Refugiado no Brasil desde julho de 2010, o juiz boliviano Luis Hernandes Tapia Pachi decidiu renunciar ao asilo político e retornará à Bolívia, onde diz vítima de perseguição. O caso ficou conhecido internacionalmente depois que Tapia passou a enfrentar Evo Morales, presidente boliviano, publicamente.
Ele era responsável pela investigação de um suposto complô da oposição para matar o presidente. Durante as investigações, a polícia boliviana invadiu um quarto de hotel e matou os três suspeitos. Tapia afirma que passou a ser perseguido por não aceitar a mudança de jurisdição do caso. Em entrevista ele conta como foi viver no Brasil e como imagina o retorno à Bolívia.
TopMídia News: Como foi a perseguição que sofreu pelo governo de Evo Morales na Bolívia?
Tapia: Em Santa Cruz de La Sierra o caso do “Hotel das Américas” [em que três opositores do governo Evo Morales foram assassinados por agentes da segurança pública da Bolívia] foi distribuído para mim em 2010. Ao iniciar as investigações fui surpreendido pelo pedido de transferência do processo para La Paz. Eu imediatamente me recusei a aceitar a transferência por questões legais, de cumprimento da lei e isso não agradou o governo. A partir daí Evo determinou a abertura de um inquérito contra mim, pedindo inclusive minha prisão. Ao mesmo tempo, iniciou-se uma perseguição a mim e a minha família. Meu filho foi alvo de tentativa de sequestro, minha mulher e eu sofremos atentados e por pouco não morri. Comecei a denunciar essa perseguição pela imprensa e com isso conquistei um inimigo poderoso que é o Evo Morales. Na época, o caso teve repercussão internacional e a única saída foi deixar o país.
Porque escolheu o Brasil para encaminhar seu pedido de asilo político e como foram os cinco anos em que viveu aqui?
Trabalhei muitos anos na fronteira entre o Brasil e a Bolívia e por aqui fiz muitos amigos; vários advogados e profissionais da Lei aqui da região me prestaram solidariedade e por isso foi natural pedir refúgio ao Brasil. Principalmente porque aqui vocês possuem respeito à constituição e ao estado de direito, isso é reconhecido e foi fundamental para meu pedido.
Depois de cinco anos o senhor renunciou ao refúgio e retornará à Bolívia. Como foi tomada essa decisão?
Eu decidi de minha livre e espontânea vontade pelo retorno. Não tenho qualquer responsabilidade com o governo, com o presidente ou com qualquer coisa. Tenho compromisso com minha família e meus amigos. Não cometi nenhum delito, não fiz nada de errado, apenas lutei pelo cumprimento da lei. Não há o que temer. Recentemente Evo Morales disse à imprensa que não há qualquer inquérito contra mim. Espero que ele cumpra o que ele disse. Não sou delinquente, não sou corrupto, não pertenço a qualquer organização, por isso tomei a decisão de voltar para a Bolívia.

(Refugiado, Tapia prepara retorno à Bolívia / foto: Geovanni Gomes)
Não teme sofrer como novas perseguições e ameaças nesse retorno?
A qualquer momento eles vão voltar com as perseguições, mas eu não vou sair. Vou ficar e lutar. Não há o que possam fazer para me tirar novamente do meu país. Não espero que seja fácil, pelo contrário, mas vou resistir. Espero que quando se restabelecer o Estado de Direito no meu país eu possa agradecer e retribuir o que o Brasil fez por mim. Mas meu lugar sempre foi lá. Meu povo, minha pátria. Sempre estive a serviço da Lei, da Justiça e não posso viver afastado disso mais.
Qual é a situação da Bolívia sobre o comando de Evo Morales?
É uma falsa democracia. Assim como ele me perseguiu, ele persegue muitas outras pessoas. Muita gente está fora da Bolívia. A mando dele são abertos inquéritos e mentiras são inventadas sobre qualquer pessoa que se oponha ao que ele faz. Não temos Justiça, nossa população vive com medo, acuada, sem dizer nada. Desde que assumiu, Evo fez questão de desarranjar o nosso judiciário. Todos os magistrados que atuavam independente dele, a favor da legalidade, foram retirados. Agora nossa justiça trabalha exclusivamente a favor dele e sobre a influência dele.
Como retomará sua vida no seu país, espera reaver o direto a exercer sua profissão?
Este é o meu objetivo. Estou juntando meus comprovantes e certificados de cursos para retornar à Bolívia e poder atuar como advogado. Depois de 14 anos como juiz vou voltar ao começo e tentar advogar. Estou confiante de que será um novo recomeço e espero que possa viver em paz na minha pátria com a minha família.




