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Aos 82 anos, morre o cantor e escritor Leonard Cohen

Corpo do compositor de 'Hallelujah' será velado em Los Angeles

11 NOV 2016
Globo
07h29min
Foto: Divulgação

O cantor, compositor e escritor canadense Leonard Cohen morreu na noite desta quinta-feira aos 82 anos, de acordo com informações de sua página oficial no Facebook. A causa da morte ainda não foi revelada. "É com profunda tristeza que reportamos que o lendário poeta, compositor e artista Leonard Cohen morreu. Nós perdemos um dos visionários mais prolíficos e reverenciados da música. Um memorial será realizado em Los Angeles em uma data próxima. A família pede privacidade durante seu momento de dor", diz o comunicado.

Mais conhecido como autor de "Hallelujah", uma das músicas mais regravadas da história, Cohen influenciado uma imensa geração de cantores-compositores. Em outubro desse ano, o canadense havia lançado "You want it darker", seu 14º e último disco.

 Em entrevistas recentes, afirmou que estava perto da morte e que sentia dores.

Leonard Norman Cohen foi um improvável artista do rock. Entrou no gênero aos 32 anos, quando já tinha quatro livros publicados e uma carreira reconhecida como poeta.

O garoto de Westmount era filho de uma proeminente família judaica, contra a qual nunca teve qualquer traço de rancor ou rebeldia — "Eu nasci de terno", dizia ele, como recorda Sylvie Simmons na biografia "I'm Your Man". Sempre gostou de estar em evidência nos seus círculos sociais, de se vestir bem e de cantar para as mulheres.

Era 1966, era a época dos primeiros festivais que mudaram o mundo, era a época de Bob Dylan, e se tornaria também a época de Leonard Cohen, que, diferentemente do seu principal concorrente, jamais viu necessidade de esconder as origens judaicas.

 Foram elas que lhe deram seu principal hit, "Hallelujah" (de "Various positions", 1984), regravado por inúmeras vozes até se tornar hino de cura do 11 de setembro e figurinha fácil em realities musicais como "The Voice". Ao recriar a cobiça do rei Davi ao espiar a casada Betsabá, Cohen uniu o sacro e o profano numa substância única, de tal forma que tanto religiosos quanto amantes em estado de ebulição se deixam impressionar em uníssono. Sua música podia ser um ritmo klezmer de judeu ashkenazi, podia ser uma valsa, podia ser uma balada, ou a mescla de timbres primitivamente eletrônicos com que embalava "First we take Manhattan, then we take Berlin", em 1988.

Essa habilidade de transformar simbologias religiosas em metáforas de paixão foram seu principal trunfo, e lhe renderiam um repertório que influenciaria diretamente gente tão diferente quanto o grunge Kurt Cobain, o barroco Nick Cave e o operístico Rufus Wainwright, entre outros.

E obviamente, havia a voz: primeiro algo fanhosa, como se pode ouvir nos primeiros discos e no registro ao vivo na Ilha de Wight, de 1970: foi assim que registrou a balada "So long, Marianne", de seu álbum de estreia prosaicamente batizado "Songs of Leonard Cohen", de 1967. Marianne fora sua primeira musa, e era de quem se despedia prometendo sorrir algum outro dia no refrão.

Tal doçura também existia no sincero arrependimento que demonstrava por ter admitido um dia que "Chelsea Hotel #2" (de "New Skin for Old Ceremony", de 1974), uma ode ao sexo descomplicado, tinha sido inspirada numa noite com Janis Joplin. "Uma revelação deselegante", comentaria ele depois.

Era uma voz que ganhou gradativa profundeza, tornando-se um barítono quente e áspero, com graves lúgubres à primeira audição, mas que na verdade intencionavam se aproximar de uma declamação cálida, em que inúmeros versos imploravam por nudez, como se o sexo fosse a única transcendência possível, como em "Ain't no cure for love". A sonoridade se encaixava perfeitamente com o ar de veterano, os cabelos grisalhos, uma espécie de Dustin Hoffman envelhecido, um profeta gentil e doce, vindo de outras eras para transformar rock em literatura.

Não era um compositor exatamente prolífico. Admitiu diversas vezes que suas composições eram rascunhadas por meses e às vezes anos, com cuidado e rigor, o que o levou a pérolas como "Dance me to the end of love", "Anthem" e "Tower of song". Mas também por isso experimentou longos hiatos nos 50 anos de sua carreira, de onde saíram apenas 14 discos.

O intervalo mais célebre foi aquele que viveu de 2004, ano de lançamento de "Dear Heather", até "Old ideas", de 2012. Financeiramente quebrado devido a um golpe de uma ex-empresária, Cohen abandonou uma vida de monge budista, em que fora rebatizado como "Silêncio", e voltou às turnês em 2008. Enfileirou três discos ao vivo — entre eles, o valiosíssimo Live in London (2008) e o registro de 1970 em Wight — e em seguida fez as pazes com a inspiração: ofereceu ao público "Old ideas"(2012), "Popular problems" (2014) e, por fim, "You want it darker".

Este último é um álbum curto, cuja faixa-título parecia ser sua maneira de render o espírito, ao repetir os versos "Eis me aqui (em hebraico)/ estou pronto, Senhor (em inglês)." Morreu, ao que parece, com todas as contas acertadas. A última delas, com Marianne.

Quase quatro meses antes, soube que a ex-namorada sofria de leucemia terminal e mandou-lhe uma carta imersa em doçura e cumplicidade, divulgada depois pela família dela:

"(...) Acho que a seguirei muito em breve. Saiba que estou tão perto de você que, se estender sua mão, acredito que poderá tocar a minha. Você bem sabe que sempre a amei por sua beleza e sua sabedoria, mas não preciso me estender sobre isso, já que você sabe de tudo. Só quero lhe desejar uma boa viagem. Adeus, velha amiga. Todo o amor, a verei pelo caminho.”

Além da discografia, Leonard Cohen deixa dois filhos, Adam e Lorca, 13 volumes de poesia e dois romances.

    

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