Entrevistas

19/03/2018 15:27

No cuidado da saúde indígena, representante do próprio povo mostra ganhos e dificuldades

De acordo com o coordenador da instituição, a taxa de mortalidade infantil diminui de 32,04 para 16,09 em um ano

19/03/2018 às 15:27 | Atualizado Dany Nascimento
Dany Nascimento

Com objetivo de diminuir a taxa de mortalidade infantil nas aldeias e oferecer benefícios através da saúde básica, o DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) atua nas 78 aldeias, distribuídas em 30 municípios de Mato Grosso do Sul. Conforme o coordenador do DSEI-MS, Edmilson Canale, equipes formadas por enfermeiros, médicos, odontólogos, entre outros profissionais prestam atendimento dentro das aldeias.

O coordenador destaca a importância do atendimento dos psicólogos, já que a taxa de suicídio é alta entre a população indígena. “Principalmente na região Sul, onde temos um psicólogo em cada polo. Observamos há algum tempo que existe um alto índice de suicídio entre os indígenas, principalmente do Conesul para baixo, mais especifico da etnia Guarani-Kaiwoá”.

A taxa de mortalidade infantil, devido a falta de atenção básica para a população era uma das maiores preocupações de Edmilson, que assumiu a sede em MS em julho de 2016. “Era precária a situação, não tinha viaturas para fazer atendimentos, a taxa de mortalidade infantil naquele ano fechou em 32,04. Agora, fechamos o ano de 2017 com 16,09 e o objetivo para 2018, é fechar esse número abaixo de 10”.

Confira abaixo a entrevista completa:

TopMídiaNews: onde estão distribuídos os polos do DSEI?

Edmilson Canale: a população indígena do Estado é de 75 mil indígenas. Dentro do Estado temos diversos polos-base, que são unidades administrativas onde a equipe se reúne. Temos polos em Amambai, Antônio João, Aquidauana, Bodoquena, Bonito, Caarapó, Brasilândia, Corumbá, Dourados, Iguatemi, Miranda, Paranhos, Sidrolândia e Itacuru.

TopMídiaNews: cada polo atende quantos municípios?

Edmilson Canale: alguns polos atendem mais de um município, por exemplo, Iguatemi atende Eldorado, Japorã, Sete Quedas e também Iguatemi.  Amambai atende Aral Moreira, Amambai e Coronel Sapucaia.  Antônio João atende indígenas de Antônio João, Bela Vista e Ponta Porã.  Aquidauana atende Anastácio, Aquidauana e Nioaque. Bonito atende Porto Murtinho, Bonito e Guia Lopes da Laguna. Já Caarapó atende Juti, Caarapó e Laguna Caarapã.

TopMídiaNews: como é oferecido o atendimento para a população?

Edmilson Canale: trabalhamos com uma estrutura administrativa onde as equipes de saúde saem dos polos para fazer atendimento dentro da aldeia. A equipe é formada por médicos, dentistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem.

TopMídiaNews: o atendimento de psicólogo é oferecido em todas as regiões?

Edmilson Canale: alguns locais temos psicólogos, principalmente na região Sul, onde temos um psicólogo em cada polo. Observamos que há algum tempo que existe um alto índice de suicídio entre os indígenas, principalmente do Conesul para baixo, mais especifico da etnia Guarani-Kaiwoá. A questão da violência, seja ela doméstica ou sexual também é alta.

Colocamos psicólogos para ajudar na saúde mental. Existe questão e conflito cultural, mas não é apenas isso, eu observo como indígena na coordenação do DSEI, a ausência do poder público dentro de nossas aldeias. Com a falta do município aumenta a questão do suicídio.

TopMídiaNews: após o atendimento na saúde básica, o indígena é contemplado ao buscar atendimento na saúde município?

Edmilson Canale: em algumas situações, as pessoas que trabalham em hospitais falam que índio é com Sesai ou Funai, tentam não atender. Esse é um problema. Eles deveriam servir de retaguarda. Por exemplo, o exame de sangue eu tenho que recorrer ao município. Muitas dessas questões percebemos que estamos de mãos atadas, pessoas que trabalham falam que índio não é com eles.

TopMídiaNews: os municípios oferecem qualificação profissional para indígenas em MS?

Edmilson Canale: o município, através do assistente social, deveria ofertar isso para a população indígena, que não tem geração de renda, projeto de subsistência, então geralmente toda essa demanda relacionada a essa falta de ação dentro das aldeias culmina nos altos índices de alcoolismo. Não só nas aldeias como na cidade, as pessoas ficam mal, consomem álcool e se drogam como forma de fuga. Isso também entra na questão do choque cultural. É algo que tem que ser observado.

Quando o indígena procura emprego dentro da cidade, ele observa que fica à mercê da necessidade que ele tem, quem é que não quer ter um celular bom, uma bicicleta, uma casa boa? Geralmente nisso, observamos que os mais jovens estão no índice de suicídio, por falta de perspectiva de vida. Os guaranis acreditam que a vida na terra é um momento de passagem, período de sofrimento e acreditam que morrendo vão para um lugar melhor, daí tentamos através dos psicólogos para tentar evitar que isso ocorra.

TopMídiaNews: como estava o DSEI quando você assumiu como coordenador?

Edmilson Canale: antes não tinha viaturas, a equipe ficava dentro do polo-base e não conseguia deslocar para as aldeias. Minha primeira ação foi locar 42 viaturas, três unidades móveis que atendem onde não tem posto de saúde, na beira da rodovia, área de conflito. Contratamos viaturas para colocar equipe dentro da aldeia. Podemos citar como exemplo o polo de Amambai, que tem 13 mil indígenas, lá tem cinco viaturas para atender a região. Em Bonito, a população é de 661 pessoas, então fiz divisão com o número maior de indígenas. Licitamos e conseguimos alguns utensílios, que já estão sendo distribuídos nas aldeias. Agora equipe está mais presente dentro das aldeias. 

Quando cheguei tinha esse problema com medicamentos, conversamos com a equipe e elencamos 128 itens de medicamentos, o que eu posso comprar são 300 da lista Rename, mas entorno de 120 medicamentos eram necessários para atender o perfil das aldeias, fomos atendidos de imediato. Eu faço licitação, compro uma parte e outra parte Brasília compra. Eu compro com recurso que vem do governo. Vem trimestralmente o dinheiro, faço compra de medicamentos e divido o valor em parcelas, me organizo e vamos suprindo os problemas.

TopMídiaNews: qual é a realidade da taxa de mortalidade infantil da população indígena?

Edmilson Canale: Em 2016, a taxa fechou em  32,04. Agora, baixou para 16,09 a mortalidade infantil. Essa redução é muito importante, está começando a se organizar. Consegui benefícios em agosto do ano passado, quando completei um ano à frente do DSEI, começamos a adquirir. Estou fazendo reuniões com os polos-base, que tem chefia, um servidor que organiza parte administrativa e um enfermeiro que organiza toda a equipe, estou conversando com todos, coloquei a importância da redução e agradeci a eles.

Se começarem a chegar melhorias, um ano depois, fechamos dezembro com outra realidade porque o acompanhamento e a vigilância focaram na criança, na gestante, no idoso, no hipertenso.  Agora, para 2018, o objetivo é baixar isso para abaixo de 10, é algo audacioso, mas tenho equipe motivada, qualificada, tenho certeza que vamos baixar e será a melhor taxa desde 1999, quando começou a fazer o registro. Temos um total de 774 profissionais da saúde indígena, fizemos capacitação de mais de 600 deles no ano passado, de junho a dezembro.