Mesmo sendo vítima de feminicídio, a morte de Soleni Aparecida Ferreira Corrêa, de 46 anos, em Três Lagoas, gerou repercussão nas redes sociais, mas em vez de comoção, o caso ganhou comentários homofóbicos e julgamentos contra a própria vítima, revoltando amigos e conhecidos da mulher assassinada.
Enquanto muitos se sensibilizaram por mais uma mulher morta em Mato Grosso do Sul, teve quem usasse a rede social para atacar relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, desviando o foco da violência para o crime de homofobia.
“Tá vendo, não dá certo esse negócio de se envolver com pessoa do mesmo sexo”, escreveu um usuário. Outro comentou: “Se ela já era agressiva, por que continuou com ela?”. Frases como essas tomaram conta das publicações sobre o caso, o que provocou indignação entre amigos da vítima que defenderam a memória de Soleni.
Nas redes, conhecidos passaram a se manifestar pedindo respeito. “Parem de julgar, ela tem parentes nas redes sociais, filhos, netos, que estão vendo tudo isso. Respeitem a dor da família”, escreveu uma amiga. Outros reforçaram que o crime deve ser tratado como um caso de violência doméstica e feminicídio, e não com preconceito contra a orientação sexual da vítima.
O crime aconteceu na tarde de terça-feira (21), em uma casa no bairro Jardim Imperial, e chocou os moradores da cidade. Segundo a polícia, Soleni foi morta por estrangulamento pela companheira, Laura Rosa Gonçalves, de 43 anos, após uma discussão motivada por ciúmes e desentendimentos financeiros.
Durante o interrogatório, Laura relatou que a briga evoluiu para uma luta corporal, e que teria imobilizado Soleni pelo pescoço até a morte. Ela afirmou ainda acreditar que a companheira estaria “incorporada por espíritos” no momento da agressão.
Vizinhos ouviram a discussão e acionaram a Polícia Militar. O Samu foi chamado e constatou o óbito. Após o crime, Laura deixou o local, mas se entregou à polícia momentos depois.
As investigações mostraram que a autora já havia agredido a vítima em outras ocasiões. Em julho, a Justiça de Campo Grande havia concedido medidas protetivas em favor de Soleni, e Laura usava tornozeleira eletrônica por conta das agressões anteriores — uma delas chegou a fraturar o braço da vítima. Apesar disso, Soleni retomou o relacionamento há cerca de dois meses, após mudar-se para Três Lagoas.
A delegada Sayara Quintero, responsável pela DAM (Delegacia de Atendimento à Mulher), representou pela conversão da prisão em flagrante em preventiva. “O crime ocorreu em contexto de violência doméstica e, diante da gravidade dos fatos, a prisão preventiva é necessária para garantir a ordem pública”, destacou.
A faca usada no crime e dois celulares foram apreendidos. O caso segue sendo investigado pela DAM de Três Lagoas.







