Cerca de 100 pessoas, entre parentes e poucos amigos, compareceram ao velório de Cira da Silva, 46 anos. Sua morte foi recebida como uma segunda perda pela família que a amparava na retomada da vida após permanecer 22 anos em cárcere privado.
Mesmo sabendo da gravidade da enfermidade que a acompanhava desde o confinamento, Cira se dizia esperançosa em superar o câncer. “Ela sempre disse que ia ficar bem para cuidar das crianças e retomar a vida. Infelizmente não deu tempo”, diz a irmã Vilma da Silva.
De acordo com os familiares, pouco a pouco Cira retomava sua vida. “Ela tinha muitos traumas ainda, às vezes ficava quieta nos cantos e a gente tentava animar ela, mas era normal, sofreu muito e de vez em quando ficava lembrando de tudo”.
Em todo tempo em que esteve livre Cira jamais perguntou sobre Ângelo da Guarda Borges seu ex-companheiro e acusado de tê-la mantida presa, junto aos quatro filhos, em uma casa no bairro Aero Rancho.
Para a família resta a tristeza e a imaginação do que seria da vida de Cira senão houvesse sido privada de liberdade por vários anos. “Nós não queremos culpar o Ângelo, mas a gente pensa que tudo poderia ter sido diferente se ela tivesse sido tratada no começo. Ele sabia das dores dela e não dava a permissão”, lamenta a irmã.
Vilma explica que após a descoberta efetiva da doença, poucos meses de vida restaram a Cira. “Foi tudo muito rápido, quando descobrimos o câncer já estava em estágio avançado. Foram só três meses”, diz emocionada. No último mês de vida, Cira esteve internada no Hospital Alfredo Abrão e pouco a pouco foi perdendo o funcionamento dos órgãos, tomados pelo câncer.
Agora, o que une a família é a necessidade de se ajudarem na criação dos filhos de Cira. Com 16, 15, 10 e 6 anos, as crianças ainda possuem dificuldades de socialização, mas são tranquilas e amorosas, segundo uma prima que preferiu não se identificar.
“As crianças vão continuar vivendo com meu pai, mas somos sete irmãos e todos iremos colaborar com a criação dos meninos”, disse Vilma.







