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há 16 minutos

'Vacimóvel' leva saúde para crianças em áreas isoladas de Mato Grosso do Sul

Com veículos adaptados e reforço em equipamentos de refrigeração, Estado muda estratégia para garantir atendimento na porta de casa para comunidades distantes e áreas de risco

06/09/2026 às 08:46 | Atualizado 06/09/2026 às 08:44 Diana Christie
Ascom

Para Tianieli Almeida da Silva, manter a carteirinha de vacinação do filho em dia exigia planejamento, tempo e, quase sempre, uma viagem. Moradora do assentamento Santa Guilhermina, em Maracaju, ela faz parte de uma das mais de 240 famílias da comunidade que, até pouco tempo, precisavam se deslocar até a área urbana para acessar o serviço básico de saúde. A rotina mudou quando o posto de atendimento passou a estacionar perto de casa.

“Pra mim é muito bom que seja possível este atendimento aqui, acredito que para todos os moradores do assentamento, ainda mais para mães de criança pequena, como eu, que sempre precisamos vacinar, de mês a mês, sem ter a necessidade de sair daqui para ir na cidade”, relata Tianieli, que agora resolve em poucos minutos o que antes tomava boa parte do dia.

A mudança no assentamento reflete um desafio geográfico e logístico de Mato Grosso do Sul. Com grandes distâncias separando áreas rurais, aldeias e regiões de fronteira, ter a vacina no estoque não basta; é preciso garantir que ela chegue ao braço da população. Para encurtar esse trajeto, o governo estadual ampliou a estrutura itinerante de imunização.

A principal aposta foi colocar a sala de vacina sobre rodas. O Estado investiu R$ 3,4 milhões na compra de dez veículos adaptados como Vacimóveis, além de R$ 440 mil na contratação de dois furgões refrigerados. Equipadas com câmara de conservação, materiais de preparo, espaço de atendimento e tenda externa, as unidades funcionam como uma extensão dos postos de saúde tradicionais.

A estratégia operou de forma experimental entre novembro e dezembro de 2025. O projeto-piloto percorreu Corumbá, Inocência, Japorã, Porto Murtinho, Miranda e Paranaíba, aplicando 1.993 doses e testando a logística em diferentes cenários. Em 2026, com o programa MS Protegido, a circulação dos veículos foi oficializada, começando pela Região Norte com rotas desenhadas para alcançar desde o Baixo Pantanal até o Sul-Fronteira.

O funcionamento diário depende de uma divisão de tarefas. O governo estadual entra com a estrutura física: o Vacimóvel, o técnico responsável, o motorista e o combustível. Já as prefeituras fornecem os vacinadores, a equipe que registra as doses e os profissionais encarregados de mobilizar os moradores.

A estrutura que o paciente não vê

A viagem do Vacimóvel é apenas a etapa final de uma cadeia sensível. Cada frasco de vacina exige controle rigoroso de temperatura desde o laboratório até o momento da aplicação. Se a refrigeração falhar, a dose perde o efeito.

Para sustentar as unidades móveis, a chamada rede de frio precisou ser modernizada. Em 2025, os Núcleos Regionais de Saúde receberam 197 novos computadores e nove câmaras de conservação. O planejamento do Estado prevê a montagem de kits completos com 439 câmaras frias, 439 computadores e 439 nobreaks, blindando os estoques contra apagões ou variações climáticas. Até o fim do ano passado, 39 desses conjuntos já haviam sido instalados em unidades de Dourados, Corumbá, Três Lagoas, Maracaju, Naviraí e Nova Andradina.

O investimento em tecnologia esbarra em outro ponto vital: os dados. Computadores atualizados garantem que as doses aplicadas sejam registradas em tempo real. Sem essa informação, os gestores ficam no escuro, sem saber quais regiões estão protegidas e onde há risco de surtos.

“Um eixo importante do Programa Nacional de Imunizações é a sua rede de frio. Toda essa cadeia, desde a aquisição até a disposição ao usuário final, é pensada para garantir que a vacina tenha a sua segurança e a sua eficácia por meio do monitoramento da temperatura”, detalha Frederico Moraes, coordenador de Imunização da Secretaria de Estado de Saúde. Segundo ele, os municípios mantêm protocolos de emergência prontos para serem ativados em caso de tempestades ou quedas de energia.

Os equipamentos também exigem braços treinados. No ano passado, 118 profissionais concluíram a capacitação para aplicar a BCG, vacina administrada nos primeiros dias de vida que exige técnica apurada. A chegada de novas tecnologias ao SUS, como as proteções contra a dengue e o vírus sincicial respiratório, também força uma rotina de atualização constante das equipes.

Fronteira em alerta

O teste de fogo dessa estrutura articulada acontece nas faixas de fronteira, onde a alta circulação de pessoas exige respostas rápidas. Em julho de 2025, o risco de o sarampo cruzar a divisa com a Bolívia acendeu o alerta da saúde estadual.

A resposta veio em forma de força-tarefa. Doses extras foram enviadas a Corumbá e Ladário, e equipes volantes montaram pontos de vacinação em praças, terminais e no comércio. A estratégia incluiu a "dose zero" para bebês de seis a 11 meses. O resultado: 1.050 doses aplicadas em Corumbá e 116 em Ladário em questão de semanas. A mobilização ainda treinou 160 profissionais e garantiu o envio de 20 mil doses da tríplice viral para a Bolívia, com apoio do Ministério da Saúde.

“A saúde preventiva não pode esperar a confirmação de um surto. Em regiões de fronteira, medir o risco, deslocar equipes e organizar rapidamente a vacinação é parte da proteção das crianças que vivem ali e também das famílias de todo o Estado”, avalia o governador Eduardo Riedel (PP).