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Especiais

Migração das etnias indígenas para a Capital mostra a expulsão da terra

28 novembro 2015 - 15h11Por Izabela Sanchez

Antes era o tempo da natureza. Tempo que amarra a ordem das coisas em um ritmo cíclico e sem pressa. Tempo de acordar e ouvir sons de pássaros. Tempo de luz recortando diversos tons de verde nas árvores, nas flores. Tempo de pegar fruta no pé. Tempo de ter para si o próprio tempo. Essa era e ainda é a vida de muitas pessoas de diversas etnias indígenas em Mato Grosso do Sul. É também o contraste em relação ao tempo da vida de uma pessoa indígena na cidade.

Em meio a diversos conflitos e problemas nas terras tradicionais, muitos indígenas deixam as aldeias de Mato Grosso do Sul e se integram à lógica da cidade. Com a ameaça da Proposta de Emenda à Constituição, a PEC 215, que quer transferir a demarcação das terras indígenas, de atribuição do Executivo, para o poder legislativo, uma das possibilidades é que o êxodo rural se intensifique ainda mais.

Essa é a primeira matéria da série “Aldeias urbanas: histórias do êxodo rural indígena”.


O tempo da natureza

Enio Terena era ainda menino, de uns 10 ou 12 anos e vivia na terra indígena Moreira, no município de Miranda. Vivia na época que ele considerava feliz e saudável. Juntavam todos os outros meninos no “corguinho”e lá eles pescavam ao modo terena. Realizavam o Vihixoti. Em meio ao rio e uma abundância de peixes e espécies, os meninos usavam a palha de bacuri e alguns pedaços de pau para pescar. Uma técnica desenvolvida pelos terenas, que fazia com que só pegassem os peixes maiores, que realmente seriam utilizados para a alimentação.

“Aí os pequenininhos, vai jogando pra trás, ali vem jacaré, vem cobra... Era muito bonito, aí cada um pegava o suficiente, e era dividido por igual”.

                           Enio lembra da época em que era criança, na aldeia Moreira (foto: Geovanni Gomes)

É dessa época, também, o tempo em que alimentar-se possuía uma lógica de espera, de dedicação. Lógica em que os próprios esforços, o tocar na terra, nos animais e nas plantas fazia com que transformassem matéria viva em alimento. Uma semana ficavam em meio ao interior da mata caçando. Uma semana prestando atenção aos sons que os animais produziam, aos sinais que a própria natureza dava, indicando a hora de ficar de tocaia, e a hora de atacar. E então voltavam, trazendo alimento para um mês.

Era uma paz que estava para ser alterada. Alterada por homens que se fixaram na terra em meados da segunda metade do século XX e inverteram completamente a lógica das aldeias em Mato Grosso, e posteriormente, em Mato Grosso do Sul. Portando documentos que provavam a posse e reclamando a terra, as cercas que separavam a terra indígena das fazendas dos homens brancos começavam a mover-se.


A ditadura militar e as terras indígenas

“Pedrossian mesmo foi nosso maior mais problema. Um dia estávamos em uma audiência pública e eu falei: ‘esse Pedro Pedrossian tinha uma cerca sonâmbula’. ‘Cerca sonâmbula por que’? ‘Toda noite essa cerca andava e amanhecia lá na frente’. Aí meu pai mandou abrir uma estrada. ‘Daqui não passa mais’. Foi a fazenda Petrópolis, onde eles surraram os índios lá”.

O que Enio conta é hoje comprovado pela documentação extraída do período da ditadura militar. O Relatório Figueiredo que faz parte dos documentos da Comissão Nacional da Verdade foi produzido em 1967 e só foi descoberto recentemente. Ele mostra outra faceta da ditadura. O relatório descreve que terras indígenas em Mato Grosso do Sul eram arrendadas ou vendidas pelo Estado, responsável por emitir os títulos. Também mostra que diversas crueldades eram cometidas, desde torturas até a disseminação de doenças, tudo com o aval do órgão que antecede a Funai (Fundação Nacional do Índio), o extinto SPI (Serviço de Proteção ao Índio).

Como aconteceu no estado de São Paulo, a recente colonização das terras do antigo estado uno Mato Grosso culminou em um projeto que via nos povos indígenas, no modo de viver e nos saberes tradicionais um obstáculo a ser removido. Removido pela ajuda do estado de exceção da ditadura e seus projetos de desenvolvimento, e pelo antigo governador do estado Pedro Pedrossian. A terra terena Moreira é ainda motivo de conflito entre a etnia e a família do antigo governador.

No entanto, a ação dos projetos de agronegócio dos fazendeiros que receberam os títulos pelas terras e também de muitos grileiros, não ficou restrita ao lado das cercas que marcavam a divisão entre as fazendas e o que restou das terras indígenas. Foi nesse período que se instalou, também, a revolução verde, a economia das monoculturas e os agrotóxicos. Os venenos usados nas plantações, como explicou Enio, começaram a alterar a terra, os rios e tudo aquilo que significava a subsistência dos povos indígenas em Mato Grosso do Sul. “Antigamente não tinha agrotóxico. Agrotóxico é o que mais acaba com a caça e com a pesca. Antigamente não pulverizava as plantações, né. E depois que surgiu isso aí, foi degradando, acabando com os rios”.

Terras reduzidas, ausência de infraestrutura e assistência social nas aldeias culminaram na intensa migração para as cidades.


Aldeia, urbana

Por conta do espaço restrito, de ver os filhos sem escola e oportunidades e sem saúde de qualidade, Enio migrou. O terena, que é de uma família de caciques, é um dos moradores originários da primeira aldeia urbana do Brasil, a aldeia Marçal de Souza, no bairro Tiradentes.

                              Aldeia urbana Marçal de Souza, no bairro Tiradentes (foto: Geovanni Gomes)

“Foi triste. Pra mim vir embora, achei muita falta. Gostava muito da vida lá. A chegada foi com dois sacos. Nós penamos, vixi. Quando chegamos aqui nós penamos. Quando chegamos, só tinha um barraco daquele tamainho, que eu fiz. Meu filho era pequeno, só tinha a cama dele. Dormi um ano no chão, no colchão. Aí depois veio aquele projeto, habitar Brasil, aí fizemos essas casas. Aí construímos essa casa”.

Fundada em 1995, atualmente vivem na aldeia Marçal cerca de 170 famílias das etnias Guarani, Kadiwéu, Kaiowá, Terena, Ofaué e Xavante. São índios que viviam à margem na capital ou que vieram do interior, ocuparam o local e a prefeitura teve de regularizar a moradia. Marçal de Souza foi líder da etnia guarani-nhandevá, e lutou pela retomada das terras indígenas no estado. Foi assassinado em 1983 em uma emboscada.

Enio, que antes se orgulhava do ofício “agricultor dos Terenas”, teve de aprender a viver pelo dinheiro que ganhava com construções. Tudo pelos filhos, como ele explica. Ele também foi cacique durante muito tempo, liderança que hoje é de uma mulher, Enir. Hoje ele é presidente do Conselho de Segurança Indígena.


“- Qual a diferença de ser um líder lá na terra indígena e aqui em aldeia urbana?

- Aqui é mais difícil porque é problemático, muita miscigenação né, muita mistura de branco com índio. Alcoolismo, drogas. Nós fomos agraciados com a medalha Tiradentes de violência zero. Porque tem problema na Água Bonita, a gente vai, no Noroeste, a gente está lá, e a gente vai conciliando as coisas, só em última instância liga pra polícia. O índice de violência aqui é muito baixo”.

Mesmo depois de tantas mudanças a saudade de viver na terra não mudou. Enio criou e formou os filhos, e agora planeja voltar. Sente falta de plantar, mas sente ainda mais falta da comunidade, da vivência coletiva com as pessoas.

“Também sinto falta da liberdade que eu tinha, plantar, colher frutas, chegar no pé de laranja e apanhar a laranja. Aqui não, tudo é comprado né. É como eu disse: tudo que você tem aqui não é seu. E a amizade né? Aquela roda de amigos é gostoso”.

Tudo que se tem, na verdade, não se tem. A estranha lógica das propriedades no meio urbano não é incorporada facilmente pelos indígenas mesmo que vivam na cidade. Enio quer voltar para o que ele chama de “seu”.

“- Os Terenas vão ajudar os Guaranis. Chega de massacrar os Guaranis. Eles com umas taquarinhas batendo no chão e os fazendeiros com armamento pesado.

- Se a PEC 215 for aprovada, vai aumentar o êxodo?

- Vai ser a morte dos índios. Mas nós não vamos mais arredar o pé, nós vamos resistir”.