05/06/2026 07:00
Cão agoniza por horas antes de morrer em clínica e tutores denunciam negligência veterinária
O 'Azeitona' teria sido internado para investigação de alguns sintomas apresentados, mas, segundo a família, não teria recebido o atendimento necessário
A morte do poodle Azeitona, de 10 anos, transformou a rotina de uma família de Campo Grande. O cachorro morreu na madrugada de 21 de agosto de 2025, durante internação em uma clínica veterinária, e os tutores afirmam que o animal passou horas sem receber o suporte necessário antes de morrer.
Segundo Caroline da Silva Souza e Jair Neris da Silva, Azeitona era considerado um membro da família. O cão havia sido levado à clínica para realização de exames e acompanhamento veterinário após apresentar problemas de saúde que exigiam investigação mais detalhada.
Conforme o relato dos tutores, durante a internação, o quadro clínico do animal teria se agravado progressivamente. Eles alegam que não houve monitoramento contínuo nem estrutura compatível com a gravidade da situação.
Na madrugada do dia 21 de agosto, a família recebeu uma ligação informando que Azeitona havia sofrido uma parada cardiorrespiratória, mas teria sido reanimado. Na mesma conversa, os responsáveis foram orientados a procurar outro hospital veterinário, sob a justificativa de que a unidade não possuía UTI nem recursos suficientes para manter o atendimento emergencial.
Desesperados, os tutores seguiram até a clínica. Segundo eles, ao chegarem, encontraram o cachorro em estado crítico.
A família afirma que, naquele momento, foi informada de que precisaria retirar o animal e levá-lo por meios próprios para outra unidade especializada. Porém, segundo a denúncia, a transferência acabou sendo atrasada por procedimentos burocráticos exigidos pela clínica.
Os tutores sustentam que o animal permaneceu agonizando por cerca de 40 minutos enquanto aguardavam a liberação.
"O Azeitona não era apenas um animal de estimação, mas um membro da nossa família. Depositamos confiança na clínica para cuidar dele em um momento delicado, mas o que recebemos em troca foi sofrimento, dúvidas e ausência de respostas claras", afirmaram.
De acordo com os relatos apresentados pela família, o cão morreu ainda dentro da unidade veterinária durante a madrugada.
Além da dor pela perda, os tutores afirmam que enfrentaram dificuldades para obter informações sobre o atendimento prestado. Segundo eles, a clínica demorou a fornecer parte da documentação solicitada e, até hoje, não teria apresentado o atestado de óbito do animal.
Outro ponto que chamou a atenção da família foi a informação de que as câmeras de segurança da clínica não estariam gravando durante o período em que Azeitona permaneceu internado.
Caso chegou ao CRMV
As circunstâncias da morte motivaram os tutores a formalizar uma representação junto ao Conselho Regional de Medicina Veterinária de Mato Grosso do Sul (CRMV-MS).
O procedimento resultou na abertura do Processo Ético-Profissional, que tramita contra a médica veterinária responsável técnica da unidade e a Clínica Veterinária Pronto Dog & Cat.
Na representação, a família questiona a estrutura oferecida para o atendimento de emergência, a demora na transferência do animal, a falta de documentos relacionados ao caso e também pede apuração sobre a atuação dos profissionais que participaram do atendimento.
Um dos pontos investigados é a suspeita de que uma pessoa que teria se apresentado como médica veterinária apareceria identificada como auxiliar em documentos anexados ao processo. A situação também foi incluída entre os fatos que os tutores pedem que sejam esclarecidos pelo conselho profissional.
O processo segue em tramitação no CRMV-MS e ainda não possui decisão final.
O que diz a clínica?
A Clínica Veterinária Pronto Dog & Cat afirmou que o cão Azeitona permaneceu sob acompanhamento contínuo durante toda a internação, recebendo monitoramento clínico, exames laboratoriais e de imagem, oxigenoterapia, medicamentos e demais procedimentos compatíveis com o quadro apresentado. Segundo a unidade, o atendimento foi realizado por diferentes médicos-veterinários regularmente inscritos no CRMV-MS, dentro de um sistema de plantão 24 horas, com suporte de uma equipe formada por 15 profissionais.
Sobre a orientação para transferência do animal durante a madrugada, a clínica informou que a medida foi discutida com os tutores após um agravamento súbito do quadro cardiorrespiratório, com o objetivo de oferecer alternativas terapêuticas em uma unidade com estrutura diferente. A empresa sustenta que o paciente continuou recebendo assistência e monitoramento enquanto sua condição permitia.
A respeito da alegação de demora na transferência, a clínica negou que tenha ocorrido atraso injustificado. Conforme a nota, o estado de saúde do animal exigia estabilização prévia antes de qualquer transporte, uma vez que o deslocamento em condições críticas poderia representar riscos adicionais.
A unidade também afirmou possuir prontuário médico-veterinário completo, exames e demais registros do atendimento, destacando que toda a documentação disponível foi fornecida aos tutores, representantes legais e autoridades competentes quando solicitada.
Quanto à ausência de atestado de óbito, a clínica argumentou que a medicina veterinária não exige documento equivalente ao emitido para seres humanos, segundo entendimento do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV). Em substituição, foram disponibilizados o prontuário e os registros clínicos do caso.
Sobre as câmeras de segurança, a clínica informou que o sistema de monitoramento existia nas áreas comuns, mas o equipamento de gravação estava inoperante por problemas técnicos previamente identificados. Segundo a empresa, essa situação foi comunicada aos tutores e às autoridades.
Em relação ao processo ético-profissional em andamento no CRMV-MS, a clínica declarou que está colaborando com a apuração mediante apresentação de documentos e esclarecimentos técnicos. Ressaltou ainda que o procedimento não possui decisão definitiva e que diversos pontos relatados pelos tutores são contestados pela empresa, incluindo questionamentos sobre a identificação dos profissionais envolvidos no atendimento.
Na nota, a clínica também rebateu a versão de que o animal teria permanecido "agonizando por horas" ou sem assistência veterinária, afirmando que essa narrativa não encontra respaldo nos registros técnicos. A empresa destacou que os procedimentos policiais instaurados a partir das denúncias foram arquivados após a apresentação de esclarecimentos e documentos, e reforçou que não há, até o momento, qualquer conclusão administrativa ou ética que reconheça falha profissional ou responsabilidade da clínica pela morte do animal.
*matéria atualizada às 14h10 para acréscimo da nota encaminhada pela Clínica Veterinária Pronto Dog & Cat