Em meio a um embate com o governador Reinaldo Azambuja (PSDB), o presidente da Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul), Roberto Magno Botareli, afirma que investir em educação significa menos preocupação com presídios.
À frente das negociações da categoria e da luta por melhoras estruturais para a educação, Botareli garante que a melhoria do setor significa melhorar a formação de cidadãos ativos na sociedades atual.
A equipe do Top Mídia News conversou com Botareli e, durante a entrevista, ficou clara a opinião dele em relação às últimas declarações e decisões do governador Reinaldo Azambuja, sobre o papel da educação e sobre os problemas nas escolas de todo o Estado, além do ensino nas graduações.
TopMídia News: qual é a situação de trabalho dos educadores atualmente?
Roberto Botarelli: Hoje o professor tem uma sobrecarga de trabalho muito intensa, mesmo a gente conseguido uma Lei Federal para a diminuição da carga horária do professor na sala de aula, esse tempo ainda é insuficiente. Em uma jornada de 28 horas aulas ele teria aproximadamente 14 turmas com 40 alunos. Trabalhos, provas e planejamentos são feitos 14 vezes. Por isso muitos profissionais caem na doença do século, que é a depressão. Fora a tecnologia que ainda não chegou nas salas de aulas, ainda temos que dar aula com lousa e giz, então temos muito que avançar na educação.
E a questão da violência na escola? Como está o relacionamento do aluno com o professor?
Temos que ter clareza em uma coisa: a violência não está dentro da escola, ela vem de fora para dentro das salas. Ou são problemas com drogas, ou envolvimento com gangues. São grupos de jovens que criam as diferenças lá fora e acabam trazendo para dentro da escola. Esse é um tema muito complicado que se necessita de uma politica do governo e que a sociedade precisa discutir. Uma das alternativas são as escolas em tempo integral, onde o aluno não fica um período do dia ocioso.
Mas com esses problemas de estrutura, teríamos condições de ter escolas em período integral?
Nós aprovamos o Plano Nacional da Educação, onde até 2024 deve ser investido 10% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional na educação; no ano passado foi cerca de 6%. Então o nosso objetivo é investir um dinheiro novo. A partir daí é política de governo, pois não adianta, em época de campanha, o candidato falar que vai resolver e salvar a educação, mas chegar ao governo e não tratar a educação como deveria ser tratada. Não existe uma escola pública de qualidade se não tiver um profissional valorizado. Já em um país que tem educação de qualidade, o governo vai se preocupar menos com construção de presídios.

Foto: Geovanni Gomes
Quando você acha que realmente vai ser aplicado o piso salarial aqui no Mato Grosso do Sul?
Eu espero que até 2018, porque é o que está na Lei, mas o Governo está descumprindo. No começo do ano ele pagou 13%, mas falta 10%. O piso hoje é R$ 1,917. Aqui os professores recebem, no início de carreira, R$ 1,331, ou seja, quase R$ 600 de diferença.
O governador Reinaldo Azambuja (PSDB) declarou algumas vezes que a greve dos professores é uma “manobra política” da oposição. Qual a sua opinião sobre isso?
Acho que o governador tem boca e ele pode falar o que quiser, vou respeitar. Agora o que queremos é apenas o cumprimento da Lei, pois se tem alguém que está descumprindo alguma coisa não é a Fetems. Esse negócio de querer politizar o nosso movimento eu acho que é um equívoco, até porque boa parte são eleitores dele. Acho um desrespeito com o professor e com o funcionário administrativo que depositou o voto em outubro, acreditando que ele seria diferente.
Então, quem quer politizar um debate para descredenciar as lideranças sindicais do Estado é o Governo. Ele instituiu esse ano a Lei de vistoria veicular e quem tem carro acima de cinco anos tem que pagar, por que o que ele é obrigado a pagar ele não vai cumprir? Não existe politização, temos tomado o máximo de cuidado para que isso não ocorra. A decisão não foi do Roberto, da Fetems, a decisão foi da categoria, mais de 12 mil trabalhares.
Na época em que foram discutidsa essas mudanças nem havia a possibilidade de Azambuja ser governador, então não foi uma “bomba” deixada pela gestão anterior?
Essa discussão foi em 2013, quando, naquele momento, o governador do Estado seria outro candidato, o atual nem falava em ser candidato. Então querer dizer que se deixou uma armadilha para ele resolver é conversa para não cumprir o que determina a Lei.
Agora, falando dos futuros educadores: o que você acha das novas restrições para adesão do Fies?
Todo governo precisa de políticas, então nós temos que avaliar: essas politicas estão voltadas para quem realmente precisa ou para quem tem condições de pagar e quer financiar? Quem tem condições de pagar uma faculdade particular estudou em melhores escolas, quando ingressam na faculdade procuram o financiamento, mas o governo colocou regras e vai priorizar quem realmente precisa e isso é correto.
O ideal seria o Governo Federal conseguir financiar para todos, sem distinção, só que no momento estão fazendo alguns cortes, então vamos respeitar, pois quem tem menor condições de renda deve ter oportunidade de cursar uma faculdade. Até porque, a maioria das vagas ocupadas em uma universidade pública são de alunos que estudaram em escolas particulares, aí o aluno de escola pública fica impedido de ir para esta universidade.
E sobre as cotas, o que o senhor acha desta medida?
Eu acho justo! Acredito que o Brasil tem uma dívida com os negros e com os indígenas, pois esses dois seguimentos construíram o país e hoje as pesquisas mostram que a mulher e o negro recebem bem menos que o branco, então essa dívida é social. Também acho que o filho do pedreiro, do carpinteiro têm que ter a oportunidade de ser médico. Por que nesse país só o filho da classe alta pode ser médico? Advogado?
Acho que o Brasil foi “feito para todos”, então as cotas vem garantir exatamente isso, dar oportunidade para aquele trabalhador, que luta diariamente para manter sua família, ver o seu filho se tornar um doutor. Essa cota vem compensar a injustiça que ocorreu durante os últimos anos. Claro que não pode ser definitiva, para sempre, mas neste momento temos que respeitar quem construiu o Brasil.




