, as defesas zeram. Além do risco de contrair infecções (por bactérias, fungos, vírus), também corremos o risco de haver rejeições de órgãos, sendo as mais comuns de pele, fígado e trato gastrointestinal’’, explica, não deixando esquecer que toda a carteira de vacinação na vida tem de ser refeita. O mesmo processo deve passar o professor Carlão.

(Carlão demonstrou alegria, mesmo diante de uma quimioterapia - Foto: arquivo pessoal)

A segunda vitória de Carlão nesse ano veio com a infusão da medula no dia 17 de novembro. No dia 6 de dezembro, o professor celebrou em sua rede social: ‘’A medula pegou!’’. Em todas suas postagens, durante o tempo de internação para  a quimioterapia, o professor não se deixou abater e tirou fotos com perucas e vestido como personagens famosos. Em uma delas ele sorri e faz o sinal de raio igual ao corredor jamaicano Usain Bolt.

Alcindo hoje está quase vencendo uma rejeição de fígado, que surgiu em julho. Está mais gordo, segundo ele por conta do uso de corticóides no tratamento. Rocha celebra a evolução de seu tratamento, mas vai só vai se considerar curado quando puder retormar sua vida social e profissional.

(Alcindo teve de refazer sua carteria de vacinação. Foram 21 aplicações em 9 meses - Foto: arquivo pessoal)

Mas o ano de 2016 para o professor Carlão não se restringiu às idas a hospitais. Quando descobriu a aplasia medular, ele decidiu promover palestras sobre a doença e a importância da doação de medula. De setembro de 2015 até o mesmo mês deste ano, foram, em média, cinco por semana, inclusive fora do Estado.  Todo esse trabalho rendeu frutos, segundo Carlão, que cita que o Hemosul em Campo Grande registrou aumento de 85% no número de cadastro de doadores de medula óssea; 83 pedidos de confirmação de compatibilidade e mais de 149 mil doadores cadastrados em Mato Grosso do Sul. 


(Carlão faz palestra sobre 'mitos e verdades' da doação de medula óssea - Foto: arquivo)

Sobre suas vitórias no tratamento em 2016, Carlão não atribui ao descobrimento de um doador compatível e ao implante da medula em si, mas ao carinho e ao pensamento positivo dos amigos e familiares, que, estes sim, possibilitaram o sucesso rumo a cura.

Alcindo também leva esclarecimentos sobre a doença para amigos e parentes,destacando a necessidade de doar medula óssea. Esse trabalho é importante, segundo ele, pois há muita desinformação sobre a doença. ‘’Em menos de dois meses vieram me perguntar se leucemia é contagiosa e se a recuperação do doador de medula era tão lenta como a do receptor’’, relata.

Questionado se a vida sorriu para ele em 2016, Alcindo respondeu: ''A vida manifesta suas expressões com a crueza de uma máscara. É preciso deduzir dos seus gestos. Uma vez que aqui estou a narrar essa quase conclusa trajetória de cura, deduzo que ela mais que sorri, ela ri alto''.

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