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'Cartografias do Atravessamento' revela evolução de pesquisa do artista Renan Reis

Serão apresentadas obras que sintetizam anos de investigação sobre território, memória, deslocamento e linguagens multimídia

07/07/2026 às 19:11 | Atualizado 07/07/2026 às 17:30 Carol Rampi
Divulgação

O artista visual, curador, educador e arteterapeuta Renan Reis inaugura nesta sexta-feira (10) a exposição 'Cartografias do Atravessamento', em Campo Grande. Em sua primeira exposição individual, o artista propõe um inventário sensível de sua produção, materializado em um conjunto de trabalhos que cruzam e tensionam diferentes mídias, suportes e texturas ao longo dos últimos anos.

A exposição revela um pouco da trajetória da pesquisa de Renan, que passou pelo grafismo pop em 2013, durante sua formação universitária, até o bordado artesanal, por volta de 2019, caminhos que colidiram em 2021, na série 'Afloramento'. 

A organização da mostra ocorre como um território de contrastes e encontros poéticos. Na primeira sala, o público testemunha um embate de linguagens: de um lado, "Galáctica Oráculo" apresenta impressões de imagens geradas por Inteligência Artificial. Através de prompts que simulam as pinturas criadas pelo artista em 2013, o trabalho investiga as relações sociais estabelecidas com a tecnologia, encarando as IAs como os novos oráculos contemporâneos. No extremo oposto, a colcha de retalhos "Os Rios que Atravessam meu Coração" resgata a dimensão do fazer manual e coletivo.

No centro geográfico desse espaço, a distância entre espectador e obra é abolida pela instalação "Alógeno - Peça (me ensine algo)". O trabalho faz alusão direta à performance "Alógeno" (2017), na qual o artista investigava processos de enclausuramento, inércia e movimentos psíquicos através de um corpo envolto em papel filme e fita adesiva. Na instalação atual, esses materiais de proteção dão forma a um grande coração de plástico bolha e fita adesiva. O público é convidado a recobrir o órgão com fita crepe vermelha, testemunhando física e simbolicamente como o atravessamento do outro é inevitável para que se possa cruzar em direção ao próximo núcleo da galeria.

A segunda sala conduz a um ambiente de recolhimento e sacralização. O destaque fica para as monumentais ilustrações da série "Cabeça Coração", impressas sobre a superfície nobre do veludo. As imagens evocam os padrões da azulejaria tradicional — em uma sutil reverência à pesquisa histórica de Adriana Varejão —, mas operam por uma inversão poética: o suporte de veludo aquece visualmente a imagem, transmutando a rigidez e a frieza originais do azulejo na pulsação orgânica da carne.

Neste mesmo ambiente, a série de pinturas "Origem" apresenta o coração em múltiplos contextos. Como bem define o crítico de arte Oscar D’Ambrosio, as criações de Renan Reis ganham contornos de "altar, entendido como um local em que o sagrado se manifesta, seja enquanto reduto daquilo que se considera beleza ou do que permite uma comunhão com algum tipo de divindade, não aquelas longínquas (...), mas o cotidiano". Para D'Ambrosio, a série funciona como um "útero de ideias e de conceitos a serem gradativamente desvendados por cada observador".

Completam a última estação as aquarelas de corações ciclopes da série "Sete Chaves" e uma enigmática escultura em madeira de 15 cm com cabeça de ampulheta, que tenciona os limites morais e os segredos do desejo humano. A exposição deixa lacunas propositais entre suas composições, criando campos abertos para que o visitante preencha os vazios e estenda as possibilidades de sua própria apreensão.

A exposição 'Cartografias do Atravessamento' será realizada no dia 10 de julho, das 18h às 21h, na Casa de Cultura, em Campo Grande. O período de visitação vai até o dia 21 de agosto.