O delegado da Polícia Federal de Corumbá, Ricardo Rodrigues Gonçalves, coordenador da Operação Anatocismus, deflagrada na terça-feira (24), em Ladário, apontou o vereador Eurípedes Zaurizio de Jesus, do PTB, de 44 anos, de comandar esquema de agiotagem em que explorava pessoas de baixa renda, em vulnerabilidade econômica e social, além de reter cartões de beneficiários do programa Bolsa Família.
Segundo a Polícia Federal, o vereador eleito na última eleição, vinha realizando a prática de agiotagem desde 2014. O parlamentar emprestava dinheiro à pessoas carentes e para garantir o pagamento, fazia a retenção de documentos pessoais e de cartões magnéticos de programas sociais, como o Bolsa Família. Para receber, o delegado explicou que Eurípedes contava com 'comparsas', "que efetuavam saques, na Caixa Econômica Federal e Casas Lotéricas da cidade de Ladário. Imagens provariam toda movimentação", disse o delegado em entrevista coletiva.
Diante da comprovação dos crimes, a Polícia Federal indiciou o vereador por agiotagem e retenção de documentos pessoais em continuidade delitiva. E devido a reiteração da prática, culminou na prisão preventiva de Eurípedes. "Há mensagens, nos telefones celulares apreendidos, de pessoas solicitando a Carteira de Trabalho para comparecer ao INSS. A retenção implicou numa limitação de direitos fundamentais dos tomadores de empréstimo”, detalhou o delegado.
E afirmou que, “embora não consistisse fraude ao Bolsa Família, porque o próprio beneficiário colocava à disposição o valor, ele desvirtuava as finalidades do programa. Certamente gerou maior endividamento dessas pessoas".
Caixa 2
Ricardo ainda informou à imprensa que, “restou comprovada pelos indícios que a investigação apurou, a prática de corrupção eleitoral ativa, que seria a compra de votos, e a falsidade ideológica eleitoral, que popularmente é conhecida como caixa 2”.
As investigações indicaram que o então candidato a vereador de Ladário, posteriormente eleito, teria comprado votos com valores que iriam de R$ 100,00 a R$ 200,00, possivelmente fazendo uso, para pagamento, de valores obtidos por meio da prática de crime conhecido popularmente como “agiotagem”, configurando corrupção eleitoral e falsidade ideológica eleitoral (“caixa dois”). Suspeita-se, ainda, que tenha ocorrido o perdão de dívidas em troca de votos.
Segundo o site Diário Corumbaense, além de desvirtuar a finalidade do programa Bolsa Família, em que os empréstimos ilegais seriam contraídos com juros mensais na ordem de 30%. O dinheiro indiretamente teria financiado a compra de votos, o candidato também realizou a prática conhecida como “caixa dois”, sonegando e inserindo informações falsas na prestação de contas de campanha.
A Polícia Federal ainda relatou que, o vereador teria feito omissões e lançamentos de informações falsas na prestação de contas enquanto candidato à Câmara Municipal de Ladário. "Um exemplo é o fato de cabos eleitorais, que teriam prestado serviço de natureza voluntária, mas na realidade confirmaram o pagamento de recursos. Pode ser que tenha se valido disso, apesar dele prestar a informação que o serviço era não remunerado, a pessoa recebeu o valor. Pode ser aí a venda do voto. Uma modalidade que é possível ter ocorrido”, explicou o delegado.
Delegado da Polícia Federal de Corumbá, Ricardo Rodrigues Gonçalves, coordenador da Operação Anatocismus.
O caso
As investigações da Polícia Federal, iniciaram há três meses, logo depois das eleições de 2 de outubro do ano passado após denúncia de compra de votos. O foco era reprimir crimes durante às eleições, a primeira fase da Operação Anatocismus teria encontrado uma lista com nomes na casa do parlamentar. "Supostamente seriam beneficiários e também contas de luz e água em nome de terceiros, que podem ter sido alguma maneira, dele controlar essas pessoas”.
Durante a segunda fase deflagrada ontem, o comparsa dele, preso também preventivamente, seria responsável por guardar na sua residência, cartões das vítimas retidos para saques. O delegado ainda afirmou que teve acesso aos dados bancários, autorizados pelo juízo eleitoral, "recebemos informações dos dados bancários dos beneficiários do Bolsa Família e acesso às imagens captadas na agência da Caixa Econômica e na casa lotérica em Ladário. Vimos que os beneficiários dos programas não eram as pessoas que efetuavam os saques. Se tratava de uma mesma pessoa, na Caixa Econômica, identificado como o comparsa do vereador”.
As prisões preventivas do vereador Eurípedes e do homem que não foi identificado pela Polícia Federal foram solicitadas e decretadas pela Justiça pela “reiteração da prática de agiotagem e, no curso das investigações, percebemos que estavam manipulando e tentando intimidar testemunhas. Como houve essa intenção de influenciar e interferir na produção da prova, foram decretadas, pelo juízo eleitoral”.
A Polícia Federal ainda comentou que não houve necessidade de cumprimento das duas conduções coercitivas. “Se apresentaram espontaneamente. Uma foi indiciada por envolvimento na agiotagem e corrupção eleitoral. A outra ainda levantamos informações a respeito”.
Os investigados foram indiciados pela prática de corrupção eleitoral ativa, falsidade ideológica eleitoral (“caixa dois”), usura pecuniária (“agiotagem”) e retenção de documentos de identificação. As penas somadas variam de 2 a 11 anos de prisão.








