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Assovio não é elogio: jovens dão voz a mulheres que sofrem assédio na rua

08 março 2016 - 16h05Por Izabela Sanchez

Assédio de rua. Foi com um livro-reportagem escrito este ano por três mulheres estudantes de jornalismo que surge um termo ainda pouco utilizado na sociedade para denominar uma violência: o assédio sofrido por mulheres nos espaços públicos. O projeto será apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), para a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e retrata uma realidade que ocorre em todo o país.

Juliana Barros, 23, Fernanda Palheta, 23 e Juliane Garcez, 22 sempre militaram juntas na faculdade e, além de amizade, as três estudantes compartilham o amor pela luta feminista. Foi essa luta que fez com que voltassem os olhos para essa violência que ainda é invisível na sociedade, mas que agora deve ganhar uma nova arma,- ao menos para as mulheres de Campo Grande-, com o livro “Não é elogio: Assédio de rua em Campo Grande”.

                         Capa do livro, ilustrada pela Juliane (foto: Juliana Barros)

  

“Desde que a gente entrou na faculdade é uma coisa que a gente tinha muita proximidade. No ano em que tivemos essa conversa teve o caso da Valentina no Masterchef [criança que sofreu uma onda de assédios virtuais ao participar do programa de competição culinária para crianças]... por que a gente não fala disso, desse assédio?”, conta Fernanda, sobre o momento em que decidiram escrever sobre o tema.

Um processo que não foi fácil. Logo no início, elas já se depararam com uma característica da cultura machista: a ausência de estudos bibliográficos ou mesmo de definições legais do assédio das ruas, do espaço público. “Logo no início, a gente já percebeu que a cantada, o ‘fio, fio’, não tem um termo”, contaram. “O corpo da mulher é considerado público, o cara se sente no direito de falar sobre esse corpo, de dar opinião e de julgar”, explicou Fernanda.

Mesmo com a dificuldade, as três decidiram investigar, por conta própria, toda a cultura que envolve o assédio. Construíram uma enquete online, que foi distribuída em espaços virtuais, e aí veio a surpresa: 449 mulheres responderam as questões, e foram além, procurando as três estudantes para contar relatos. Desse modo, o que o trabalho mostrou é que há uma ausência de voz a mulheres que sofrem assédio na rua, ausência que é sentida, e que, agora, o livro vai preencher.

                                                             (foto: Juliana Barros)

O livro não é apenas inovador no tema. A linguagem em que o trabalho foi construído é experimental, já que além de introduzir o debate sobre termos diversos que envolvem o assédio de rua e que, ainda são pouco compreendidos, o material narra histórias de quatro mulheres, com os relatos que são acompanhados por narrativas em quadrinhos. As histórias em quadrinhos foram ilustradas pela Juliane, cuja sensibilidade no tema se transformou em aquarelas mostrando a diversidade das mulheres através da arte.


Jornalismo de profundidade 

O trabalho de conclusão do curso de jornalismo também foi um processo de desaprender o modo técnico como as faculdades muitas vezes ensinam a entrevistar e ouvir pessoas, e aprender como lidar com relatos que atingem as mulheres de modo profundo. “ A gente sempre tentou abordar de forma humanizada. Quando a gente começou a conversar com a personagem a gente sentiu muita falta disso, de como lidar. Quando a gente vai tratar de um tema que envolve uma violação, é muito difícil, muito complicado”, explicaram.

Fernanda, Juliana e Juliane contaram, por exemplo, que muitas mulheres, pela falta de debate e definição do termo, acabavam contando sobre outros tipos de violência, o que ensinou a entrevistar de modo humanizado, levando em conta o respeito às vivências relatadas. “Foi meio constrangedor, ouvir e aí você pensar, não, não é sobre isso que estamos falando. Como você vai invalidar o que foi contado?”, contaram elas.


De mulheres para mulheres 

O trabalho se diferencia porque as três sabem bem sobre o que trataram, já que escrever sobre assédio quando se é mulher é se aprofundar através da narrativa, de uma violência sofrida diariamente. É um dos fatores que torna o livro um símbolo de luta e solidariedade de gênero, como contaram elas, felizes pelo trabalho significar uma forma de militância de mulheres para mulheres. “O legal foi que as personagens vieram até a gente, elas viram a enquete, e vieram até a gente para contar as histórias. A gente percebia que a gente se sentia como essas mulheres”, afirmaram.

“- O que mudou em vocês durante todo esse processo?

- O que acrescentou muito foi essa questão da interseccionalidade. A gente falou com uma mulher negra, que falou sobre a diferença do assédio que ela sofre, conversamos com uma assistente social que é indígena, e vimos que, mesmo sendo todas mulheres, sofremos de forma diferente”.



                                                                 (foto: Juliana Barros)

No fim do processo, uma lição fortalecida: quando se fala no gênero mulher, fala-se sempre no plural. Respeito à diversidade das lutas, que envolvem classe, cor e etnia, que as três futuras jornalistas irão levar como diferencial para a profissão.