Campo Grande

01/05/2026 18:10

Câncer avança, tumor rompe a pele e paciente denuncia peregrinação de meses sem tratamento (vídeo)

Aposentada relata burocracia, remarcações e agravamento da doença enquanto aguarda atendimento oncológico pelo SUS

01/05/2026 às 18:10 | Atualizado 02/05/2026 às 07:58 Méri Oliveira
Adeair mostra seio lesionado e se queixa de dor constante e febre - Gabriel do Carmo

A aposentada Adeair Maria Cândido Vilela, de 62 anos, procurou a equipe de reportagem do TopMídiaNews para tentar alcançar uma solução para seu problema: em outubro do ano passado, ela foi diagnosticada com câncer de mama que - segundo conta - à época, estava em estágio inicial. O tempo passou e, de lá para cá, ela ainda não conseguiu dar início ao tratamento oncológico.

Adeair comenta que decidiu aproveitar a campanha Outubro Rosa, de prevenção ao câncer de mama, tradicionalmente realizada durante o mês de outubro, para fazer exames para o rastreamento da doença, sendo um ultrassom e uma biópsia de um nódulo. 

Antes disso, periodicamente, fazia mamografias pela rede pública e, até então, sabia que tinha esse nódulo no seio direito, porém, havia sido informada de que se tratava de algo benigno, um cisto, e que não oferecia perigo à sua saúde, ainda que houvesse aumento progressivo percebido. “Meu peito estava bastante inchado, mas eu sempre fiz mamografia pelo posto. Sempre me falavam que era um cisto, que não era nada. Todo ano eu fazia exame e sempre mostrava o nódulo crescendo. Nunca me encaminharam para tratamento ou para investigar mais a fundo”, afirma.

Pouco tempo depois, recebeu uma ligação pedindo a ela que comparecesse à unidade de saúde, a fim de pegar o resultado de seus exames. Infelizmente, a notícia não era boa: os exames de Adeair apontaram um tumor. Câncer de mama.

Começaria ali uma peregrinação que, meses depois, ainda não teria uma solução e resultaria em uma dolorosa "explosão" no peito da aposentada, com um tumor em carne viva, dores diuturnas, e nada de início do tratamento adequado para a doença.

A mulher relata que a notícia foi entregue em um evento festivo no local, com presença de autoridades e imprensa, situação que ela classificou como constrangedora e inadequada diante da gravidade do diagnóstico. “Cheguei lá e tinha uma festa, com repórteres, secretário de saúde e várias pessoas. Achei estranho. Como você vai dar uma notícia dessa no meio de uma festa?”, questiona.

Ela afirma que o encaminhamento ao SUS (Sistema Único de Saúde) foi marcado por muita burocracia, demora e desencontro de informações. Segundo Adeair, após o encaminhamento ao Sisreg (Sistema Nacional de Regulação para agendamento de consultas e exames que é usado em Campo Grande), enfrentou dificuldades para conseguir confirmação de consultas. “No posto falaram que não tinha nada agendado. Quando fui à Sesau, disseram que a consulta estava marcada para o outro dia e que eu já tinha sido avisada”, lembra.

Além disso, consultas e exames teriam sido marcados e remarcados várias vezes, e ela relata divergências médicas em relação aos protocolos adequados para realização de tomografia. “Um médico pediu sem contraste e depois falaram que não aceitavam, que teria que ser com contraste. Aí começou tudo de novo”, diz.

Ainda segundo o relato da idosa, os profissionais teriam recusado exames anteriores e exigido novos procedimentos, atrasando ainda mais o início do tratamento. Ela afirma que as consultas eram rápidas e sem esclarecimentos. “Era consulta de cinco minutos. Falavam que eu precisava esperar, que o hospital ia entrar em contato. Só mandavam aguardar. Toda vez que eu cobrava, falavam: ‘a senhora tem que esperar, tem que aguardar na fila”, relata.

Adeair também menciona que teria enfrentado episódios de tratamento “hostil” em unidades de saúde, com comentários ofensivos e - até - ameaçadores durante a realização de exames. Segundo ela, em uma tomografia, ouviu frases que a deixaram abalada. “Escutei falarem que eu não voltaria mais a procurar tratamento e que logo eu não estaria mais andando”, afirma.

Posteriormente, Adeair afirma ter sido informada de que não receberia mais assistência hospitalar após apresentar documentos a uma assistente social, situação que, segundo ela, teria se repetido em diferentes instituições. “Me ligaram dizendo que era para liberar meu tratamento, mas quando cheguei lá, disseram que eu estava desligada do hospital”, relata.

Efeito cumulativo

Com a passagem do tempo, a falta de providência e um tratamento que nunca começou, o quadro de Adeair também foi evoluindo, mas não de maneira positiva: houve um agravamento e, com isso, o tumor, que no início tinha o aspecto de uma espinha, cresceu, rompeu a pele e passou a minar secreção constantemente, causando dores intensas 24 horas por dia, febre, mal-estar e todos os problemas advindos da malignidade.

Hoje, a idosa faz os próprios curativos em casa, de forma a tentar minimizar o desconforto provocado pela lesão, mas a dor não dá trégua, já que ela não utiliza medicação para esse fim, nem para tratar a infecção e, menos ainda, o tratamento oncológico. “Eu sinto dor dia e noite. Estou fazendo curativo em casa porque não consegui ajuda em lugar nenhum”, afirma.

Sem condições financeiras para atendimento particular, ela afirma que busca apoio judicial para obrigar o poder público a garantir, com urgência, tratamento e cirurgia para seu caso, alegando correr risco de vida devido à evolução da doença. “Eu preciso urgente de uma cirurgia para remover esse tumor. Estou correndo risco de vida e não dá mais para esperar”, diz.

O que dizem as instituições?

O TopMídiaNews procurou a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), a fim de obter esclarecimentos sobre o caso, já que a paciente afirma também ter passado por uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), mas, até o fechamento desta matéria, não obteve retorno.

Também procuramos a Santa Casa e a resposta foi de que não consta, entre os meses de setembro de 2025 e abril de 2026, qualquer registro de passagem da paciente pela instituição.

Já o Hospital Alfredo Abrão informou que, de acordo com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), Lei 13.709/2018; e ainda, levando em conta o Código de Ética Médica, resguardado pelo artigo 154 do Código Penal Brasileiro, não pode fornecer informações de prontuários médicos, bem como dados assistenciais ou detalhes específicos sobre o caso de Adeair.

"Em atenção ao questionamento apresentado pelo Top Mídia News, esclarecemos que todo o atendimento indicado ao caso foi regularmente ofertado e devidamente autorizado por meio dos fluxos e trâmites estabelecidos no Sistema Único de Saúde (SUS), via SISREG – Sistema Nacional de Regulação do Ministério da Saúde, incluindo os procedimentos e tratamento pertinentes. Informamos ainda que os encaminhamentos e autorizações ocorreram dentro dos prazos legalmente previstos.

Reiteramos que a instituição permanece à disposição para prestar toda a assistência necessária, aguardando o comparecimento da paciente para o atendimento e seguimento terapêutico, com o acolhimento e cuidado que a situação requer.

Ressaltamos também que já foram prestados esclarecimentos sobre esta paciente ao Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul, com encaminhamento de informações, documentos hospitalares e registros internos sobre a oferta dos serviços mencionados.

Por fim, ratificamos que em nenhum momento o hospital se recusou ou deixou de prestar atendimento à paciente. O HCAA reafirma seu compromisso permanente com a humanização, o respeito, a ética e a qualidade assistencial em todos os atendimentos prestados à população, buscando acolher cada paciente com dignidade, responsabilidade e cuidado integral."

O espaço do TopMídiaNews permanece aberto para quaisquer esclarecimentos sobre o caso.

Assista: