Confira a segunda parte da entrevista com uma das pioneiras da cultura em Mato Grosso do Sul - Idara Duncan
TopMídia News - Professora Idara, na sua opinião, qual é a correlação entre política e produção cultural? Uma depende da outra?
Idara Duncan - Mudam os dirigentes, muda o governo. Naturalmente quando muda, é normal que venham pessoas ligadas ao partido da situação. E na cultura, tem pessoas de todos os partidos de todas as áreas e como é abrangente, costuma trabalhar com pessoas e valorizá-las indiscriminadamente. Os que fazem a cultura, os que praticam e pesquisam, independem de partido político. É importante que seja assim, pois todos fazem cultura. É sem dúvida, a pasta mais importante porque é ela que nos define como pessoas, pois a nossa cultura é nossa identidade. Não se pode deixar de expor uma obra maravilhosa porque o artista é do partido A, B ou C. Isso extrapola, a cultura vai além.
TopMídia News - Acerca da produção cultural, qual é a sua avaliação do período em que esteve à frente da Secretaria de Cultura do Estado no governo de Wilson Barbosa Martins?
Idara Duncan - Ela foi de uma entrega total. Os artistas todos se dedicavam ao máximo, participavam mesmo. Tínhamos salões, exposições. Eu mesma criei dois festivais porque a nossa realidade é diferenciada do país. Nós somos centro da América do Sul, somos centro do Brasil, centro e não Centro-Oeste.
Nós temos influências de outros povos. Somos riquíssimos, não somos isolados. Temos toda uma gama de influências e nós influenciamos também. Então eu criei o Festival de Música do Mercosul e o Festival Latino-Americano de Arte e Cultura em Corumbá. Foram três edições que, inclusive, têm vídeos, cds, e depois veio o Festival América do Sul que é maior e possui mais recursos.
TopMídia News - O Festival América do Sul foi, então, um subproduto daquele que a senhora criou anteriormente?
Idara Duncan - Não, o Festival América do Sul foi um super produto do festival que eu criei. Ele aumentou a abrangência, no sentido de recursos, espaço e divulgação, além de contar com pessoas de mais renome.
No terceiro Festival do Mercosul, o último que fizemos, em 1998, eu consegui contato com Mercedes Sosa para que ela viesse.
Mas ela emagreceu 30kg e teve muitos problemas de saúde. Então ela teve que reduzir à metade o tempo dos shows, portanto, não deu certo. Mas a atração que eu trouxe de última hora, foi Helena Meirelles que nunca tinha se apresentado nesse estado.
Foi a primeira vez que ela se apresentou no Palácio Popular da Cultura e foi aplaudida de pé. E a minha vida tem muitas coincidências engraçadas. Cinco anos depois, eu fui a Bonito com duas amigas e me hospedei num hotel simples, e vi Helena Meirelles cantando um baile na gravação de um filme para um cineasta do Rio de Janeiro.
Ela me viu e fez uma festa. Me convidou para dar um depoimento no filme sobre a primeira vez que ela se apresentou aqui em Mato Grosso do Sul, oficialmente representando a música do estado dela. Só que tinha encerrado a última cena do filme, que era a desse baile. O produtor do documentário me chamou para dar um depoimento sobre esse momento, só que eu tinha que aceitar sentar num banquinho na grama com um holofote no rosto. Estava só de camiseta. Pensei, tudo bem, guerra é guerra, Helena merece!
Dei esse depoimento à noite e me convidaram na pré-estréia no Cine Odeon, no Rio de Janeiro. Fiquei lisonjeada, mas não pude ir.
TopMídia News – E como a senhora descobriu a Helena?
Idara Duncan - Eu pedi para que ela viesse de São Paulo para cá. Eu li numa revista que ela tinha sido eleita, nos Estados Unidos, uma das melhores violeiras do mundo. Eu pensei: vamos trazer quem é daqui, da nossa gente!
O Palácio lotou com o sucesso de Helena Meirelles. Ela arrebatou a população. Ela veio de avião e pediu uma van e adorou. Às 6h da manhã, no dia que ela iria embarcar de volta para São Paulo me disse assim: "mas como, eu não quero ir de avião, eu quero ir de van!"
Para contratar uma van, deve ter licitação, sabe como é o serviço público. Mas eu disse, vá, tem comida também dentro! (Risos). Então, a cultura é assim. Quando você entra, entra de corpo e alma. Não há empecilhos.
TopMídia News – Jorapimo é um dos grandes nomes das artes plásticas no estado. O que a senhora tem a falar sobre ele?
Idara Duncan - Meu grande amigo! Eu tenho dois quadros dele. No fim da vida dele, como é o caso da maioria dos artistas, ele estava numa situação difícil e eu abri uma sala na Casa do Artesão para fazer o ateliê dele. Tem como dizer não? Não tem. Ele ficou lá até morrer, em 2009. Quem ia até a Casa do Artesão comprar qualquer coisa, tinha acesso a um dos maiores artistas plásticos do estado.

Isso para nós era importante. Esse retorno não é em projeto que se mede, mas o retorno é a obra cultural, o legado de MS, além da divulgação da importância desse artista premiado.
A gente acaba fazendo amigos, acima de tudo, não só existe a relação institucional. A cultura tem um lado emocional muito grande. Você acredita e vai fundo. Nessa época, eu já não estava mais na Secretaria de Cultura. Estava no Conselho de Educação.
TopMídia News - Hoje a senhora ainda participa do movimento cultural?
Idara Duncan - Mais ou menos. Vou te mostrar uma coisa. Houve uma exposição esse ano na sede da ONU [Organização das Nações Unidas] mostrando o artesanato de Mato Grosso do Sul. E o curador Jonir Figueiredo ajudou a organizá-la. E ele me trouxe o que foi oferecido aos embaixadores que foram lá em Nova Iorque.
Ele me presenteou e isso para mim é um troféu!

A nossa arte está explodindo. O trabalho importante não é aquele que vem de repente. É aquele que vai galgando degraus, de forma séria, com muita pesquisa.




