Saúde

há 3 meses

Ex-motorista expõe rotina precária no Samu de Campo Grande: 'é uma vergonha'

Além disso, os motoristas recebem três dias de curso, sem certificado, para atuar em coisas além da função

02/04/2026 às 13:00 | Atualizado 02/04/2026 às 17:41 Brenda Souza
Ambulância do Samu - Alice Assis/Arquivo TopMídiaNews

Um profissional do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) em Campo Grande denunciou uma série de problemas enfrentados por profissionais da área, que vão desde baixos salários até falta de estrutura e capacitação insuficiente.

Segundo a denúncia, a pessoa atuou por cerca de seis meses no serviço, a realidade enfrentada no dia a dia é muito diferente da importância da função. “A responsabilidade é enorme. A gente cuida da viatura, da equipe e dos pacientes. Mesmo assim, o salário é uma vergonha”, afirmou ela ao falar com o TopMídiaNews. Por medo de represálias, a denunciante pediu para não ser identificada.

Um dos pontos que mais chamou atenção no relato é a formação oferecida aos profissionais. De acordo com ela, o curso de APH (Atendimento Pré-Hospitalar) tem duração de apenas três dias, um período considerado insuficiente diante das exigências do trabalho. Além disso, os trabalhadores contratados temporariamente não recebem certificado.

“É um curso muito rápido e a gente ainda não pode pegar o certificado. Só quem é concursado tem direito. Ou seja, você aprende ali na prática, mas não tem como comprovar depois”, desabafou. 

Ainda segundo narrado, também houve frustração com o desligamento recente. Segundo a relato, o contrato não foi renovado após apresentar atestados médicos. “Isso mostra que não pode adoecer. Eu gostava de trabalhar ali, sempre fiz tudo certo, mas fui dispensada por ter ficado doente. Não temos convênio médico, não temos apoio, é só o salário. E olhe lá”, lamentou.

Além das condições contratuais, a estrutura das bases do Samu também foi alvo de críticas. Quem denuncia relata ambientes precários para descanso das equipes.

“Os colchões estão rasgados, com traças, não têm lençol e o ar-condicionado muitas vezes não funcionava. O Samu aqui é precário e o salário horrível.”, contou.

Outro ponto levantado é a responsabilização dos condutores por danos nas viaturas. Uma vez que, caso aconteça alguma batida ou até um arranhão no veículo, os condutores acabam sendo responsabilizados e são obrigados a arrumar.

Antes de encerrar a denúncia,  foi lembrado que o único pedido dos trabalhadores é dignidade salarial para trabalhar tranquilo. “Só aqui é essa miséria. O cargo de condutor teria que ser um dos mais bem pagos”, finaliza.

Edital de contratação

No dia 27 de março, a prefeitura de Campo Grande abriu um edital para contratar motoristas de ambulância, com carga horária de 12 horas de trabalho por 36 de descanso, com contrato válido até março de 2027.

A remuneração oferecida é de R$ 1.621,00 brutos mensais. Apesar da importância da função, que envolve o transporte de pacientes em situações de urgência e emergência, o salário é praticamente equivalente ao mínimo nacional, o que desmotiva o trabalhador.

De acordo com o edital, os motoristas não apenas conduzem os veículos, mas também desempenham funções essenciais no atendimento. Entre as atribuições estão auxiliar equipes médicas, participar de procedimentos básicos de suporte à vida, ajudar em imobilizações e até atuar em manobras de reanimação.

Além disso, o profissional deve conhecer toda a malha viária da cidade, operar equipamentos da ambulância, manter contato com a central médica e lidar com situações de alto estresse.

Outro ponto destacado é a necessidade de equilíbrio psicológico para enfrentar ocorrências graves, como acidentes e atendimentos de urgência.

Diante de tanta exigência, o salário pode ser apelidado de ‘salário de fome’, já o valor bruto acaba caindo para menos de R$ 1.500,00 após os descontos e deduções trabalhistas.