Na segunda matéria da série “Cada barraco, uma história – a vida na Cidade de Deus”, a favela é mostrada pela vivência das mulheres. Com toda a sua diversidade, são elas, na maioria das vezes, que “seguram as pontas” e administram toda a vida de suas famílias.
Era uma noite comum para Carolina da Conceição. Como nas outras, ela estava com os quatro filhos, Ingrid de 17 anos, Ronald de 15, Stefani de 9 e Gabriel de 3, além do neto, filho de Ingrid, um bebê de três meses. O marido estava fora, como de costume, já que trabalha fabricando móveis de Pallete e só vem aos finais de semana.
Carolina estava preocupada, afinal o dinheiro estava acabando, e ela tem que sustentar os cinco. De dia, as coisas são mais fáceis. A família toda ali, nos barracos vizinhos. A mãe, dona Madalena, o irmão, o pai. Mas a noite, certas noites, a angústia vem.
Um vento forte anunciava que a tempestade chegara. As paredes de madeira e lona balançavam, e a entrada do ar nas frestas do teto fazia um barulho que deixava Ronald nervoso. “O barraco vai cair, mãe, o barraco vai cair”. Ronald tem autismo. É uma criança metódica, muito preocupada com a limpeza, ansioso, extremamente inteligente e sensível.
Quando a tempestade começa, Carolina engole a angústia e a preocupação. Coloca o bebê em um braço, o pequeno Gabriel em outro, acalma Ronald, e distrai a família até que a tempestade passe. Quando todos dormem é que ela desabafa, sozinha.
“Tem que olhar se vai entrar água pra dentro do barraco, embaixo. Já cato uma pá de ponta e saio cavando em volta do barraco de noite, com chuva, e já aterro tudo as lonas pra não entrar água. Se arrebenta a lona lá em cima, pois eu subo na mesa, debaixo de tempestade e tampo. ‘Pronto meu filho’. Volto sorrindo, pra encorajar eles”.

Carolina, uma das guerreiras da comunidade (foto: Geovanni Gomes)
Cláudia Morais tem 30 anos e três filhas. Beatriz de 12, Cibele de 11 e Isabela de 6. Ela e o marido tinham uma vida comum. Os dois trabalhavam em uma fábrica de mandioca, no Jardim Tijuca, onde moravam antes. A vida era tranquila. Claudia trabalhava e cuidava das filhas, que não lhe davam muito trabalho. Quando Isabela nasceu, tudo mudou.
Isabela teve paralisia cerebral aos sete meses de vida. Cláudia teve que sair do emprego pra cuidar da pequena, que demanda cuidados especiais. As coisas ficaram “apertadas”. Só com o salário do marido, não davam conta do aluguel e do resto das despesas. Claudia foi bater na porta da Emha (Agência Municipal de Habitação de Campo Grande). Foi saber se poderia conseguir uma moradia, já que a filha tem problemas, precisa de cuidados. Pedido negado. Então, Cidade de Deus.
É de manhã bem cedo que ela acorda. O marido é servente e vai para o trabalho. A casa de Claudia é muito arrumada e limpinha. Tem muita planta enfeitando o quintal. De manhã ela prepara o almoço, e deixa tudo pronto. As duas mais velhas vão pra escola. É aí que a luta começa. Isabela frequenta a APAE (A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) duas vezes por semana. Claudia pega o ônibus, quantos forem precisos e vai. Toda a semana a rotina se repete.
“É complicado né, mas tem que esperar. Eu já fui na Emha, já levei o laudo dela já tudo, né. Aí eles fala que tem que esperar, porque tem várias pessoas especiais também né. Então, o atendimento dela é na Apae, médico essas coisa é na Apae. O nosso é lá onde que eu morava, que eu não transferi pra cá, pro postinho. Deixei pra lá mesmo, porque o posto aqui é difícil...”
É quarta-feira e Simone se despede do marido. Ele é caminhoneiro e vai pra Corumbá. Na casa, ela fica com os cinco filhos até ele voltar, no final de semana. Todos os dias, ela os leva pra escola no Parque Lajeado. No caminho, se dá conta de que já faz um ano que mora na Cidade de Deus. Parece que foi ontem que ela e o atual marido trabalhavam em um frigorífico.
Simone tem cinco filhos. William de 18, Lucas de 16, Elson de 14, Amanda de 13 e Samuel de 7. Quando foi despedida do frigorífico, estava grávida. Ela e o marido foram demitidos. Simone o conheceu quando já era mãe de quatro filhos, e aí veio Samuel.
Carolina é uma equilibrista. Equilibra os problemas, os filhos e as demandas de Ronald. Ela faz tudo isso sem que eles percebam sua preocupação. “Olhar eles... Isso aí que me dá força, só olhando eles que me dá força. Tem hora que me dá vontade de desanimar. Que nem amanhã ele (Ronald) vai almoçar e não tem carne. ‘Mãe, eu quero carne’. Eu tenho sempre que... Às vezes eu disfarço e não como, dou pra eles. Como arroz e feijão, uma salada, e deixo a carne pra eles”.
O que essas três mulheres tem em comum, além da sobrevivência diária na favela, é a luta e a sororidade. Sororidade é uma palavra que elas, aliás, talvez nem conheçam. Cujo significado é a coletividade altruísta das mulheres, feita a partir da experiência. Pode ser encontrada em qualquer espaço. A sororidade na Cidade de Deus é um pacto invisível.
É o “bom dia, como estão as crianças?” de manhã, enquanto a fumaça sai do café. É o compartilhar de um arroz ou de um feijão quando estes acabam. É emprestar o carro ou fornecer a gasolina quando alguém fica doente. Mas é, principalmente, e isso só pode ser compreendido por elas: não precisar dizer nada e mesmo assim, entenderem-se mutuamente. É enraizar o sentido coletivo do cuidar.
“Uma ajuda a outra. Se chamar ‘me ajuda aqui vizinha, meu neném...’, 'não eu tenho carro aqui, você me dá o dinheiro da gasolina'. Que nem, tem uma aqui, essa aí da esquina que eu vou te falar, uma guerreira. A que ela cria, especial, é neta, que a filha não quis. Entendeu? E uma ajuda a outra”. É a sororidade de Carolina.
Ver os companheiros, muitas vezes, só no final de semana, e olhe lá. Cuidar dos filhos, da casa, da luta pra conseguir atendimento na saúde e manter o barraco de pé. Administrar o pouco de dinheiro que entra toda semana, e como verdadeiras profissionais, fazer durar e dar conta de todas as despesas.
E, além de tudo isso, olhar no espelho de vez em quando e lembrar que é uma pessoa, um indivíduo. Com as próprias necessidades e as próprias vontades.
Assim é a vida de algumas guerreiras da Cidade de Deus.




