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Entrevistas

21/08/2014 08:00

Idara Duncan – história e amor pela cultura de Mato Grosso do Sul

Entrevista

Ao falar da cultura de Mato Grosso do Sul, os olhos da professora Idara Duncan ganham luminosidade sem precedentes. É um dos ícones do movimento cultural – ainda nos primórdios - diga-se de passagem. Dotada de grande sensibilidade, voz calma e belo semblante, aos 74 anos, a professora formada em Letras foi Presidente da Fundação de Cultura do Estado de MS entre 1985 e 1987 e Secretária de Estado de Cultura e Esportes de 1995 a 1998. Também idealizou os Festivais de Música do Mercosul assim como os Festivais de Arte e Cultura Latino-Americana em Corumbá – embrião do que viria a se tornar o atual Festival América do Sul.


Idara criou o Museu da Imagem e do Som (MIS) de MS e a Lei Estadual de Incentivos Fiscais à Cultura, além de integrar o Instituto Histórico e Geográfico do Estado. Nessa entrevista, uma das grandes mantenedoras da cultura do estado fala sobre aspectos importantes da evolução dessa área. Veja a primeira parte da entrevista:

TopMídia News - Como foi a vinda do Rio de Janeiro para Mato Grosso do Sul?

Idara Duncan - Foi em 1961 quando meu marido veio transferido para cá. Eu vim para ficar dois anos aqui juntamente com os nossos dois filhos e culminou em 53 anos de vida aqui, com seis filhos, quinze netos e uma bisneta! Tem gente que não gosta de falar isso, mas eu acho maravilhoso ter uma bisneta.


TopMídia News - A senhora é uma das pioneiras no trabalho com a área cultural do estado. Como foi a sua entrada neste universo aqui?

Idara Duncan - Eu sempre tive uma sensibilidade muito grande com o mundo da cultura no Rio. Frequentava exposições, lançamentos de livros, teatro, cinema, dança, de tudo. Quando cheguei aqui aos 21 anos, eu adorei, porque aqui era um lugar paradisíaco, ainda com criança pequena, era muito bom. Mas eu sentia muita falta de algumas coisas – entre elas, cultura. Tinha três cinemas, felizmente: o Alhambra, o Rialto e o Santa Helena. Mas, teatro era raríssimo. Já havia música regional, mas era pouco divulgada. Já na década de 60, as artes plásticas tiveram uma divulgação um pouquinho melhor com Humberto Espíndola.


Idara Duncan. Foto: Geovanni Gomes

Extinto cinema Alhambra. Foto: Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro/Marinete Pinheiro


E através da Universidade Federal, com os seus festivais de música e teatro que a professora Maria da Glória promovia, essa área foi se desenvolvendo. Porém, o Governo de Mato Grosso ficava muito distante, não vinha praticamente nada de verba e incentivo para cá.


Nós ficamos na área da cultura e nos ressentimos muito da falta de apoio. E quando houve a divisão [do estado] terminei o curso de Letras e a minha professora, a grande incentivadora da cultura, Maria da Glória Sá Rosa, me convidou a participar da Fundação de Cultura recém-criada no estado, em 1979. Montou-se uma equipe com ex-alunos e ela me chamou – tratava-se de pessoas sensíveis à cultura aqui em MS.


Era uma equipe multidisciplinar com seis integrantes para verificar o que era possível de se fazer, haja vista que não existia muitas referências e incentivo praticamente zero. A busca da nossa identidade cultural era o nosso grande desafio. A questão era: Não somos mais Mato Grosso, somos Mato Grosso do Sul. Quem somos nós?


Idara Duncan. Foto: Geovanni Gomes


TopMídia News - E essa questão já tem a resposta?

Idara Duncan - Aos poucos sim, pois a questão demanda tempo, há de se trabalhar a longo prazo.


TopMídia News - Hoje, muitos reclamam que o movimento cultural ainda é fraco em Mato Grosso do Sul. Em comparação a 1979 – quando da divisão do estado – como era esse cenário?


Idara Duncan - Era quase inexistente, até porque não se pode negar a sua existência. Mas não havia recursos para poder agilizar qualquer área da cultura em qualquer situação. Nós éramos pioneiros neste estado que era novo e a cultura, historicamente, não recebe muitos recursos. Naquela época, havia pouquíssimos recursos humanos e financeiros. Mas nós fomos provocando a necessidade de se criar mais espaços e ampliar o quadro de pessoas.


TopMídia News - E depois dessa fase de implantação?

Idara Duncan - Eu trabalhei dentro da fundação até 2000. Nesse período, nos dois governos do Dr. Wilson Barbosa Martins, eu tive a responsabilidade de dirigir, primeiro a Fundação de Cultura, sucedendo José Octávio Guizzo que era um grande pesquisador de MS e que também trabalhava na parte de assessoria da fundação toda – eram três áreas no total – cultura, esporte e promoção social.


Foi no governo do Dr. Wilson que instituiu-se a fundação apenas para a cultura. José Octávio Guizzo era assessor jurídico e assumiu a Fundação de Cultura no começo do seu primeiro governo eu o sucedi dois anos depois.


TopMídia News - Como foi assumir a Fundação de Cultura do Estado naquela época?

Idara Duncan - Para mim foi automático, pois eu já estava lá dentro e participava ativamente. Nesses dois momentos, a professora Maria da Glória esteve ao meu lado e o organismo da cultura e sua importância foi crescendo e tomando corpo. Nesse período, eu fui vice-presidente do Fórum Nacional de Cultura que representava todos os estados, inclusive Ariano Suassuna era secretário. Eu senti muito sua morte. Era uma pessoa especialíssima e interessantíssima. O discurso do Ariano era uma aula.


Aqui a cultura foi um trabalho de pesquisa, busca e as coisas foram acontecendo. Tínhamos que identificar o que era a nossa cultura nos mais diversos níveis. Contamos com o apoio de várias pessoas que ajudaram e se interessaram – artistas, pesquisadores, historiadores – todos foram muito importantes nesse processo.


Idara Duncan. Foto: Geovanni Gomes


Havia o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul que foi criado antes da divisão do estado, mas era uma instituição mais de pesquisa e hoje em dia eu também pertenço ao instituto - o que ajudou bastante nesse processo de consolidação cultural nessa época.


Escrevi três livros sobre música, artes plásticas e outro compondo 5 áreas da cultura. Há alguns livros editados pela Universidade Federal de MS em que escrevi capítulos também sobre cinema que também, através da pesquisa, me ajudou a entender a dimensão dos nossos aspectos culturais.


Consegui ainda no fim do governo do Dr. Wilson Barsosa Martins criar o Museu da Imagem e do Som aqui em Campo Grande. Só mesmo um museu para poder resgatar tudo e conservar a nossa memória. Isso foi em 1998. Ele deu muito apoio à cultura, não só ele bem como a sua esposa, a dona Nelly Martins – uma grande artista plástica do estado e que se empenhou em tudo o que dizia respeito à cultura, inclusive na criação do Centro Cultural José Octávio Guizzo que era uma instituição onde se mantinha um fórum que possuía mil solicitações. O movimento cultural se articulou e ela [dona Nelly] foi importante para que existisse um local em que as atividades fossem realizadas.


TopMídia News - O estado de saúde de Wilson Barbosa Martins é delicado neste momento. Para quem não o conhece ou conhecia na época em que foi governador de MS, o que a senhora tem a falar a respeito dele e como foi o convite feito por ele para que a senhora assumisse a Fundação de Cultura do Estado?

Idara Duncan - Dr. Wilson foi um grande estadista. Um homem que batalhou, foi cassado na época da revolução, lutou pela liberdade de expressão do povo e ocupou todos os cargos públicos que um homem poderia querer – tanto aqui, como prefeito, quanto lá [Brasília] como deputado, senador, voltou e foi eleito governador. Então o convite que ele me fez para substituir meu chefe e meu grande amigo, José Octávio Guizzo, foi uma honra muito grande, mas eu pedi um tempo para pensar, pois a responsabilidade muito grande. 


Aceitei, me desdobrei e minha família também pagou o preço, mas o convite foi irrecusável. Nos relatórios em que guardo, no último ano da fundação fui a mais de 200 eventos. Apesar do intenso trabalho, foi um período muito gratificante para mim.



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