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Assassinato de mulheres negras e racismo: histórias sul-mato-grossenses

13 novembro 2015 - 14h54Por Izabela Sanchez

Preta sai, Branca fica. Isso não é uma confusão com o nome do filme dirigido por Adirley Queirós. É a realidade escancarada com os dados recém-divulgados pelo Mapa da Violência 2015: homicídio de mulheres no Brasil, da Faculdade Latino-Americana de Estudos Sociais. Enquanto o assassinato de mulheres brancas diminuiu 10% entre 2003 e 2013, o assassinato de mulheres negras cresceu 54%, mostrando que o feminicídio de mulheres negras, é, também, um genocídio.

No mês da consciência negra, o Brasil se vê obrigado a encarar as consequências de feridas que estão abertas desde a colonização. Isso porque, os detalhes dessa violência mostram que o abandono da população negra no país desde o fim do período escravagista empurram e legitimam as mulheres negras aos sub lugares e à marginalização.  Os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que afirmam que a população negra corresponde a 72% dos 10% mais pobres do Brasil é só mais uma confirmação.

O mapa mostra que esse genocídio atinge, principalmente, as mulheres de 18 a 30 anos, e o que é mais alarmante: mortas em casa, na maioria com detalhes que indicam crimes de ódio: 27,1% dos homicídios aconteceram em domicílio, 25,3% com objeto cortante/penetrante, 8% com objeto contundente e 11% com outros objetos. São mulheres que não tem segurança na própria casa: em 33,2% dos casos, o autor era um parceiro ou ex-parceiro.

Marginalização, solidão, racismo e instituições que não representam as mulheres negras são os detalhes perversos que produzem diariamente o assassinato dessas mulheres.


A solidão como violência

Romilda Pizani não dança quadrilha nunca mais. Era só uma menina quando o peso do racismo no Brasil começou a produzir significado. Na escola, também é a única menina negra da sala. Na festa todas as outras meninas que dançariam quadrilha tinham um par, menos Romilda. A professora, então, ‘obrigou’ o próprio filho a dançar com ela.

Romilda hoje é uma mulher de 38 anos, com voz de cantora Soul, e militante de diversos movimentos ligados à população negra e às mulheres negras. O que ela denuncia ao contar um episódio que a traumatizou quando criança é a solidão da mulher negra. É uma solidão construída a partir de uma violência silenciosa, intrincada nos padrões de relacionamento.

Os relacionamentos são acordos sociais quando saem a público. Romilda explica que desse modo, a mulher negra fica de fora. Na maioria das vezes os parceiros são homens mais velhos, já não mais preocupados com pressões sociais. São detalhes que atingem profundamente a auto estima . “Além disso, a hipersexualização ainda é muito latente pra mulher negra, isso tudo contribui pra baixa auto estima, e ela acaba se relacionando com essas pessoas, acaba se submetendo a situações, porque a sociedade não a acolhe e não a recebe”, explica.

O que é ser uma mulher negra no Brasil?


“No trabalho...  independente da pigmentação da pele, porque a sociedade como um todo, principalmente no Brasil, te classifica conforme a sua tonalidade de pele, da pigmentação escura, você está na cozinha ou está limpando o chão, se a sua pigmentação é mais clara você já serve pra atender o balcão. Se você vai ao Comper da bandeirantes ou da região do Aerorancho, lá tem uma pigmentação no caixa, no da Ceará, você vê outra pigmentação, então é em todos os lugares. Na educação, a participação do negro na sala de aula... quando você chega em um ambiente de sala de aula onde começam a rir do seu cabelo, começam a rir dos seus fenótipos, você vai pro fundo da sala e com isso, o seu rendimento já não é bom. A marginalização já começa a partir daí”.


E a solidão não se dá apenas nos relacionamentos. Ela está também em todos os espaços que galgam alguma hierarquia no Brasil. Experimente olhar para a sala de aula de uma Universidade, ao ambiente de trabalho, aos espaços políticos. Onde estão as pessoas negras?


Racismo Institucional


“Como se forma o nosso imaginário em relação à mulher negra no Brasil?

A educação vai reproduzir o racismo no material didático, na forma como os professores trabalham esses temas ligados às questões raciais, ou não trabalham. Na mídia também temos leis para ter representatividade, mas quando uma pessoa negra assume algo na mídia,  que papeis são relegados a ela? Papeis que reforçam esse não lugar, como empregada doméstica, como motorista, sempre aquele que vai servir, isso é histórico no Brasil”.

Ana Luisa Alves Cordeiro tem 32 anos e é mais uma mulher que constrói a resistência e o empoderamento das mulheres negras. Ela é autora da tese de doutorado em educação “Políticas de ação afirmativa: implicações na trajetória profissional e acadêmica de negros(a) cotistas egressos(a) da UEMS entre os anos de 2007 à 2012”. Ana afirma que o racismo institucional também é perpetuado pelos poderes ideológicos do Brasil. Da televisão às salas de aula, o que se vê é a ausência de pessoas negras em lugares de poder, ou mesmo a representação através de sublugares.


             A futura doutora em educação, Ana Luisa Alves Cordeiro (foto: Izabela Sanchez)



Feminismo branco, leis brancas

Mato Grosso do Sul ocupa a 5ª posição em violência doméstica, além de ser o estado que mais realiza atendimentos nas delegacias especializadas de atendimento à mulher e ligações para o 180. Atendimento que parece não chegar às mulheres negras. Outro aspecto, é o fato de que, sozinhas, as leis não conseguem diminuir a violência. A falta de políticas públicas e de debate sobre a violência de gênero e de cor contribuem para essa realidade. Tudo isso somado à ausência do recorde das questões de cor em intituições como as delegacias, Casa da Mulher Brasileira e dentro do próprio movimento feminista.

“A falta de trabalhar essas especificidades reforça a marginalização. Quando você trabalha a questão das cotas em um âmbito social, por exemplo, e não em um âmbito racial, você está sim fortalecendo a questão do não negro”.  Romilda denuncia uma sociedade onde o racismo é velado e ignorado, e quando não há ênfase na questão da cor, todos os avanços nas leis conquistadas pelo movimento feminista acabam marginalizando as mulheres negras.

“A partir do momento que elas não estão atendendo e visibilizando as mulheres negras, elas não estão cumprindo seu papel 100%, mas são conquistas. Hoje o racismo é um crime, está no código penal, é uma lei. Mas quem foi condenado? Que mulher negra que sofreu um racismo e viu seu agressor ser condenado? Então, a impunidade, ainda, nos crimes de racismo, de violência contra a mulher é grande”, explica Ana Luisa.


A força da militância e o poder da Educação

A história mostrada no Brasil e ensinada nas escolas reforça que a população negra foi apenas uma vítima passiva de todos os processos de opressão. O que não corresponde a realidade. Movimentos, militâncias, levantes e diversas formas de resistência sempre foram realizados. E o que se vê agora, como explica Ana Luisa, é um momento que faz com o que o racimo passe a ser uma questão social, em que o país é obrigado a encarar sua imagem simbólica destruída. São as questões do Enem, a denúncia do Mapa da Violência e o empoderamento de meninas negras com seus cabelos cacheados e crespos: todas consequências da luta do movimento negro e das mulheres negras.

Na terra que tenta esconder que sua fundação foi feita por uma ex-escrava, a famosa Tia Eva, Ana Luisa está para concretizar o Doutorado em Educação, inspirando a juventude do mesmo modo como a mãe a inspirou. A família superou uma origem de dificuldade social, vivência da periferia, onde Ana observada diversas mulheres negras seguirem para empregos mal pagos e mal valorizados.

“Se eu olho pra minha trajetória hoje, eu percebo que isso é um diferencial, do incentivo a estudar, que vem desde a minha mãe, e meu empoderamento vai influenciando tantas jovens hoje, e eu acho isso fabuloso”, conta Luiza com o rosto iluminado pelas conquistas.

"Há alguns anos atrás eu fui convidada pra participar do concurso beleza negra. Eu me lembro muito da fala da minha vizinha. Ela chegou em mim e disse assim: 'Romilda, vai ter um concurso, mas é um concurso só de pessoas como nós'. Aí isso, naquela época... falei: 'Um concurso de pessoas como nós?', 'Negra, como a gente'. Foi esse o momento que marcou o reconhecimento de Romilda como mulher negra. Hoje, a filha mais velha já leva a militância da mãe para a escola.

             A voz e o sorriso de Romilda são detalhes do seu encanto (foto: André de Abreu)

"Certa vez ela foi fazer um trabalho de escola e ela se desenhou de cor marrom. E aí a professora perguntou: 'ah mas por que você se desenhou com a cor marrom'? Aí ela olhou pra professora: 'ah professora, porque eu sou negona'. E a professora riu, gostou, achou muito legal. Mas a diferença está justamente aí: hoje, por contas das oportunidades e do trabalho que o movimento fez para que isso acontecesse, as famílias negras estão se identificando e passando isso para os seus filhos, e o resultado disso é o próprio IBGE lançar uma nota dizendo que até então, nunca, tantos afrodescendentes  tinham se reconhecido como tal".

Mas ainda há muito o que se avançar.

Uma das leis conquistadas pela luta da militância da população negra foi a lei 10.639, que obriga a rede de ensino público a ter "História e Cultura Afro-brasileira" no currículo. Mas não só a temática não é vista nas escolas, como os Planos Municipais de Educação excluíram gênero e questões étnicas. É o racismo e machismo de muitos ocupantes de cargos políticos travando os avanços da cultura negra no Brasil.

“E quando a gente pensa em educação é exatamente isso: não vamos discutir gênero, não vamos discutir diversidade sexual... aí a gente olha esses dados... como não discutir gênero? Aqui em Campo Grande, junto com as questões de gênero e diversidade, se você pegar a cláusula, foram retiradas as relações étnicas e raciais. E aí como você não discute? Aí você não desconstrói esse imaginário, de que pode dar porrada, se achar em um direito de dar um tiro”, defende Ana Luisa.


Branca sai, preta fica

A fronteira foi ultrapassada. Hoje toda a história e vivência da opressão de pessoas e mulheres negras no Brasil invade os dados, a voz e a militância dos espaços públicos e políticos. A 1º marcha das mulheres negras que irá acontecer em Brasília no próximo dia 18 é a prova disso. O ato promete reunir diversas militantes de todo o Brasil, e só de Mato Grosso do Sul dois ônibus e uma van irão se dirigir a capital federal.

É o Brasil se vendo obrigado a pagar a dívida. A dívida de ter mais da metade da população negra e de não incluí-la em qualquer espaço que seja mais do que apenas sobreviver. Enquanto mulher branca, ao me olhar e observar minha vida, percebo que essa dívida também é minha. Como bem pontuou a jornalista Eliane Brum certas vez: “No Brasil, o melhor branco só consegue ser um bom sinhozinho”. E também serve para que eu reconheça que só a voz vibrante de mulheres como Romilda Pizani e pesquisadoras como a próxima doutora brasileira Ana Luisa, irão tirar o Brasil desse índice vergonhoso. Coloco então, minha voz no fim da fila e me emociono ao ver o poder dessas mulheres e o futuro que já anunciam transformar.

“E eu vejo na educação uma forma de transformar. Sempre lutei na minha vida pra não parar de estudar. Como o Paulo Freire fala: a educação transforma pessoas e pessoas transformam o mundo”, é o recado que Ana Luisa dá para o Brasil.