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Gedeon lutou pela vida da irmã durante ataque do cunhado e acabou com sequelas permanentes na perna

Idoso perdeu parte dos movimentos da perna, sente dores e afirma que aposentadoria não é suficiente para quitar dívidas e regularizar a casa da família

08/10/2026 às 07:00 | Atualizado 08/10/2026 às 08:04 Méri Oliveira
Perna direita tem haste que vai do tornozelo ao joelho e mais seis pinos - Chris Velasco

Gedeon Silva de Souza tem 64 anos e é aposentado. Ao contrário de muitas pessoas da mesma faixa etária, sua aposentadoria não adveio da idade ou do trabalho: em janeiro de 2011, ele foi espancado ao tentar defender a irmã em uma situação de violência doméstica e acabou ficando com sequelas que tornaram a aposentadoria algo compulsório.

O idoso conta que, naquele início de ano, estava em sua casa, já dormindo, quando foi despertado por uma irmã pedindo a ele que ajudasse a outra irmã, que era espancada pelo então namorado, ao que ele prontamente atendeu. "Ele já pegou ela dentro de casa aqui, quebrou o celular dela, 'mandou' a cabeça dela naquela parede de grafiato, né? Aquilo lá machuca, onde pegar, aquelas pedrinhas machucam a cabeça da pessoa", relembra. 

Gedeon afirma que, ao chegar à casa da irmã, nem teve tempo de dialogar, pois foi recebido já com violência. "Na hora em que eu fui lá conversar com ele, ele me deu um soco, e eu revidei. No que eu revidei, entrou minha sobrinha para apartar. Aí, na hora em que ela arredou o corpo para cá, ele me socou com um soco de esquerda que pegou aqui, nesse olho aqui, ó", conta, apontando para o olho atingido na ocasião. 

O idoso lembra que o ex-cunhado estava embriagado e agressivo. No dia dos ataques, Gedeon foi ao chão e o agressor chutou sua perna direita com muita violência. A situação foi agravada, pois ele usava botina de bico de aço, o que resultou em três fraturas na perna do hoje idoso. 

A fratura foi tão grave que precisou passar por cirurgia e receber um transplante de pele: parte do tecido precisou ser retirada de outra área do próprio abdômen para realizar o enxerto. Segundo ele, o osso chegou a se deslocar quando tentou andar e houve fratura exposta.

Calvário 

De lá para cá, Gedeon conta que teve muito sofrimento, chegando a ficar mais de mês internado na Santa Casa, fora as cirurgias para colocar, além do enxerto, uma prótese (haste metálica que vai do tornozelo até o joelho) e seis pinos na perna atingida, o que limita os movimentos. Com o passar do tempo, a reabilitação ficou prejudicada, e o homem que trabalhava no campo, acostumado com a lida pesada, não pode mais exercer suas funções por causa das sequelas. 

À época, ele estava desempregado e recebia seguro-desemprego, mas pretendia voltar a trabalhar, o que não foi possível. Com isso, o médico decretou a aposentadoria. “O médico falou bem assim para mim: ‘Seu Gedeon, eu vou afastar o senhor de suas atividades, porque o senhor não tem mais possibilidade de trabalhar. O senhor não vai poder trabalhar mais’”, relembrou. E assim foi feito. 

Desde então, Gedeon conta que uma sucessão de situações tomou lugar e muitas dificuldades se apresentaram, entre elas, a diferença no comprimento das pernas, pois a perna fraturada acabou ficando mais curta do que a outra, o que dificulta a caminhada e provoca dor, especialmente quando precisa dobrar a perna ou quando o tempo esfria. “Quando você vai encolher o joelho, não tem jeito. Aquilo lá dói”, disse.

"Tudo dói, mas minha preocupação é com moradia"

Hoje, 15 anos depois da briga, as dificuldades continuam. Gideon afirma que precisa de atendimento médico para avaliar as dores e as limitações, mas diz que sua principal preocupação atualmente é outra: ter uma moradia.

A casa onde vive pertencia à mãe, que morreu sem regularizar a propriedade para os filhos. O imóvel permaneceu no nome dela e acumula dívidas de IPTU. Segundo Gideon, quando tentou resolver a situação, descobriu que os débitos chegavam a cerca de R$ 10 mil. “Um salário não dá para você cobrir toda a dívida”, afirmou.

Ele conta que tentou buscar ajuda pela Defensoria Pública para realizar o inventário, mas encontrou dificuldades porque uma das herdeiras não teria concordado em assinar os documentos necessários. “Está tudo enrolado aí. Está tudo parado aí no Judiciário”, relatou.

Sem condições financeiras para resolver sozinho as pendências, Gedeon afirma que também tentou conseguir uma casa por meio de programas habitacionais, mas não conseguiu. “Eu fiquei um bom tempo lutando por uma casa dessas de conjunto habitacional. Mas nada”.

Aos poucos, a história de uma briga ocorrida há mais de uma década se junta - ou, talvez, tenha ajudado a dar origem - às dificuldades enfrentadas atualmente por um homem que perdeu a capacidade de trabalhar, convive com as limitações físicas e afirma não ter condições de resolver sozinho o problema de casa própria. 

O desejo do idoso é resolver o próprio déficit de moradia, mas, ao mesmo tempo, deixar a situação do imóvel regularizada para os familiares que também têm igual direito à propriedade.