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A receita da independência: queijeira transforma sobra de leite em negócio próprio em Coxim
Após anos vendendo apenas para amigos, moradora buscou capacitação, multiplicou clientes fixos e retomou o antigo sonho de cursar Agropecuária
A história de Eucleia Morais com a produção de queijos começou de forma despretensiosa, quase como uma tentativa de não desperdiçar a sobra do leite no sítio onde vive há mais de duas décadas, em Coxim (MS). O que era apenas um agrado vendido para os vizinhos e conhecidos ganhou outro peso quando as despesas de casa aumentaram. Hoje, a produção artesanal deixou de ser um complemento ocasional para se tornar a principal fonte de renda da família, uma mudança impulsionada pela volta aos estudos e ao empreendedorismo.
A virada de chave aconteceu conforme a filha começou a crescer e os custos pesaram no orçamento diário. “Para ter uma graninha para gastar com algumas bobagens com ela, eu falei: ‘Vou começar a vender’. Daí comecei e nunca parei”, lembra a produtora. A oportunidade de profissionalizar o trabalho surgiu por acaso, enquanto ela mexia nas redes sociais e viu uma publicação do Sindicato Rural do município sobre o Programa Mulheres em Campo, oferecido pelo Senar/MS para capacitar gestoras rurais.
O caminho até a sala de aula testou a persistência de Eucleia. As idas para a capacitação exigiam esforço e uma boa dose de teimosia. “As dificuldades são muitas, eu vou de moto e nos dias de frio eu pensava: ‘O que eu fui inventar, estava tão na paz’. Mas eu aprendi muita coisa lá, principalmente a valorizar o meu tempo, a minha mão de obra e o meu produto em si”, relata.
Na cozinha, a intuição logo deu lugar à precisão matemática. Eucleia percebeu que a produção feita no improviso acabava gerando perdas que corroíam o lucro. “A minha balança, que eu tinha comprado há um tempo e não usava, hoje em dia eu uso para pesar os queijos na medida certa e não ter prejuízo. Sempre fazia sobrando e agora aprendi que tem que ser tudo calculado", conta. A organização incluiu até a montagem de uma tabela de preços caprichada para divulgar os produtos aos clientes.
Colocar o conhecimento à prova foi o passo seguinte. A produtora participou da Feira das Produtoras do Senar/MS, onde conseguiu atrair um público novo. A experiência de expor os produtos rendeu clientes que compram com ela até hoje, além de promover uma troca rica de histórias com outras mulheres que buscavam uma fonte de renda definitiva.
O impacto do programa foi tão grande que a queijeira decidiu tirar um projeto antigo da gaveta. Ela voltou a estudar e iniciou o curso Técnico em Agropecuária, formação que havia abandonado anos atrás. A expectativa pelo tão aguardado diploma vem acompanhada de bom humor ao projetar a nova dinâmica de trabalho no sítio. “Na época, eu acabei desistindo e deixando para trás esse sonho de concluir o curso. Agora está mais divertido, porque eu ajudo o meu marido, mas ainda não tenho prática. Eu quis ir aprender para depois eu poder mandar nele e falar: ‘Não, você está fazendo errado, eu aprendi’”, brinca.
A empolgação com os próprios resultados a transformou em uma verdadeira divulgadora da qualificação na sua região. Segundo informações relatadas pela própria Eucleia, o incentivo já rendeu frutos na família. Uma prima, que faz sanduíches naturais, concluiu o programa após o seu convite e já comemora as boas vendas na feira.
Avaliando a jornada que transformou o passatempo em independência financeira, ela resume o sentimento de ter se tornado dona da própria trajetória. “Mulheres em Campo foi tipo um divisor de águas. Eu queria que todo mundo fizesse para ter essa experiência. Talvez tem alguma coisa adormecida que vai despertar lá para você querer estudar e fazer mais”, aconselha.