Campo Grande

há 2 horas

Pacientes aguardando cirurgias ficam no 'limbo' da regulação da saúde em Campo Grande

Sem previsão de alta ou transferência, crianças e idosos amargam meses de internação; audiência para buscar soluções está marcada para quinta-feira

23/06/2026 às 13:00 | Atualizado 23/06/2026 às 14:52 Diana Christie
Vitor Ilis

Imagine aguardar mais de um mês em uma cama de hospital por um procedimento que se resolve em exatos 45 minutos? Ou, no caso de uma criança de 4 anos, conviver com pinos e hastes ortopédicas no corpo muito além do tempo seguro para a recuperação. É diante desse cenário, classificado como de "desassistência estrutural", que a Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul decidiu transformar a indignação das famílias em batalha judicial.

Por meio do NAS (Núcleo de Atenção à Saúde), a instituição ajuizou pelo menos três ações civis públicas. O objetivo é claro: forçar a rede pública de saúde de Campo Grande a garantir atendimento imediato a pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) que estão na fila por procedimentos ortopédicos e cardiológicos.

A judicialização coletiva não foi a primeira opção. A coordenadora do núcleo, defensora pública Eni Maria Sezerino Diniz, conta que a medida só veio após meses de acompanhamento de dramas individuais, reuniões com gestores, ofícios enviados e tentativas de acordo no Comitê Estadual de Saúde do Conselho Nacional de Justiça. Sem resultados concretos, a via judicial se tornou o único caminho para tirar os pacientes do risco.

“A Defensoria acionou o Judiciário para obter uma medida emergencial que atenda os pacientes que estão desassistidos dentro da unidade hospitalar. O que pedimos é a implementação de atos concretos de atendimento”, pontua a coordenadora.

O labirinto e as filas invisíveis

O coração do problema reside no que a Defensoria chama de "demanda invisível" dentro da Santa Casa de Campo Grande. A dinâmica se repete: o paciente dá entrada na rede pública, recebe a indicação médica para a cirurgia, mas o procedimento não acontece. O resultado é uma permanência por tempo indefinido em corredores, macas improvisadas e até dentro de ambulâncias, sem cirurgia, sem transferência e sem sequer ser devolvido ao sistema de regulação.

Na visão da defensora, a superlotação virou um gargalo de assistência. Quando o hospital não consegue operar no tempo adequado, a regra é simples: registrar a impossibilidade, avisar a família e devolver o caso à regulação para que outra unidade assuma. Como isso não tem ocorrido, essas pessoas simplesmente desaparecem do radar do sistema.

"O fluxo de devolução para a rede é atendimento. A retirada de material de síntese é atendimento. Não estamos pedindo justificativas. Estamos pedindo que esses pacientes tenham acesso efetivo à continuidade do tratamento”, reforça Eni Diniz.

Pinos, hastes e uma longa espera

Na ortopedia, o foco recai sobre quem já operou, mas precisa retirar os chamados materiais de síntese, como as hastes, pinos e fixadores externos. O NAS mapeou pacientes que aguardam há meses, alguns há mais de dois anos, pela conclusão dessa etapa. Na lista, há desde crianças de 4, 8 e 9 anos até uma idosa de 87 anos. Boa parte do grupo espera desde o mês de abril de 2024.

O tempo excessivo cobra um preço alto do corpo. A permanência prolongada desses dispositivos eleva os riscos de infecções graves, dores crônicas, osteomielite, sepse e pode levar à morte. O motivo da paralisação? Memorandos da própria Santa Casa, localizados pela Defensoria, apontam a suspensão de cirurgias eletivas e restrições na anestesiologia devido a pendências financeiras com as equipes médicas.

O compasso de espera do coração

O cenário se repete na cardiologia, em que a falta de insumos dita o ritmo da agonia. Sem marca-passos, cardiodesfibriladores implantáveis e outros dispositivos, os pacientes seguem internados sem qualquer previsão de alta.

Um dos casos acompanhados pelo núcleo ilustra bem o desgaste. Um paciente ficou 32 dias internado esperando por um marca-passo. Quando o equipamento finalmente chegou, a cirurgia foi feita em apenas 45 minutos. O custo emocional e financeiro desse tempo ocioso impacta diretamente o sistema de saúde. O gargalo se agrava porque a Santa Casa é o único hospital habilitado no Estado para realizar implantes de alta complexidade, concentrando a demanda.

A Justiça já deu os primeiros passos após ser acionada. O Poder Judiciário determinou a intimação das partes envolvidas para manifestação em 72 horas e agendou uma audiência para quinta-feira (25), com a intenção de costurar soluções conjuntas. Pela complexidade do caso, uma das ações já foi classificada como processo estrutural, exigindo acompanhamento de longo prazo.

(Fotos: Vitor Ilis)