Menu
Busca domingo, 17 de novembro de 2019
Geral

O que pode ter levado idosas a cavar à mão um quintal durante 8 anos?

Psiquiatra explica que comportamentos desse tipo normalmente estão relacionados a surtos psicóticos, possivelmente causados por esquizofrenia

11 julho 2019 - 15h34Por Da redação/Portal R7

A imagem de um terreno inteiro escavado à mão por duas idosas durante quase uma década causa perplexidade. A casa em que elas viviam, em Maceió (AL), ficou ilhada em um buraco de cerca de 2 m de profundidade. As informações iniciais de agentes da prefeitura indicam que as duas irmãs sofrem de transtornos mentais.

"Visivelmente já é possível afirmar que elas possuem algum transtorno. Uma delas se isola totalmente quando vê pessoas. A outra diz que tem uma missão de Deus, que tem que ver se a casa está segura...", conta Rita de Cássia Pedrosa, coordenadora do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) que atendeu as irmãs. 

Um vizinho relatou à TV Pajuçara, afiliada à Record TV, que elas acordavam de madrugada, por volta das 3h, todos os dias para cavar. A vizinhança chegou a ter problemas por causa do descarte excessivo de terra. As duas não possuíam vínculos com a comunidade nem com a família. Um filho foi chamado por um vizinho há cerca de três anos, entretanto nada mudou.

Mas qual tipo de transtorno mental poderia afetar as duas ao mesmo tempo para que uma não impedisse a outra de cavar? Com os relatos fornecidos pela reportagem, médicos psiquiatras traçaram algumas hipóteses. Vale ressaltar que as duas ainda serão submetidas a avaliações para fechar o diagnóstico. 

"Primeiramente, é preciso entender que é um quadro psicótico. As pessoas que têm vivem em uma realidade diferente, explica a psiquiatra Fatima Vasconcellos, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria. O psiquiatra Ivan Mario Braun, doutor em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, acrescenta que esse comportamento pode estar ligado a "ideias delirantes de cunho paranoico religioso". 

"Este tipo de crença pode ocorrer no contexto de um transtorno delirante ('paranoia'), em esquizofrenias, em fases maníacas psicóticas do transtorno bipolar, em psicoses decorrentes de algumas doenças físicas que afetem direta ou indiretamente o cérebro, incluindo alguns quadros demenciais em início (em fases mais avançadas, quadros demenciais impossibilitam comportamentos mais complexos)."

“Estes comentários são hipóteses vagas baseadas nas poucas informações disponíveis e de modo algum servem para diagnosticar com segurança o caso das idosas”, ressalta Braun. O médico observa que nem sempre as duas pessoas têm a doença. 

"Nestes quadros, pode ocorrer que a pessoa que convive com a psicótica desenvolva comportamentos induzidos pela psicótica, mesmo não tendo o mesmo transtorno. Isto ocorre sobretudo quando a pessoa psicótica tem alguma precedência sobre a outra. Em algumas situações, isto é denominado de 'folie a deux' ou 'loucura a dois'."

Fatima diz que praticar atos repetitivos, como o de cavar diariamente, não é uma característica da doença. "Tem um padrão de comportamento, mas não necessariamente é um ato repetitivo, por acaso foi." A médica alerta para o tempo que vizinhos e parentes permitiram que as idosas permanecessem sem assistência. "O que chama atenção é dizer como essas pessoas ficam abandonadas, porque para chegar nesse quadro tão intenso, ninguém tomou uma atitude."

O tratamento que elas precisam, diz a psiquiatra, inclui medicações e acompanhamento médico, sendo possível até uma internação neste primeiro momento.

"Elas não têm condições de tomar os medicamentos sozinhas. Se até uma pessoa saudável que precisa tomar remédio em determinados horários tem dificuldades, imagine quem está fora da realidade."