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Na cidade, índios vivem entre comunidade tradicional e moderna

30 novembro 2015 - 09h59Por Izabela Sanchez

Leopoldo Vicente é um ancião Terena de 84 anos. Há muito tempo que vive na cidade. Natural da aldeia “brejão” em Nioaque, foi “no tempo da revolução de 64 que as coisas começaram a mudar e ele veio para a cidade”. Há muito tempo que ele acompanha como é a vida de uma pessoa indígena no meio urbano. Algumas coisas não se perdem, como o porrete de madeira que ele usa como apoio. Outras, no entanto, ele observa irem embora, e teme que nunca mais voltem. Na sala, enquanto assiste televisão, Seu Leopoldo sente em cada parte do corpo que a idade chegou e que perde as forças para mudar o que quer. Assiste a uma tv em que só se ouve o português, além de ouvir diariamente o bisneto, que não fala a língua Terena. É assim que o ancião sente que sua cultura está desaparecendo.

Essa é a última matéria da série “Aldeias urbanas: histórias do êxodo rural indígena”.

Um bairro periférico da capital, o Vida Nova III, abriga duas aldeias urbanas e um assentamento com diversos barracos. Lá estão as aldeias Água Bonita e Tarsila do Amaral. Lá convivem, também, perspectivas diferentes sobre a vida de uma pessoa indígena no meio urbano.

De um lado, o ancião de 84 anos Leopoldo Vicente, morador da aldeia Água Bonita, que acredita que viver na cidade fragmenta e acaba com a cultura tradicional indígena. De outro lado, uma liderança feminista, Alicinda Tibério, que viu na migração para a capital, a única saída para a submissão que sofria no casamento.


A perda do sentido de comunidade e a ação das igrejas

“Na verdade nós estamos perdendo essa cultura, acho que daqui algum tempo está desaparecendo tudo. Tem vergonha de assumir a cultura, a dança que nós tínhamos acabou, não existe mais. Vive separado né. Na aldeia é um, e aqui é outro”. Seu Leopoldo chama a atenção para um aspecto da vida indígena que ele acredita se perder na cidade: a vida em comunidade. Na perspectiva do ancião, a vida na cidade é muito individualista.


“Como era viver em comunidade lá?

Era muito bom, tinha mais união. Hoje, muitos patrícios indígenas... vai muita igreja lá do lado deles. Aqui mesmo na aldeia tem 60 casas, e tem 4 igrejas aqui”.

       A tradição vista pela perspectiva de um Terena de 84 anos, Leopoldo Vicente (foto: Geovanni Gomes)

A comunidade, muitas vezes, se divide e se coordena de acordo com a igreja a qual frequente e pertence, como explicou Oidi, líder na comunidade do InduBrasil.


“Não acontecem encontros aqui?

Acontece encontros mais quando a gente faz movimento dentro da igreja”.

Além do individualismo que a vivência na cidade e a falta de tempo por conta do trabalho podem trazer, ter uma nova religião, muitas vezes significa perder práticas antigas, que podem não são bem aceitas por igrejas cristãs.

“É, foi difícil se adaptar né. A religião evangélica entrou muito nas aldeias, foi tirando a cultura, que é a reza, a dança, e tem umas igrejas que acham que é obra de feitiçaria, obra demoníaca, aquele choque de cultura... Ontem a gente tava comentando isso... chegava a época da Guavira, as índias cantavam, agradecendo a Guavira, agradecendo o Pequi. Então cada tipo, cada época de frutas, tinha uma canção que as índias cantavam em agradecimento ao deus,  na língua terena, e é uma coisa que a gente sente saudade”. Enio, presidente do Conselho de Segurança Indígena, da aldeia urbana Marçal de Souza, lembra com saudade das práticas e religiosidades tradicionais da cultura Terena. Também conta que uma vez foi chamado para resolver uma briga, entre pessoas de uma igreja evangélica, que se incomodaram e ofenderam indígenas da aldeia que realizavam cultos tradicionais.

“A língua, penso eu, é que está meio difícil de segurar... os brancos, na escola. Aqui mesmo, por exemplo, a vizinhança é só branco, você não ouve mais a língua”, explica Seu Leopoldo. Apesar de ter uma população indígena expressiva, a representatividade das línguas tradicionais, como a língua Terena, acaba se perdendo quando as crianças indígenas vão à escola onde só ouvem e aprendem o português.

“Eu falava meio arrastado... agora que estou melhorando. Eu tenho um neto, eu não falo em português com ele, só em Terena, porque ele se vira lá no colégio né”, é a estratégia de Oidi para que o neto aprenda a língua Terena.


Uma líder feminista

Apesar dos problemas que acontecem com a perda dos modos tradicionais indígenas, também há aspectos positivos. Alicinda Tibério é um exemplo. Ela é uma líder, que prefere chamar de feminista, na aldeia urbana Tarsila do Amaral. A indígena, que era agricultura e feirante, veio da aldeia Limão Verde, em Aquidauana, onde deixou um histórico de violência doméstica para trás. Foi a coragem de enfrentar as dificuldades e vir para a cidade que fez com que ela unisse e ajudasse a criar uma aldeia urbana e também fez com que, hoje, tenha planos de voltar à Limão Verde.

                          Terena de pele branca, Alicinda Tibério (foto: Geovanni Gomes)

“Hoje mudou muito, na época ela (mulher) era muito tradicional dentro da comunidade indígena, era muito fechada, o que acontecia ali raramente ela podia distribuir, porque a mulher indígena preserva muito a sua família. Eu fui uma das que quebrei isso, e quando eu rompi isso muitas delas vieram atrás. Então não era só eu que sofria”.

Além da liderança feminista e da coragem de trazer luz para a questão da opressão de gênero dentro das aldeias, Alicinda tem na própria pele outra particularidade: ela é uma Terena branca. Filha de pai branco que não quis assumir a família, quem a criou dentro da aldeia foi a mãe Terena, e foi como indígena que Alicinda formou sua identidade.

                        A mãe de Alicinda olha séria para as lentes (foto: Geovanni Gomes)

A líder agora vai voltar para Aquidauana, onde quer se candidatar a vereadora no próximo ano. Quer melhorar a agricultura dos Terenas, e destacar a vida das mulheres indígenas. Na Tarsila do Amaral, ela já ajudou a criar a Associação de mulheres indígenas, que preside. Foi graças à associação que muitas mulheres indígenas puderam fazer diversos cursos e ter mais oportunidades em Campo Grande.

“E a aldeia (Limão Verde) começou a ver a valorização da mulher, inclusive dentro da comunidade. Eu era feirante e produzíamos de tudo lá, tudo que plantava nós comíamos, eu sinto muita falta, essa alimentação da cidade não é muito boa pra gente né. Então eu tenho muita honra de dizer que sou feirante, muito orgulho dessas mulheres terenas”.

Alicinda também conquistou mais segurança para as mulheres indígenas da capital. Foi por conta da luta dela e de outras mulheres indígenas, que ela e outra indígena Guarani são intérpretes das línguas indígenas Terena e Guarani na Casa da Mulher Brasileira.


“- Então, o que define uma pessoa indígena?

- Ser indígena é ser alguém de muita luta”

Eles estão nas aldeias lutando para ter de volta suas terras em um dos estados mais violentos do Brasil com os povos indígenas, também estão em comunidades e aldeias urbanas, nas universidades, no mercado de trabalho e nas reivindicações em Brasília. Se procurarmos, os povos indígenas estão em todo lugar. O ser indígena com certeza não tem o mesmo significado depois de tantas colonizações. Mas ainda assim, entre o espaço marginal que ocupam na maioria dos lugares, pertencer a uma etnia originária do Brasil ainda compartilha algo em comum: a necessidade de lutar para poder ser.

Apesar de ser uma ameaça de intensificar o êxodo rural, talvez a PEC 215 também tenha outro aspecto, o de unir os povos indígenas na luta pela terra e pela vida. Ou como afirmam as lideranças, que agora invertem o fluxo migratório ao voltar da cidade para a terra: “não iremos mais arredar o pé”.