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Pratos menores e mais proteína: canetas emagrecedoras mudam o cardápio em Campo Grande

Levantamento mostra que a frequência nos estabelecimentos se mantém, mas o setor precisa adaptar menus para um público que perdeu o apetite, mas não a vontade de sair

27/09/2026 às 10:11 | Atualizado 27/09/2026 às 08:44 Diana Christie
PRF

O apetite diminuiu, mas a vontade de sentar à mesa com amigos continua a mesma. Com o avanço das chamadas canetas emagrecedoras, o campo-grandense que faz uso desses medicamentos mudou a forma de enxergar o cardápio, mas não abandonou os restaurantes. Pelo contrário: muitos estão saindo até com mais frequência, exigindo dos chefs e donos de bares uma adaptação rápida para pratos menores e mais nutritivos.

O raio-x desse novo cenário gastronômico foi apresentado nesta quinta-feira (24), durante o evento "Canetas Emagrecedoras: A Revolução que Está Redesenhando o Mercado", no Senac Hub Academy. Uma pesquisa realizada pelo IPF-MS (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Fecomércio-MS) para o Senac MS foi às ruas das sete regiões urbanas da Capital, entre 24 de agosto e 2 de setembro, ouvindo 1.087 consumidores para entender o peso dessa revolução.

Os números revelam uma mudança clara de rotina. Dos entrevistados, 14,1% afirmaram usar ou já ter usado remédios injetáveis para controle de peso. Entre esse grupo, a redução da fome foi relatada por 91,5% dos pacientes. A consequência direta vai parar na comanda: 87,7% preferem pratos menores, uma diferença enorme quando comparada aos 43,9% de quem não recorre a esse tipo de substância.

Mesmo com a ingestão reduzida de comida (apontada por 43,1%), a vida social se mantém agitada. Quatro em cada dez usuários continuam frequentando os restaurantes com a mesma constância de antes, e impressionantes 21,6% passaram a sair ainda mais. A diferença está na escolha dos ingredientes. A prioridade agora é aumentar o consumo de proteínas (30,7%) e de vegetais e saladas (28,1%). Os doces e sobremesas perderam espaço para 25,5% dessas pessoas.

Para o setor de alimentação, o recado exige ação. A diretora do IPF-MS, Nilde Brun, explica que o desafio é repensar a montagem e o valor agregado do que chega à mesa. "Então, volume, tamanho da porção, a gente percebe realmente essa diminuição, agregar valor nessa porção que ele está oferecendo. Como sugestão, desenvolver precificação premium para porções reduzidas, ensinar a transição de pratos volumosos para pratos de alta densidade em proteínas", afirma.

A adequação financeira acompanha a necessidade nutricional. O consultor Leonardo Leão questiona justamente como o empresário pode ser rentável e competitivo ao levar um prato mais saudável para esse grupo. A diretora regional do Senac MS, Jordana Duenha, enxerga os dados como um guia para a sobrevivência comercial. "A pesquisa mostra que não estamos diante de um consumidor que simplesmente deixou de frequentar restaurantes, mas de alguém que está fazendo novas escolhas", pontua, destacando a urgência em transformar essas informações em soluções, seja na precificação ou na capacitação das equipes.

O presidente do Sistema Comércio MS, Juliano Wertheimer, reforça que a entidade já oferece serviços de consultoria para apoiar os negócios nesse novo formato.

O perfil de quem adota o tratamento também desenha o público que o comércio precisa mirar. As mulheres lideram o uso (19,2%, contra 9,1% dos homens), e a adesão cresce junto com a renda, saltando de 11,1% na base de até três salários mínimos para 22% nas famílias que ganham mais de dez salários. Para essa parcela, o preço do prato deixou de ser um problema, apenas 1,3% acham o valor decisivo, contra 11,1% dos não usuários. O que eles buscam, segundo 47,7% do grupo, é o equilíbrio perfeito entre o prazer e a saúde.

A transição também esbarra no fator psicológico. A médica nutróloga Tayná Santiago observa que a mente precisa acompanhar o corpo. "O comportamento não está acompanhando a velocidade de emagrecimento. Então, o comportamento é a chave que vai fazer a diferença de quem vai se beneficiar ou não dessa mudança de mercado", analisa.

Ao que tudo indica, o novo hábito tem fôlego longo. A maioria dos usuários (85,6%) acredita que as mudanças serão duradouras. Entre as 69 pessoas que interromperam o tratamento no levantamento, 27,5% mantiveram quase todas as alterações de rotina e 36,2% preservaram ao menos parte delas.

Seja com caneta emagrecedora ou sem, o cliente campo-grandense no panorama geral ainda quer variedade de pratos (54,6%) e não abre mão de sabor e qualidade dos ingredientes (53,3%). Preços acessíveis seguem na pauta para 49,8%, enquanto o ajuste no tamanho das porções já é um aspecto lembrado por 25,9% de todos os entrevistados. O prato pode até diminuir, mas a exigência por uma comida caprichada continua a mesma.