há 2 horas
Falta de anestesia faz animais sofrerem durante eutanásia no CCZ: 'tutores ficam sem opção'
Além disso, a quantidade de castrações diárias foi reduzida pela falta do medicamento
Os animais, que precisam de eutanásia pelo CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de Campo Grande, estariam sofrendo durante o procedimento pela falta de anestésicos. A situação já dura mais de seis meses e tem piorado com o passar do tempo, comprometendo o atendimento de animais com doenças graves, além de reduzir significativamente o número de esterilizações realizadas pelo órgão.
Conforme relatos encaminhados para a reportagem, a escassez de insumos tem impedido a realização de eutanásias em animais com indicação veterinária, como cães diagnosticados com leishmaniose visceral ou doenças sem possibilidade de cura.
"O anestésico aplicado antes da injeção letal está em falta há meses. O pedido de compra vem sendo feito desde o ano passado. O secretário, a secretária-adjunta, o Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MS) estão cientes, mas ninguém sinaliza uma compra emergencial", afirmou um dos servidores.
Segundo o denunciante, a maior parte dos animais afetados pertence a famílias de baixa renda, que não têm condições de arcar com os custos do procedimento em clínicas particulares. "Os tutores ficam sem opção. O cachorro permanece sofrendo no quintal ou acaba sendo abandonado nas ruas. Além do sofrimento do animal, existe o risco de transmissão da leishmaniose."
Outra servidora confirmou que a ausência do anestésico tem afetado diretamente a rotina da unidade.
"O correto seria haver eutanásia todos os dias para os casos indicados. Estamos realizando coleta de sangue para diagnóstico de leishmaniose visceral e muitos cães já apresentam sintomas avançados. Os tutores não conseguem entregar os animais porque não há anestesia para realizar o procedimento", relatou.
Castrações também foram reduzidas
Além da falta de medicamentos para eutanásia, os denunciantes afirmam que o problema também atingiu o programa de castração de cães e gatos. Segundo um dos relatos, antes da falta de insumos, eram castrados diariamente cerca de 40 gatos e 20 cães. Atualmente, esse número teria caído para aproximadamente cinco gatos e três cães por dia.
"Já começou a faltar medicação para realizar as castrações. Daqui a pouco para tudo. Isso prejudica muito o trabalho. É inadmissível que a Sesau não providencie os insumos necessários, sabendo da situação", afirmou um servidor.
Risco à saúde pública
Conforme os relatos, o aumento de casos suspeitos de leishmaniose também preocupa as equipes que atuam em campo. "Estamos fazendo coleta de sangue para exame de leishmaniose visceral e encontramos muitos cães já com sintomas bem evidentes", afirmou uma das denunciantes.
Ela destaca que muitos tutores atendidos pelo CCZ são de baixa renda e não conseguem custear o tratamento dos animais. "Quando o mosquito pica um cão infectado e depois uma pessoa, pode transmitir a leishmaniose visceral. Isso acaba sendo um problema de saúde pública."
Quando a eutanásia é permitida
A eutanásia em Centros de Controle de Zoonoses é regulamentada pela Lei Federal nº 14.228/2021 e pelas normas do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV).
O procedimento é permitido apenas em situações específicas, como em animais com doenças infectocontagiosas incuráveis que representem risco à saúde pública, a exemplo da leishmaniose, ou em casos de sofrimento intenso e irreversível. Em todas as situações, a decisão deve ser fundamentada em laudo emitido por médico-veterinário.
Animais saudáveis recolhidos pelos órgãos públicos não podem ser submetidos à eutanásia e devem ser encaminhados para adoção.
Nos últimos meses, denúncias envolvendo procedimentos realizados no CCZ de Campo Grande motivaram o acompanhamento de fiscalizações técnicas pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), Polícia Civil e Conselho Regional de Medicina Veterinária de Mato Grosso do Sul (CRMV-MS).
A reportagem procurou a Secretaria Municipal de Saúde para falar sobre o assunto, mas, até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.