Saúde

há 2 meses

Mãe que viu filha de 8 anos morrer em seus braços alega negligência médica em Campo Grande

Hannah Julia Romeiro Nolasco faleceu na UPA Leblon, depois de passar horas de angústia, falta de atendimento e ficar sendo 'jogada de um lado para o outro'

20/05/2026 às 11:00 | Atualizado 20/05/2026 às 13:03 Brenda Souza
Reprodução/Redes Sociais

Quase um mês após a morte da pequena Hannah Julia Romeiro Nolasco, de 8 anos, a família segue lutando por justiça ao acusar as unidades de saúde de Campo Grande de negligência médica. Isso porque a menina passou várias vezes pelo CRS Coophavilla II e à UPA Leblon, sem um tratamento efetivo.

O relato ainda emocionado da mãe, Sara Romeira, detalha e descreve uma sequência de atendimentos, piora clínica e, segundo ela, demora no socorro à menina. De acordo com a mãe, tudo começou no dia 24 de abril, quando Hannah apresentou febre alta e sintomas gripais. Preocupada, Sara levou a filha ao CRS Coophavilla II. Na unidade, a criança passou por consulta médica e recebeu encaminhamento para medicação intravenosa e exame de sangue.

No entanto, o setor de medicação estava lotado e a espera poderia demorar. Com a filha ardendo em febre, a mãe questionou se poderia administrar dipirona em gotas enquanto aguardava. Após autorização médica, a criança tomou o medicamento e realizou o exame de sangue antes de voltar para casa.

Segundo Sara, nos dias seguintes Hannah apresentou uma aparente melhora. A febre cessou no sábado e no domingo, embora a menina permanecesse sem apetite e tossindo bastante. Já na segunda-feira (27), o quadro mudou novamente.

A mãe relata que Hannah acordou tossindo muito e chegou a vomitar após tomar leite. Diante da situação, decidiu procurar a UPA Leblon para verificar também o resultado do exame de sangue realizado anteriormente. No local, um médico consultou o sistema e informou que a criança estava com uma “infecção viral”, diagnosticada como influenza.

Ainda conforme a mãe, o profissional orientou apenas repouso domiciliar e receitou amoxicilina, bromoprida, corticoide e outros medicamentos. Sara afirma que comentou que a filha praticamente não estava se alimentando e que apenas conseguia ingerir leite. Mesmo assim, ouviu do médico que deveria suspender o leite da criança.

Na terça-feira (28), Hannah voltou a piorar. Segundo a família, a menina passou a vomitar repetidamente e começou a apresentar sinais preocupantes, como lábios arroxeados, palidez intensa e olhos inchados.

Sara contou que chegou a administrar bromoprida em casa, conforme orientação médica anterior, mas decidiu retornar à UPA Leblon ainda na noite de terça-feira. Desta vez, Hannah foi atendida por uma pediatra, que perguntou sobre histórico de diabetes na família e solicitou novo exame de sangue, além da medição da glicemia e administração de soro com medicação para enjoo.

A mãe afirmou que acompanhou a aferição da glicemia e viu o resultado de 151. Segundo ela, ao questionar a equipe, a médica teria respondido que o índice estava “ótimo” e, após o término do soro, a criança foi liberada novamente. “Ela saiu andando, tranquila, parecia um pouco melhor”, relatou Sara.

Já em casa, porém, Hannah voltou a apresentar sinais de sofrimento. A mãe relata que a menina não conseguia dormir, reclamava de dores nas pernas, braços e nuca, além de continuar vomitando.

“Dor na nuca não é normal”, afirmou Sara ao explicar por que decidiu retornar mais uma vez à UPA durante a madrugada. Ao chegar à unidade pela terceira vez, a mãe diz que encontrou a filha já muito debilitada. Segundo ela, na triagem, a criança apenas foi pesada, sem verificação de saturação, pressão arterial ou outros sinais vitais.

Em seguida, a médica plantonista avaliou Hannah e descartou meningite. Ao ser informada pela mãe sobre os exames feitos horas antes, a profissional teria consultado o sistema e afirmado que não havia nenhum resultado registrado, chegando a cogitar que o sangue nem havia sido coletado. Diante disso, solicitou novos exames e um raio-x.

É a partir desse momento que a família afirma ter começado um “jogo de empurra-empurra” dentro da unidade.

Segundo Sara, ela passou a ser orientada a circular entre salas de medicação, observação e reavaliação enquanto carregava Hannah nos braços, já bastante fraca. A mãe relata que implorava para que alguém medicasse a filha, mas ouvia que não havia vaga, maca ou local disponível.

“Mandavam eu ir para um lado, depois para outro. Eu só queria que dessem medicação para minha filha”, desabafou.

Conforme o relato, durante essa movimentação, Hannah começou a sentir falta de ar. Sara descreve que a menina tentava respirar sem conseguir e, em seguida, perdeu a consciência nos braços dela. “Ela puxou o ar e não achou. Virou o olhinho e endureceu nos meus braços”, contou emocionada.

Somente após a piora extrema, segundo a mãe, profissionais correram para conseguir uma maca e encaminharam a criança para a emergência. Hannah já estaria em parada cardiorrespiratória naquele momento.

Do lado de fora da sala de emergência, a família ouviu que a criança precisaria ser intubada. Entretanto, Sara afirma que profissionais aparentavam desorganização e dificuldade para conseguir acesso venoso na menina. Ela também relata que a unidade utilizava apenas oxigênio manual e que faltava estrutura adequada para o atendimento emergencial. “Minha filha morreu ali por falta de socorro. Ficaram empurrando de um lado para o outro sem medicar ela”, afirmou.

O pai da criança, Jeremias Rodrigues Nolasco, também questiona o atendimento prestado. Segundo ele, Hannah chegou consciente à unidade horas antes e não saiu mais com vida.

Após a morte, o caso foi registrado inicialmente como “morte natural”. A família informou que já procurou um advogado e pretende buscar responsabilização sobre o atendimento recebido pela menina.

Natural de Corumbá, Hannah morava há cerca de cinco meses em Campo Grande com os pais e a irmã.

Em uma publicação nas redes sociais, a mãe fez uma despedida emocionada para a filha. “Nosso mundo perdeu a cor, perdeu a graça. Nosso chão desabou”, escreveu Sara ao lembrar da menina, descrita pela família como alegre, carinhosa e cheia de sonhos.

A reportagem procurou a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) para falar sobre o assunto, mas, até a publicação desta matéria, não teve retorno. O espaço segue aberto para manifestações futuras.