Saúde

há 2 meses

Paciente afirma ter sido coagida e exposta após gravar problemas em CAPS de Campo Grande (vídeo)

Ela passou mais de 3h dentro da unidade esperando atendimento médico

08/05/2026 às 19:00 | Atualizado 08/05/2026 às 13:23 Brenda Souza
Repórter Top

Uma paciente do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Afrodite, em Campo Grande, denunciou uma série de problemas no atendimento, na estrutura e na condução dos serviços da unidade após relatar um episódio que classificou como o mais grave desde que iniciou acompanhamento no local.

De acordo com o relato, a paciente é atendida há anos pelo Caps, após enfrentar situações de violência doméstica e problemas de saúde mental. Ela afirma que, em 2025, chegou a receber alta parcial e foi orientada a seguir o tratamento em uma unidade básica de saúde. No entanto, diante de agravamentos no quadro clínico e em situações familiares, diz que tentou diversas vezes retomar o acompanhamento no Caps, sem sucesso.

Na manhã desta segunda-feira (4), ela compareceu novamente à unidade para atendimento médico. Segundo a paciente, chegou por volta das 9h50, apesar de a consulta estar marcada para as 10h. No entanto, relata que o atendimento não segue horário agendado, mas sim ordem de chegada, o que resultou em longa espera.

“Fiquei lá por mais de três horas aguardando atendimento, junto a outros pacientes que também reclamavam da demora. Um deles aguardava desde as 8h30, tendo reação à medicação sem conseguir assistência imediata”, afirmou.

A mulher relata que a situação provocou indignação e revolta, principalmente por se tratar de uma unidade voltada ao acolhimento de pessoas em sofrimento psicológico. Segundo ela, o ambiente transmitia sensação de abandono, improviso e descaso com pacientes que já chegam emocionalmente fragilizados.

Durante o período de espera, a paciente notou uma série de problemas estruturais no espaço. Entre eles, a falta de privacidade nas salas de atendimento, onde, segundo ela, é possível ouvir claramente as conversas entre profissionais e pacientes devido à ausência de isolamento adequado.

“As divisórias não vão até o teto. Se alguém fala um pouco mais alto, dá para escutar todo o atendimento. Não existe privacidade nem para o profissional, nem para quem está sendo atendido”, reclamou.

Ela também apontou infiltrações em paredes próximas às salas de atendimento psicossocial, banheiros em condições precárias, falta de papel higiênico e ambientes improvisados para acolhimento dos pacientes.

Outro ponto que gerou revolta foi a forma como os atendimentos estariam sendo conduzidos dentro da unidade. Conforme o relato, pacientes aguardavam desde cedo enquanto alguns servidores permaneciam em horário de almoço ou conversando em áreas comuns.

A paciente afirmou ter registrado imagens de funcionários utilizando celular e conversando enquanto dezenas de pessoas aguardavam atendimento.

“Enquanto pacientes estavam ali passando mal, cansados e esperando há horas, tinha servidor sentado conversando, mexendo no celular e funcionários almoçando tranquilamente. Aquilo me revoltou profundamente”, disse.

Segundo ela, uma psicóloga que iniciaria os atendimentos ao meio-dia teria ido almoçar antes de começar os atendimentos, enquanto pacientes seguiam aguardando. A gerente da unidade também estaria no local durante o almoço dos servidores.

“Foi um sentimento de humilhação e abandono. A impressão é que o sofrimento do paciente não importa para ninguém”, desabafou.

A situação teria se agravado quando ela decidiu gravar imagens dentro da unidade, com o objetivo de registrar as condições do local. De acordo com a paciente, a gerente do Caps teria se aproximado de forma exaltada, alegando que a gravação não era permitida, e acionado a Guarda Municipal.

Ainda conforme o relato, ela foi pressionada a apagar os vídeos diante dos guardas municipais e teria sido informada de que somente seria atendida caso removesse as gravações do celular.

“Mandaram eu apagar tudo. Foi extremamente constrangedor. Eu me senti coagida, exposta e ameaçada emocionalmente. Minha vida pessoal foi exposta na frente de outras pessoas. Saí de lá pior do que entrei”, afirmou.

A paciente diz que o episódio agravou ainda mais seu estado emocional e físico. Segundo ela, após a situação, passou a sentir dores no corpo, crises emocionais e aumento do sofrimento psicológico.

Ela também afirma que passou a pesquisar normas técnicas e legislações relacionadas ao funcionamento de unidades Caps para entender se a estrutura e a abordagem adotadas estavam dentro das regras previstas pelo Ministério da Saúde.

A mulher destacou ainda que não possui uma rede de apoio familiar estruturada, o que aumenta sua vulnerabilidade e dependência do atendimento público de saúde mental.

Após o relato, a reportagem entrou em contato com a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande), mas, até a publicação desta matéria, não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

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