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Entrevistas

10/09/2014 06:00

Márcio Widal diz que situação nos presídios de MS é alarmante

Entrevistas

Márcio Widal é o relator do documento com 135 páginas divulgado no final do mês passado (28) pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso do Sul. Nele, constam informações, dados e fotografias da realidade existente dentro dos principais presídios do estado.


O objetivo de punir e ressocializar os detentos torna-se inexistente diante do esfacelamento da dignidade e da própria identidade dos internos. A “máquina que incita ainda mais o ódio” foi atestada pela Comissão Provisória do Sistema Carcerário de MS que deve continuar a cobrar do Estado o cumprimento da LEP – Lei de Execução Penal. Veja a primeira parte da entrevista:

TopMídia News – Como foi a decisão da OAB/MS de criar a Comissão Provisória, a priori? Foi por meio de denúncias a respeito das condições do sistema carcerário vigente?

Márcio Widal – Na realidade, o caos do sistema carcerário brasileiro não é segredo para ninguém e nem é algo novo. Diante dos últimos acontecimentos que se deu no início do ano, em janeiro, no presídio de Pedrinhas, no Norte do país acabou dando origem a uma ação nacional da OAB, encabeçada pelo Conselho Federal da Ordem, no sentido de fazer uma atualização dos dados referentes aos presídios brasileiros.


Márcio Widal. Foto: Arquivo/ALMS

Após chacina no presídio de Pedrinhas - MA, o incidente chamou a atenção de instituições como a OAB Nacional. Armas apreendidas dentro da penitenciária. Foto: Veja


Então sob essa política institucional, a Diretoria da OAB/MS resolveu constituir uma comissão nossa – regional, aqui da seccional. Essa comissão teve como objetivo fazer um mapeamento da situação carcerária do nosso estado especialmente nos presídios onde o status de superlotação já era de conhecimento e com o resultado disso, encaminhar o relatório para o próprio Conselho Federal para que pudesse ser englobado em alguma ação de nível nacional e, além disso, nós também encaminhamos para as autoridades, no caso, para os Poderes Públicos Estaduais e algumas esferas Federais com a intenção de mostrar o que já se conhece – a realidade a atual, que é o sistema carcerário.


TopMídia News – Entrando no mérito do Governo, sabe-se que ele é o responsável pela manutenção da Segurança Pública. Houve um comparativo entre governos no que tange às situações anteriores ou só em relação ao quadro vigente?

Márcio Widal – O trabalho não teve o objeto de comparar as gestões do Governo do Estado. O objeto foi realmente fazer um raio-x do atual contexto até porque nós já tínhamos números anteriores, inclusive no relatório consta, por exemplo, um gráfico com a evolução da população carcerária e o intuito foi realmente o de atestar se houve uma melhora ou uma progressão negativa do quadro grave do sistema carcerário.


Por exemplo, na questão da superlotação objetivamente ficou demonstrado como a situação é recorrente – a população carcerária vem aumentando, não na mesma proporção dos investimentos concretos feitos no sistema carcerário.


Então sobre a questão de aumento de vagas – há um déficit muito grande. O governo anunciou que existem obras em andamento e até o nosso trabalho pode desencadear ou acompanhar as vagas que podem ser incluídas ou não no sistema.


“Hoje, o Estado está invertendo o papel. Para punir, ele transgride a norma.”


TopMídia News – Com relação às visitas, quais presídios do estado foram vistoriados pela Comissão da OAB?

Márcio Widal – Nós visitamos os presídios de Campo Grande, Dourados, Ponta Porã, Naviraí, Coxim, Dois Irmãos do Buriti, Corumbá e Três lagoas – trata-se dos presídios em que já existiam números demonstrando que o status de superlotação era muito superior, muito grave. Como nós não tínhamos muito tempo, elegemos esses para a própria comissão fazer a vistoria direta.


São os mais urgentes e estão em estado de gravidade muito avançado em relação aos demais. Para as outras unidades prisionais, solicitamos números para a AGEPEN [Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário] e eles foram concedidos.


O nosso relatório é global. Ele compreende o sistema carcerário estadual integral. Mas as visitas técnicas que resultaram nas fotos que estão anexadas no relatório dizem respeito a esses presídios eleitos.


TopMídia News – Além da superlotação, o que a Comissão viu dentro dos presídios que seja mais urgente ou mesmo absurdo?

Márcio Widal – A conclusão que nós chegamos é de que o estado não cumpre a Lei de Execução Penal, que é o problema mais grave. Talvez, por ser o fundamental para que se tenha um primeiro passo para resolver o caos do sistema, seria reavaliar a questão estrutural – mas não é só isso. É a questão de saúde, proporcionar o ensino, condições de trabalho para todos, além da questão de assistência jurídica e assistência social.


O quadro é alarmante. O Estado cumpre pouquíssimos dispositivos da Lei. Hoje, o Estado está invertendo o papel. Para punir, ele transgride a norma. Acontece no final do procedimento uma inversão de papéis. No sistema carcerário, ele passa a ser o agressor, o ofensor da Lei. Essa é uma situação gravíssima.


A Lei de Execução Penal foi criada em 1984 e até hoje não se tem o cumprimento efetivo dela. É uma situação que já passou dos limites do sustentável há muito tempo. Nós não podemos nem falar que existe uma crise no sistema carcerário. Não existe crise.  É um sistema deficitário e mal estruturado. É a situação normal, pois a crise ocorre quando há uma situação anormal.


O problema não é conjuntural, é estrutural, ou seja, o estado de ser. Essa inércia do Estado e a falta de cumprimento da LEP é o próprio sistema carcerário nacional – o que reflete também no nosso estado.


TopMídia News – Em relação aos outros presídios nos demais estados da Federação, houve um comparativo com a situação carcerária de MS?

Márcio Widal – Não, essa segunda etapa seria com o Conselho Federal mesmo. Ele tem uma Comissão Nacional do Sistema Carcerário e foi feita também com esse objetivo. O nosso relatório será acrescentado, somado às informações que o Conselho Federal tem de alguns estados já para poder fazer uma avaliação nacional.


Márcio Widal. Foto: Arquivo/ALMS

Imagem que consta no relatório da OAB mostra condições insalubres de vida no Estabelecimento Penal Feminino Irmã Irma Zorzi - MS. Foto: Wandir Filiú


TopMídia News - Recentemente, a Globo News apresentou uma reportagem nacional mostrando o uso indiscriminado de celulares dentro do presídio de Ponta Porã – região de fronteira o estado. O que o relatório da OAB/MS apontou sobre esse presídio, especificamente?

Márcio Widal – Hoje, as condições atuais do sistema carcerário acabam incitando a reincidência – isso é um fato. Além de promover a violência interna é fato também que o Estado não consegue controlar os próprios detentos, bloqueando a comunicação externa. Um fator contribuinte com certeza é a falta de agentes penitenciários.


Nosso relatório demonstra que existe um déficit muito grande de agentes penitenciários em MS e Ponta Porã também se encontra dentro dessa realidade. Nós não temos agentes penitenciários suficientes para poder garantir o controle ideal dentro do sistema carcerário.


Márcio Widal. Foto: Arquivo/ALMS

Márcio Widal, relator da Comissão, juntamente com o presidente da OAB/MS, Julio César Souza Rodrigues em visita a presídio do estado. Foto: Wandir Filiú


Em Ponta Porã, isso é um reflexo que acontece – tanto a falta de estrutura quanto a de agentes penitenciários são fatores que colaboram para que o Estado não consiga fazer um controle eficiente dentro dos próprios muros das unidades prisionais e isso acontece na fronteira, bem como acontece em outros presídios também.

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