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Do Centro-Oeste ao alto-mar: sul-mato-grossense constrói carreira na navegação internacional
Cinthya Lopes primeira oficial mercante mulher do Mato Grosso do Sul
Aos 17 anos, uma campo-grandense decidiu trocar a rotina no Centro-Oeste por uma carreira em alto-mar. Sem tradição familiar ligada à navegação e vivendo em um estado sem litoral, Cinthya Lopes prestou concurso para a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, no Rio de Janeiro, foi aprovada e se tornou a primeira mulher sul-mato-grossense a atuar como oficial da Marinha Mercante.
Hoje, aos 44 anos, ela mora na Holanda, trabalha no maior centro de simulação marítima do mundo e se tornando uma referência internacional no setor. Em agosto, retorna a Campo Grande para visitar a família e pretende incentivar jovens a conhecerem uma profissão que, segundo ela, ainda é praticamente desconhecida em Mato Grosso do Sul.
"Você sabia que eu sou a primeira oficial mercante mulher do Mato Grosso do Sul? Lá fora, no meio marítimo, sou muito conhecida justamente por ter vindo de um estado tão distante do mar. Mas aqui quase ninguém sabe o que eu faço", conta.
Nascida e criada em Campo Grande, Cinthya estudava no Colégio Militar quando conheceu a profissão. Uma amiga pretendia ingressar na Marinha e comentou sobre a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, única instituição militar que aceitava mulheres na época.
No último ano do ensino médio, ela fez o concurso. "Foram apenas dois aprovados: eu e outro rapaz", relembra. Após a formação, tornou-se piloto de navios de grande porte que transportavam cargas pelo mundo. Mais tarde, passou a atuar em embarcações de apoio às plataformas de petróleo na costa brasileira.
Quando iniciou a carreira embarcada, a presença feminina ainda era rara.
"Fiz parte da terceira turma de mulheres e praticamente sempre era a única mulher a bordo. Hoje isso mudou bastante no Brasil, embora no exterior ainda não sejamos muitas."
A rotina, segundo ela, exigia resistência física e emocional. Além do trabalho intenso, havia longos períodos longe de casa.
"Cheguei a passar oito meses embarcada sem voltar para casa. Naquela época nem internet existia a bordo. A comunicação com a família era muito limitada."
Mas, para ela, o maior desafio não era a distância. "No começo, a saudade era substituída pela descoberta. Eu estava conhecendo o mundo. Depois de alguns anos, a saudade começa a apertar. O mais difícil era a solidão. Eu era a única mulher em um navio no meio do oceano, sem outra companhia feminina para conversar."
Da Marinha para a Holanda
Depois de anos navegando, Cinthya se especializou em sistemas de simulação marítima e foi convidada pela Marinha para atuar em terra. Há nove anos, recebeu um novo convite: integrar uma empresa holandesa responsável pelo maior centro de simulação marítima do mundo.
"Foi um choque muito grande. Vi o centro nascer porque ele ainda estava sendo construído quando cheguei. Profissionalmente foi incrível, mas a adaptação cultural foi bem difícil."
Além de desenvolver sistemas de simulação, ela hoje ministra treinamentos e palestras internacionais. A mais recente aconteceu em maio, em Singapura, e já há eventos confirmados na Bélgica e em Portugal.
Apesar da carreira consolidada na Europa, Cinthya afirma que nunca perdeu os laços com Mato Grosso do Sul. Ela conta que sente falta da família, dos amigos e da forma como os brasileiros convivem.
"Aqui a cultura é muito individualista. Ninguém aparece na casa de ninguém para tomar um café. Isso faz muita falta. Quando vou para Campo Grande faço questão de comer sobá na feira, peço para minha mãe fazer sopa paraguaia, adoro tereré e caldo de cana."
Incentivar novos profissionais
Cinthya desembarca em Campo Grande no início de agosto e permanecerá na cidade até o fim do mês visitando a mãe.
Durante a estadia, ela espera participar de um projeto em parceria com a Secretaria Municipal de Educação para apresentar a carreira da Marinha Mercante a estudantes da rede pública.
Segundo ela, a distância do mar faz com que poucos jovens sul-mato-grossenses sequer saibam que a profissão existe.
"Existem poucos profissionais do Mato Grosso do Sul nessa área justamente pela distância da costa. Como consequência, é uma profissão pouquíssimo conhecida. Quero mostrar para os jovens que esse caminho existe e que eles também podem chegar lá."