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07/06/2026 15:15

Maioria invísível: pesquisa aponta baixa presença de pessoas pretas no cinema produzido em MS

Estudo da UFMS identificou baixa representatividade preta em produções regionais feitas com recursos públicos

07/06/2026 às 15:15 | Atualizado 08/06/2026 às 07:10 Méri Oliveira
Produções realizadas em MS têm pouca melanina na tela - Arquivo pessoal

Um estudo desenvolvido pelo pesquisador Luis Gabriel Pereira da Silva, que é mestre e doutorando em Comunicação pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), apontou, após análise de várias obras regionais financiadas com recursos públicos, a baixa representatividade preta no cinema sul-mato-grossense. Intitulada "Inventário de representatividade negra nos filmes do Mato Grosso do Sul", a pesquisa analisou produções de ficção regional que estão disponíveis no acervo do MIS (Museu da Imagem e do Som) de Campo Grande. 

Conforme nos conta o pesquisador, a investigação nasceu de uma percepção pessoal sobre a baixa presença de pessoas pretas no audiovisual regional e, para além disso, também o papel que essas personagens ocupam na narrativa, quer sejam como protagonistas ou coadjuvantes. “Entre os resultados, acredito que o que mais me surpreendeu foi encarar os números e perceber que, apesar de alguma representação, a função narrativa atribuída a esses personagens tende à periferia da história”, afirma, informando que, para a análise, foram utilizados critérios fenotípicos semelhantes aos aplicados em bancas de heteroidentificação racial. 

Mas por que "tudo isso"?

Perguntado sobre o objeto de estudo, se somente o que aparece nas telas ou se também foi levado em conta quem está por trás das câmeras, Luis explica que a pesquisa se concentrou no que aparece em cena, e que os aspectos audiovisuais comunicam a mensagem e, através da análise fílmica, ou seja, tudo aquilo que se refere ao universo cinematográfico e que se relaciona com a linguagem estética de filmes, é possível compreender os elementos do que é reproduzido por meio das imagens. 

Outro ponto que ele destaca é que geralmente, os espectadores não costumam conhecer quem está por trás das produções, e, portanto, apenas o que aparece nas telas tem maior impacto cultural. 

O pesquisador também detalha que fatores socioeconômicos ajudam a explicar a baixa representatividade preta no cinema regional. “Alcançar recurso público depende de o produtor cultural já ter experiência na área, e a barreira de entrada para o cinema, especialmente há alguns anos, era muito alta pelo valor dos equipamentos e conhecimentos necessários.” 

Apesar disso, ele reconhece avanços recentes. “O curso de Audiovisual na UFMS, o avanço das tecnologias e as políticas de incentivo com vagas afirmativas têm colaborado com um cinema regional mais inclusivo”, diz.

Refletir é preciso 

A pesquisa de Luis também propõe reflexões sobre políticas culturais e editais públicos, considerando que critérios de diversidade poderiam ser trazidos à baila quando da avaliação de projetos audiovisuais, mas sem "engessar" autonomia criativa. “Com uma pontuação de até cinco ou dez pontos na avaliação do parecerista, vejo como algo que não limitaria a liberdade artística dos realizadores”, argumenta.

O doutorando considera que a representatividade no audiovisual impacta diretamente na construção e reconhecimento da identidade cultural. “A reprodução de discursos pode impactar a percepção social de um grupo, tanto por pessoas fora dele quanto na autopercepção daqueles que fazem parte”, afirma.

Com o estudo, Luis espera ampliar o debate sobre quais são os espaços de representação no audiovisual sul-mato-grossense e quem os ocupa. “Meu desejo é que, junto com várias outras iniciativas, minha pesquisa possa contribuir para uma maior presença de pessoas pretas no cinema, dentro e fora das câmeras”, conclui. 

Maioria invisível

A 'maioria invisível" à qual o título se refere está direta e intrinsecamente relacionada à população sul-mato-grossense: segundo o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), MS tinha, à época, 2.757.013 habitantes. 

Destes, cerca de 1.293.797 se declaram pardos, o que corresponde a 46,9% da população. Já os pretos são 179.101 habitantes, correspondendo a 6,5% do total, e os indígenas, 116.469, ou 3,5% dos sul-mato-grossenses. 

Somados, são 56,9% de toda a população de Mato Grosso do Sul e, ainda assim, há pouca representatividade, segundo concluem os estudos de Luis. 

A pesquisa completa está disponível na plataforma Academia.edu. Interessados podem entrar em contato com o pesquisador pelo e-mail institucional luis.g.silva@ufms.br.