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26/06/2015 08:07

Na Cidade de Deus, preconceito e burocracia travam sonhado emprego

Aquele dia não era pra tristeza. Já havia um tempo que o marido de Carolina estava fazendo um curso de motorista para o mercado Atacadão. Tinha passado em todos os procedimentos, o negócio era certo. O sentimento era de esperança.

O marido de Carolina da Conceição é quem sustenta a família, apesar de ser ela, também, quem “sustenta” a família. Carolina é o alicerce.

 “Consegui amor, vai ser um dinheiro bom, vai dar pra comprar as camas”, dizia ele para a esposa.

“A cama dos meus filho fica na terra, uma parte deu pra nois fazer cimento, outra parte não deu, do barraco. Então a cama deles... ‘comeu tudo’, que nem ali dá pra você ver uma porta, uma parede minha ali é um guarda-roupa. Aí o guarda roupa tem que ser numa caixa. Todo dia trocando uma caixa, entendeu, ‘come tudinho’ ”, me explica Carolina.

Claudia morava no Jardim Tijuca antes de ir para a Cidade de Deus por problemas financeiros. Ainda assim, ela não transferiu seu registro de saúde para o posto próximo. Motivo? O posto se recusa atender as famílias da comunidade Cidade de Deus.

Esse é um problema que ela e quase todas as famílias da favela enfrentam. Todos são obrigados a frequentar postos ou locais de saúde distantes. Muitas vezes, a distância é decisiva quando o problema é mais sério. É o caso de Viviane, que tem um filho de 8 anos com sérios problemas de saúde.

“Tem que ir nos outro posto né. Aero rancho, Coophavilla... longe. Porque muitas vezes fala que as famílias da favela não é pra ser atendida nesse posto.” É o que me explica um dos líderes locais, Julian. Não se sabe ao certo, se o que motiva a recusa no atendimento são ordens do poder público, como uma forma de pressão para que desocupem a favela, ou o imaginário social que se tem das favelas.

Arte: Carla Patricia (foto: Geovanni Gomes)

                                 Julian Anderson (foto: Geovanni Gomes)

Mas o que é sentido pelos moradores é o preconceito e a discriminação. As ideias que são formadas a respeito da comunidade são, em grande maioria, veiculações sensacionalistas dos casos de violência que ocorrem lá, fazendo com que se pense que todas as pessoas da Cidade de Deus são “criminosas”. Como diria o rapper Criolo, "a serpente é pra maçã, o que a maçã reflete pra mídia".

E o preconceito traz consequências.

O que era esperança de ter finalmente conseguido um bom emprego e melhorar a estrutura da casa de Carolina e sua família, se tornou frustração. “Fez a entrevista e quando foi no dia ‘ah o comprovante de residência, não tem jeito’. Caminhão não pega ele por causa do endereço. Quando fala que é daqui, fala que é bandido, que tem muito né, mas não são todos, não são todos, entendeu? Não aceita ele. E fazer o que? Ele falou ‘nóis vamo ter que ficar longe, final de semana eu venho’.”

Carolina perdeu todos os benefícios das bolsas de auxílio que recebia do governo, como o Bolsa família, todos por conta do endereço.

“A minha filha, principalmente. Ela fez curso, é estudada, entendeu? ‘Aí filha, dá pra mamãe ficar com o nenê pra você ir trabalhar’. Mas quem que aceita?”

Arte: Carla Patricia (foto: Geovanni Gomes)

                                Carolina da Conceição (foto: Geovanni Gomes)

Morar em uma favela, uma comunidade de ocupação “ilegal”, traz mais consequências do que apenas a pobreza, os problemas de violência e a qualidade de vida. É como uma pedra jogada no meio de um lago, que faz ondas cada vez maiores. A burocracia da sociedade é um obstáculo, os estereótipos dos moradores são obstáculos, e a discriminação das classes periféricas são obstáculos.

Arte: Carla Patricia (foto: Geovanni Gomes)

                                Parte da comunidade Cidade de Deus (foto: Geovanni Gomes)

Termino esta pequena série de matérias sobre a vida na Cidade de Deus, sem apontar culpados para os problemas ou salvadores para as soluções. Em uma sociedade que transforma, cada vez mais, todos os aspectos da vida humana em negócios lucrativos, surgem movimentos espontâneos de ocupação, que agem em desobediência civil, é um fato, mas que agem, muitas vezes, com o simples intuito de sobreviver. Termino, então, com um questionamento: que sociedade estamos construindo? E a quem ela serve?

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