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Interior

Polícia quer acabar com “desova” de carros roubados nas aldeias

05 novembro 2015 - 17h26Por Dourados News

A quantidade de veículos furtados e tomados em assalto dentro da Reserva Indígena de Dourados é “muito grande”, segundo afirmou o comandante do 3º BPM (Batalhão de Polícia Militar), tenente coronel Carlos Silva. Este ponto um de uma série de questões preocupantes encontradas pelo órgão, que iniciou um projeto de policiamento comunitário nas aldeias há quase dois meses.

De acordo com o comandante, até por amostragem é possível perceber a quantidade. “Nós tivemos nos primeiros cinco ou seis dias, sete veículos recuperados lá dentro. Então se você fizer uma operação de grande monta, vai recuperar muito veículo ainda. Mas, isso precisa do trabalho de inteligência da Polícia Civil que está nos apoiando, da Polícia Federal que também está nos apoiando”, disse. Há nas aldeias muitas motocicletas furtadas dentro da cidade e vendidas para a comunidade indígena.

O comandante ainda pontua que o problema de trânsito nas aldeias é gravíssimo. Há grande volume de pessoas dirigindo sem capacete, sem documento, motos sem placas, entre outros. “Nós vamos resolver a situação por completo, teremos que fazer ações de polícia. Eu não posso entrar lá, ver o cidadão sem capacete e não autuar. Mas, primeiro vamos trabalhar com palestras para explicar porque estamos autuando, a forma correta e o que vai ser feito”, conta.

Estão agendadas palestras com a comunidade indígena relacionadas ao trânsito para a semana que vem. A partir de 2016 também será implantado no local pela PM o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência), que deve contribuir nessa área. “Devagar, vamos colocar no eixo a situação de trânsito nas aldeias, que é gravíssima”, relata.

Outro ponto preocupante constatado pelos policiais é o impacto do alcoolismo. “Em todas as ocorrências nós percebemos a presença do álcool”, relatou. Nos exemplos estão casos de agressão, homicídios e violência doméstica, por exemplo, que são muito comuns.

Gangues

Mais um problema entre os mais latentes é a atuação de alguns grupos, com em torno de 10 jovens cada, já identificados, que consomem álcool e saem à noite – entre 22h e 23h - depois das orações, missas ou cultos para praticar crimes contra as pessoas que estão saindo das igrejas instaladas dentro das aldeias. Eles cometem assaltos, abusos, agressões ou estupros, por exemplo.

As gangues têm jovens menores e maiores de idade, mas sempre homens muito novos. “Nós vamos abordar e eles estão com facões, esses de cortar cada. Quando não estão fazendo nada, o que a gente pode fazer é tomar os facões. Mas, segundo a comunidade, eles se juntam para praticar assaltos e agressões”, relatou o comandante.

Trabalho conjunto

O trabalho dos policiais vem recebendo o apoio de lideranças indígenas. Hoje, ele é todo acompanhado pelos índios. A polícia agenda com eles, marca horário e a equipe da PM segue com a equipe da liderança para mostrar os pontos que tem mais problemas, como vendas de drogas, roubo, alcoolismo e o órgão de segurança começa a atuar nesses pontos. “Daqui um tempo, nós não vamos precisar mais da liderança para nos mostrar essa situação, já vai estar tudo mapeado. Mas, a gente sempre precisará do apoio”, relatou.

Isso acontece devido à cultura. Conforme o comandante, por se tratar de famílias grandes e muito próximas, há também muita intervenção delas nas situações. “Se eu faço a apreensão de um menor ou a prisão do cidadão, a família inteira pode querer evitar. Então a liderança nos ajuda. Tem que ensinar e explicar para o cidadão indígena o que está acontecendo”, explica. Conforme ele, a cultura indígena será respeitada em toda a atuação, porém os índios terão que conhecer as leis, já que a polícia atua dentro da legislação brasileira.

Para os próprios policiais, atuar nas aldeias é um desafio grande. “Há muitos anos a comunidade indígena foi desprivilegiada com relação a algumas situações, não só de segurança pública, mas de assistência, educação e saúde”, relata. Conforme ele, a ideia do Governo do Estado é levar uma “cidadania real para o cidadão da aldeia” e o primeiro enfrentamento será através da segurança pública. “Como é que o médico vai entrar lá ou a assistência se não tiver segurança? Por isso esse é o primeiro passo que dá início a um grande projeto do governo, que vai abranger outras coisas também”, relatou.

Polícia

O projeto implantado na aldeia é o de Polícia Comunitária, que não atua apenas como polícia, mas também tem o papel de visualizar problemas de outras áreas para encaminhar aos órgãos competentes para resolver, como é o caso da saúde, assistência social, iluminação, alcoolismo, drogas e outros.

O trabalho é de proximidade com a comunidade, mas ainda assim é mais perigoso e arriscado para o policial. “Nossa situação na aldeia é tida como situação de risco. Tanto que quem está atuando na aldeia é nossos dois grupos táticos”, relata o comandante. São o Getam (Grupo Especializado Tático Motorizado) e Força Tática, que recebem treinamento diferenciado e costumam atender ocorrências mais desafiadoras.

Além da organização do local ser diferente da cidade, ainda há cuidados que devem ser tomados devido ao respeito à cultura que tem que ser mantido e as dificuldades de conversar, já que os policiais ainda não conhecem a língua indígena. Os militares vão passar por curso de línguas duas a três vezes por semana, para aprender a se comunicar melhor com os índios.

Para exemplificar a questão da língua, o comandante lembra de um episódio envolvendo a PMRE (Polícia Militar Rodoviária Estadual) que tinha apreendido um menor e a família do jovem fechou a viatura e não a deixava sair. Após negociação, foi acertado que o menino iria na viatura com a mãe. Nesse momento chegou um homem falando a língua indígena, dizendo que ninguém sairia dali. A essa altura a viatura da PRE já estava avariada pois foi jogada uma pedra pelos índios. “Nós tivemos apenas que salvaguardar a segurança da nossa equipe, se retirando do local e o menor ficou para trás”, contou.

Apesar dos desafios, Silva conta que acha que entende que a aldeia é um território federal e o policiamento deveria ser feito pela União, porém que há crimes comuns em que a PM pode atuar e, então, é preferível fazê-lo. “É um bairro de Dourados. Se tiver moto roubada, vai para a aldeia. Então é melhor eu prender e recuperar a moto. Os crimes ocorridos lá, influenciam aqui na cidade. Os roubos e homicídios na aldeia contam na nossa estatística, então se a força tiver condições, porque não?”, relatou, contando que a PF (Polícia Federal), assim como outas forças também tem atuado em conjunto no local.

A meta atual é trabalhar para a aldeia as mesmas metas e redução na criminalidade trabalhadas na cidade. “Quero tratar o cidadão indígena, como o cidadão não indígena. Tem que ser igual”, relata. As afirmações do comandante foram feitas nesta terça-feira (03), quando foram entregues 12 viaturas para a PM, que serão usadas preferencialmente nas aldeias.