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"É um negócio de maluco": Giroto denuncia método perigoso no tapa-buraco de Campo Grande
Engenheiro civil e ex-secretário de Obras alerta que uso de "bica corrida" pela Sisep pode provocar acidentes graves; quatro regiões da Capital já estão sem o serviço após desvio de R$ 113 milhões
Campo Grande pode chegar ao segundo semestre de 2026 com suas vias destruídas, sem perspectiva de conserto, e ainda com um risco extra: o método improvisado adotado pela Prefeitura para tapar os buracos que sobraram pode provocar acidentes graves.
O alerta vem de quem entende do assunto. Edson Giroto, engenheiro civil, ex-secretário municipal e estadual de Obras e ex-deputado federal, não poupou palavras ao ser questionado sobre a situação atual das ruas de Campo Grande, com a medida de "bica corrida", pedras soltas jogadas nos buracos como solução emergencial pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep).
"Não sou irresponsável. Olha, eu sou engenheiro civil e nunca tinha visto isso. Alguém me explica se 'bica corrida' é para tapa-buraco? Pelo amor de Deus, isso ainda vai matar gente. Isso só pode ser brincadeira. São pedras soltas, uma moto vai escorregar e causar acidentes. É um negócio de maluco", denunciou Giroto.
O risco, segundo ele, vai além do motociclista. "Se um automóvel passar por cima disso, vai fazer com que o sistema que dá tração aos pneus jogue as pedras para trás. Ou vai quebrar o para-brisa, ou vai pegar na cabeça de alguém. E a chuva leva tudo. É brincadeira de criança. Não sei quem inventou isso e não sei por que as autoridades deste estado até hoje não tomaram providência."
Buraco sem fim
Entre 2018 e 2025, a Construtora Rial acumulou contratos e aditivos com a Sisep que somam R$ 113.702.491,02. A empresa era responsável pelo tapa-buraco em quatro das sete regiões da cidade: Anhanduizinho, Bandeira, Imbirussu e Segredo.
A Operação Buraco Sem Fim, deflagrada em maio de 2026 pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção do MP-MS (Gecoc), revelou "a existência de uma organização criminosa que atua fraudando, sistematicamente, a execução do serviço de manutenção de vias públicas no Município de Campo Grande, por meio da manipulação de medições e da realização de pagamentos indevidos."
De acordo com o MPMS, "As evidências revelaram pagamentos públicos que não correspondem aos serviços efetivamente prestados, com o propósito de permitir o desvio de dinheiro público, o enriquecimento ilícito dos investigados e, como consequência, a má qualidade das vias públicas municipais."
Sete pessoas foram presas. Entre elas, o ex-secretário de Infraestrutura Rudi Fiorese, o engenheiro da Sisep Mehdi Talayeh e o dono da Rial, Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa.
"R$ 113 milhões. É dinheiro do IPTU, do ISSQN, de cada nota fiscal emitida nessa cidade. Foi para o bolso de uma organização enquanto os moradores do Anhanduizinho, do Imbirussu, do Segredo e da Bandeira andavam em ruas cheias de buraco. Isso é roubo. E roubo tem que ter consequência além da prisão, tem que mudar o sistema que permitiu que isso acontecesse por sete anos seguidos", afirma Giroto.
Com os contratos da Rial encerrados e sem possibilidade de aditivo, a Prefeitura confirmou que não pretende renovar a parceria com a empresa investigada, as quatro regiões já estão sem atendimento. O saldo dos contratos foi esgotado e o serviço simplesmente parou.
Para as três regiões restantes, os contratos vencem em julho. A alternativa apresentada pela Prefeitura é uma usina de asfalto do Consórcio Central-MS, formado por Campo Grande e outros quatro municípios.
Para Giroto, a crise imediata exige resposta imediata. "Não dá para esperar agosto para resolver o que está parado desde maio. Campo Grande tem quase um milhão de habitantes. Cada dia sem tapa-buraco é um pneu furado, uma moto caída, um cidadão que perdeu o controle do carro".
"O cidadão foi roubado duas vezes. Primeira vez quando pagou o imposto e o serviço não foi feito. Segunda vez agora, quando continua convivendo com os buracos enquanto o poder público tenta resolver a bagunça deixada pelos envolvidos na Buraco sem Fim", diz Giroto.