29/06/2015 18:12
Separados por hanseníase, filhos de vítimas buscam indenização
O Movimento de Reintegração de Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), realiza o encontro de filhos das vítimas de hanseníase que foram separados dos pais nas décadas de 1920 e 1980 durante o tratamento compulsório em locais isolados, na tarde desta segunda-feira ( 29), no plenarinho da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. Alguns ficaram órfãos e lutam para receber o beneficio de quase R$ 1.200 e a indenização devido os traumas sofridos.
Conforme o coordenador nacional do Morhan, Artur Custório, a estimativa chega a 40 mil brasileiros que ficaram órfãos dos pais que teve a doença. “ Hoje essas pessoas tem em media de 50 a 60 anos e lutam para receber os direitos”.
Os pacientes eram separados da família e internados em locais fechadas, conhecidas como leprosários ou em hospitais chamados de colônia. As crianças eram levados para educandários e entregue para outros casais. Muitos pais receberam o tratamento e foram buscar os filhos e perceberam que as crianças não moravam mais no local.
Os filhos das pessoas que teve hanseníase lutam para receber o benefício. Foto: Landerson Ricardo
A aposentada Adair Borges, 65 anos, sofreu da hanseníase durante seis anos e lembra da vida difícil que teve durante o tratamento no Hospital São Julião. “ Tinha 18 anos e fiquei doente. Nem sabia o que tinha. E fiquei isolada no hospital. Era jovem e não tinha nem medicamento para tomar. Dentro do isolamento conheci um rapaz que também fazia o tratamento e tivemos dois filhos. As duas crianças foram levados para o educandário na avenida Coronel Antonino. O casamento lá dentro do hospital não dava certo. Ele melhorou e foi embora atrás da família dele. Depois de alguns anos tive alta médica e fui visitar os meus filhos e não fui bem recebida. Eles nem lembravam mais de mim. Sofri muito, ficava de coração apertado. Pensando neles e na minha doença que nunca melhorava. Chorava ficava triste. Consegui ter contato com os meus filhos na fase adulta. Um deles me perdoou mas a minha menina ainda tem mágoas”.
No Brasil seis mil pacientes recebem a pensão vitalícia de acordo com a Lei 11.520/2007, que dispõe sobre a concessão de pensão especial às pessoas atingidas pela hanseníase e que foram submetidas a isolamento e internação compulsórios até 31 de dezembro de 1986.
O coordenador nacional do Morhan, Artur Custório busca mais respostas do governo federal e cobra o pagamento de uma indenização para os filhos que foram separados dos seus pais.
O filho da Adair Borges, Marcos Roberto Bezerra de 45 anos, morou no educandário durante 18 anos e depois foi morar no quartel. “ Não tive contato com a minha mãe. Ela fazia algumas visitas no educandário mas era proibida de ficar muito tempo devido a doença ser contagiosa naquela época. Era tudo precário. Tudo rígido. Sai do educandário com a roupa do corpo. O meu pai não tive convivência. Ele saiu do hospital já curado e não teve condições de criar os filhos. Fui procurar a minha mãe na fase adulta. Ninguém teve culpa. Naquela época as coisas eram diferentes. O preconceito era grande. A dificuldade era absurda. Até hoje moto de aluguel e estou fazendo a minha vida. Agora tenho contato com minha mãe e consigo entender o motivo da nossa distância que tivemos na minha infância”.
Conforme o administrador do Hospital São Julião, Amilton Fernandes Alvarenga, 200 pessoas recebe o tratamento da hanseníase e não ficam isoladas. “ Qualquer pessoa que foi ao médico e descobriu a hanseníase e encaminhada ao hospital para fazer o tratamento com medicamentos durante um ano e não precisa de internação. O tratamento evita sequelas e traz a cura”.
Além do Hospital São Julião o Hospital Universitário também recebe pacientes com hanseníase.