“Ele não é bandido. Se algemar ele, nóis vamo derrubar essa viatura aqui”. Diferente de muitos lugares, inclusive periféricos, os locais de ocupação autônoma, como a comunidade Cidade de Deus, são espaços onde a lei é feita pelo convívio direto das pessoas. É um convívio que ultrapassa os mitos, lendas e exploração da pobreza que geralmente são associados às vivências das favelas.
Essa é a primeira de uma pequena série de matérias sobre a comunidade. É produto da voz, das experiências e das histórias dos próprios moradores. Gente comum, vivendo e ocupando um espaço feito de luta. Estabelecendo poder. Convivendo a partir da proximidade. Dividindo tristeza, mas também, é importante salientar: dividindo o real sentido de coletividade.
Era um dia como qualquer outro na comunidade. Era uma manhã, e como sempre, muitos barracos estavam vazios, já que seus moradores trabalham no aterro, ou no lixão, como é mais conhecido.
Foi então que chegou a polícia. Quem observava deve ter pensado: é mais alguma “treta” na comunidade. Mais alguém que vai “dançar”. Os “homens” andavam pelas ruas perguntando por Julian, de 31 anos. Por mais que perguntassem, ninguém se atrevia a dizer. “Perguntou onde eu morava né, e os pessoal falou assim: eu não conheço ele. Ninguém ‘cagueta’ ninguém, né.”.
A polícia foi bater lá no lixão. Cercaram Julian. Ele ia ser preso. Motivo: atraso de pensão. Mas os outros amigos, companheiros de trabalho e familiares se aglomeraram em volta da polícia. “Ele não é bandido. Se algemar ele, nóis vamo derrubar essa viatura aqui”. Assim Julian foi com a polícia pacificamente, nem precisou de algema.
Ao contrário do que muita gente pensa, a Cidade de Deus é, também, um lugar de paz. Foi em outra manhã, tão comum como a descrita acima, que Julian contou algumas de suas histórias. Em frente ao barraco 83, um homem de aparência nova observava a rua apoiado no cercado, com uma menininha, ainda um bebê, que usava uma blusa com um capuz com orelhas de bicho.
“Vou falar uma coisa pra você, assim... tem uma pessoa que é a dona Nazaré. Foi um problema que eu tive na justiça que é questão de pensão, né”. Foi com a ajuda da Dona Nazaré e de seu marido, que Julian entendeu o sentido de união e parceria. O casal penhorou o próprio carro por trezentos reais, e pagou mais cem para inteirar o advogado, e assim tiraram Julian da prisão.
“Eu parei e pensei: um estranho foi lá pra penhorar o carro e pegar 400 reais pra pagar o advogado. A dona Nazaré veio com os papel junto com a minha esposa e disse: ‘A gente faz o que for. Enquanto ele tiver lá dentro a gente te ajuda, não vai passar fome.’ Foi nessa parte que eu vi a união da comunidade.”
“Eu te falei, a segurança a gente mesmo que faz”. E fazem mesmo. Na Cidade de Deus, não tem polícia a não ser que um crime grave ou um mandato de desocupação ocorram.
Se alguém rouba alguma coisa, se machuca uma pessoa, se há algum caso ainda pior, como abuso de menores, a comunidade se une e vai atrás. Mesmo se o caso é mais “brando”, é alguém que perturbou as leis de bom convívio da comunidade. E é aí que entram em cena os líderes locais.
Fazem parte dessa liderança 12 pessoas, entre homens e mulheres, de diversas idades. São eles que lideram as buscas, e quando é o caso, expulsam a pessoa da comunidade. Essas pessoas também são responsáveis por incentivar as manifestações e reivindicações políticas.
“Nós mantivemos essa associação pra ela ser cadastrada no Ministério Público. Se a gente debater na prefeitura alguma coisa, a gente tem que ter um papel mostrando que é da associação dos moradores. Nóis temo um ônibus nosso, né. Mas é alugado. A hora que precisar o ônibus vem e leva. Nóis sai com um caderno, barraco por barraco, pedindo doação, quem tiver com dois, três, quatro real pra doar. ‘Ah mas pra que que é? ‘Pra manifestação. Pra pagar as coisas, comprar pão, comprar refrigerante, tomar café’. Aí a comunidade sempre ajuda”.
A liderança é baseada na diversidade. São mães e pais, e até senhoras de idade que estabelecem um sentido ancestral de conselheiras dentro da comunidade. Essas pessoas são, também, responsáveis por distribuir muitas das doações que chegam até a Cidade de Deus.
“Se a doação é pra favela, tem que ser repartido pra favela. Se a gente pega um pacote de arroz aqui, dá pra todo mundo.”
Julian mora com a esposa e seis filhos no barraco. Apenas duas das crianças são filhos dele com a esposa, mas pra Julian, todos são “seus”. Todas as crianças, com exceção do bebê Ana Julia, estudam. Ele e a família, como a maioria das pessoas na comunidade, vêm dos lugares periféricos de Campo Grande. Sem conseguir pagar aluguel, dependendo do aterro, ou por serem despedidos dos lugares onde trabalhavam.
"Já não se sentia bem lá naquele local (Parque lageado). Aí eu falei pra ela (esposa): ‘então tá, nóis vamo sair daqui’. Aí eu vim, conversei com a Verinha, que era uma das presidentes aqui da favela, ela que me ajudou a construir isso aqui. Aí eu puxei tudinho o lixo né, e falei: ‘ta bom, vamos encarar o que eles estão encarando também. Frio, chuva, o que precisar, nóis vamo passar. Mas, fome, graças a deus, nóis vamo batalhar e não vamo passar’.
Hoje a difícil chegada à comunidade já é passado. Julian sustenta a família nos empregos de coletor, pedreiro e outros “bicos”. Quando o mês é bom chega a tirar até R$ 700 por semana. Ele ainda afirma que prefere trabalhar pra si ao ter patrão, pela mobilidade da rotina.
Esse é um dos aspectos da vida na favela, mas não é o único.
“O medo da gente é eles tirar a gente daqui e mandar pra rua, né. Não pode mandar a gente pra rua e levar pra mais longe, igual eles queria mandar pro Noroeste. Mas as família daqui, graças a deus todo mundo vive bem. A favela todinha depende desse lixão.”
“E quem te disse que miséria é só aqui? Quem foi que disse que a miséria não ri? Quem tá pensando que não se chora miséria no Japão? Quem tá falando que não existem tesouros na favela?” Como Pedro Luis canta na música Miséria no Japão, não existem só coisas ruins na favela.
Nem todo mundo vive bem, é uma verdade. Mas para Julian, um dos “doze”, a política de liderança feita diariamente, o envolvimento com a comunidade e união com as pessoas são coisas que ele não encontra em nenhum outro lugar.




