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No dia da mulher, mãe chora os dez anos de impunidade da filha vítima de feminicídio

Anauanny sofreu porque ex-marido a tinha como uma propriedade privada

08 março 2017 - 18h00Por Thiago de Souza

Foi exatamente no dia Internacional da Mulher, 8 de março de 2007, que a professora Maria Iraides Martins,52, enterrou a própria filha, Aparecida Anauanny Martins de Oliveira, 18, assassinada e estuprada pelo ex-marido que tinha ciúmes doentio e não aceitava o fim do relacionamento. Dez anos depois, a mãe lamenta que o suspeito tenha fugido sem pagar ''nenhum centavo'' pelo crime. 

A mãe recorda que Anauanny era uma jovem muito bonita, divertida e vaidosa. Porém, o brilho da vida da estudante começou a se apagar quando conheceu Eduardo Dias Campos Neto, na época com 25. Iraídes conta que não era normal o sentimento de posse que ele tinha pela filha. ''Ela era estudante, mas ele a proibiu de frequentar a escola. Tinha ciúmes dos próprios colegas e dizia que tinha vontade de furar o olho de quem olhava para ela'', relembra. 

Anauanny foi criada no distrito de Anhanduí, onde a mãe dela leciona em uma escola municipal até hoje. Assim que se casou foi morar em Campo Grande, no bairro Coophamat. Os dois tiveram um filho, mas tempos depois a jovem não suportou mais a vida de 'escravidão emocional', largou o marido e foi com o filho morar com a mãe no pequeno distrito. 

Segundo Iraídes, após a separação, o acusado insistia para ver Anauanny com o argumento que era para ela pegar dinheiro para a criança. ''Ele já havia jurado ela de morte caso não voltasse pra ele'', contou a mãe. 

No dia 6 de março daquele ano, a vítima foi até a casa de Eduardo buscar o filho que estava com a mãe dele, porém, não voltou mais para a casa. 

''Ficamos três dias procurando por ela, nós e a polícia procuramos em todo lugar. A mãe dele supôs até que os dois tinham se reconciliado e fugido'', relembra Martins. 

Só que no terceiro dia veio a notícia que chocou a cidade. A jovem, de beleza radiante e que só procurava ser feliz, foi encontrada morta, estrangulada, e estuprada, atrás de um sofá-cama, dentro da própria casa onde Eduardo e a mãe moravam. A mãe do suspeito chegou a ser questionada pela polícia, mas alega que não percebeu nada de anormal no imóvel por três dias. Eduardo àquela ‘altura do campeonato' já havia fugido. A prisão preventiva dele foi renovada pela Justiça no dia 31 de janeiro deste ano e foi despachada para a Polinter. 

O caso de Anauanny é mais um dentro de uma triste estatística no Brasil. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o país registrou 4,8 assassinatos de mulheres para cada 100 mil mulheres em 2013, sendo a quinta maior do mundo em uma lista de 83 países.  

Entre 2003 e 2013, o número de mulheres mortas em condições violentas passou de 3.937 para 4.762, registrando um aumento de 21% na década. Somente em 2013, foram registradas 4.762 mortes de mulheres – o que representa 13 homicídios femininos por dia.

(Iraides ensina 'que nesse mundo ninguém é de ninguém - Foto: arquivo pessoal) 

Hoje, no Dia Internacional da Mulher, Maria Iraides fez um desabafo nas redes sociais a fim de que o crime não caia no esquecimento e que o suspeito possa pagar pelo que fez. Em sua página no Facebook, ao lado da foto de Anauanny, ela escreveu: ''Dia Internacional da Mulher, minha princesa foi uma vítima de violência. Dez anos de crime impune!!!''. 

Nos 34 comentários que a postagem gerou, amigos e familiares da jovem também lamentaram a impunidade nesse caso, mas todos disseram esperar em Deus a Justiça que não foi feita na terra. ''É Verdade, são coisas que não tem explicação. Saudade e um vazio muito grande e um sentimento que não tem explicação. Somente Deus pra nos dá força e nos sustentar dia à dia. Mas pode ter certeza que a justiça de Deus não falha’’, escreveu uma familiar. 

A jornalista Laiana Nantes, amiga de infância da jovem disse que Anauanny foi vítima do ''machismo e da misoginia'' (desprezo e ódio contra as mulheres) e da ideia, em sua maioria comungada por homens, de que ''se não ficar comigo, não vai ficar com ninguém''. Também na rede social ela deixou uma mensagem no dia dedicado às mulheres. ''A única homenagem que me interessa é o fim da violência e do ódio a nós, mulheres! Sejamos também a mudança, ao criar nossos filhos sem machismo, sem cultura do estupro. Não, eu não tenho bode! Não, eu não sou cabrita! Sim, eu sou dona de mim e da minha vontade!''. 

Essa também é a opinião de dona Iraídes, que acha que a pessoa que possui esse sentimento excessivo de posse e de ciúmes precisa se tratar com urgência. A mensagem que a mãe deixa para a sociedade, e faz questão de ensinar para o neto, filho de Anauanny, hoje com 12 anos, é que ''ninguém é de ninguém e que ninguém fica com ninguém pressionado, tem de ser de livre e espontânea vontade''.