Há um senso comum que envolve a educação pública, e em sentido mais específico, os alunos que frequentam as aulas dos períodos noturnos. Na Escola Municipal Iracema de Souza Mendonça, a partir das 18h, em uma sala escondida no final da ala esquerda do corredor principal, esse senso comum se desmaterializa.
Isso ocorre pela presença de 25 alunos muito especiais. São imigrantes haitianos alunos do sistema EJA (Ensino para Jovens e Adultos - anos iniciais do 1º, 2º e 3º ano do Ensino Fundamental).
“Entre o Crioulo e o Português, como a educação tem mudado a vida dos haitianos de Campo Grande” é a terceira matéria da série “Um sonho chamado Brasil: a vida dos haitianos de Campo Grande”.
Mais ou menos às 18h30 eles começam a chegar. Karla Fernanda, a professora, fica sentada no canto direito da sala, esperando seus alunos. Quem a vê pode até se perguntar o que uma pessoa tão nova faz lá. Mulher e ainda jovem, Karla encara o desafio de ensinar português aos alunos haitianos, todos homens, de Campo Grande, que têm idades que variam de 20 à mais de 50 anos.
Foram quatro visitas à escola. Na primeira aula já foi possível compreender a construção mágica que ocorre em sala. Naquele local pequeno, em uma escola pública de um bairro periférico, há uma verdadeira troca de culturas latinas.

A aula inicia (foto: Deivid Correia)
Mas como isso acontece, se a professora ensina língua portuguesa e os alunos só falam as línguas oficiais do Haiti, o Crioulo e o Francês?
O que se passa é um encontro. A situação pode até ser considerada uma espécie de sorte estranha, mas essa jovem professora de escola pública, que trocou seu período de aula por causa dos haitianos, já tinha contato com a cultura do Haiti antes de o projeto começar.
Além do trabalho como professora, Karla realiza ajuda humanitária no país caribenho desde 2013. Geralmente fica um mês e trabalha com a formação de professores. Ela explica que as duas culturas se “mesclam” muito bem, pela identidade que compartilham.
Karla tem experiência em pesquisa de educação intercultural, o que junto de seu contato com a cultura haitiana, fez com que a oportunidade não pudesse encontrar pessoa melhor para o desafio.

Karla Fernanda, a professora (foto: Geovanni Gomes)
É uma aprendizagem que se dá em diferentes níveis. Desde o mais básico de alfabetização, até os alunos mais avançados, que envolvem o ensino da cultura brasileira. Ela teve de adaptar diversos livros didáticos, e desenvolver um método próprio de ensino. Conseguiu até materiais indicados por profissionais do Haiti, o que tornou tudo mais fácil para os outros professores e para os alunos. Eles aprendem toda a grade da escola: de gramática a ciências. Até Educação Física, aula que eles adoram. É o dia que Junel, o professor de espanhol de 26 anos, encontra no futebol o momento para se desligar de toda a rotina pesada do trabalho na construção civil.
Tânia Cheker de Souza, diretora da instituição, brinca que o projeto foi responsável por atrasar sua aposentadoria. O contato com a turma dos haitianos, em sua opinião, é uma profunda desconstrução e aprendizagem, mesmo tendo 36 anos de experiência com educação.
Karla começa anotando a data e a cidade na lousa conforme os alunos vão respondendo. A todo o momento eles são forçados a se comunicarem. Karla está estudando francês, e assim a aula mescla o português e algumas palavras em Francês que ela troca com eles, para que entendam melhor, e o Crioulo, que falam entre eles.
Camius, o brincalhão da turma, é um dos primeiros a chegar. Ele e os amigos sentam todos na frente e são muito dedicados e concentrados. Alguns ficam cantando durante a aula. Um possível traço de sua cultura, cuja expressão é feita especialmente através do teatro e da música.
"Quando eu cheguei na escola, eu vi a jornalista e fiquei assustado", escreveu o "brincalhão" (foto: Deivid Correia)
A metodologia das aulas é alterada de acordo com o número de alunos. Um método que tem funcionado é a formação de frases. Karla escreve diversas palavras na lousa e por sequência eles são chamados à frente da sala, para escreverem as frases na lousa. Um corrige o outro e a criatividade das sentenças é vasta.
Leonet, o caçula de 20 anos, é um dos mais aplicados. Além da dedicação em aprender o português, ele corrige o francês da professora e dos colegas. Jocelin é o mais velho, o “grand pére”, (avô, em Francês), da turma. Fala pouco e sorri muito. Muitos, vão vestidos de maneira elegante, com roupas e sapatos sociais. Camius escreve frases que são sempre brincadeiras com os amigos. Em um dos dias, a palavra “orelha” estava na lousa. Jocelin escreveu “Camius têm orelhas grandes”. Camius riu muito e disse: “Ele está aprendendo”. “É assim todo dia, uma diversão”, conta Karla
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"Camius é uma pessoa muito engraçada", escreveu Wilner (foto: Deivid Correia)
No primeiro dia, o choque da barreira linguística, me fez perceber o quanto a língua é algo que pode dificultar o estabelecimento social. Como tirar informações de alguém cujo signo linguístico se apresenta tão diferente? Como trabalhar, construir uma vida para si, fazer amigos, exigir direitos? A educação, para esses haitianos, é o ponto mais importante da vida aqui.
Mas a língua é bem mais que isso. Haitianos e brasileiros tem muitas possibilidades de compreensão. O humor, as metáforas, cada gesto é muito parecido entre as duas culturas. As aulas começaram nesse ano, e muitos deles já falam a língua muito bem.
O ensino ali é tão produtivo, que as aulas passam muito rápido. Karla é mais que uma professora pra eles. Apesar de nova, ela é uma espécie de mãe.
Em uma das aulas, Leonet estava muito quieto. Karla foi até a mesa e perguntou por que ele não escrevia a lição que era passada na lousa. Leonet apontou para a própria cabeça, fazendo gestos e querendo dizer que estava com o pensamento distante. Do outro lado da sala vi ele explicando: era saudade da mãe. A mágica ali só acontece porque há uma troca e uma compreensão muito sensível entre professora e alunos.

O jovem e estudioso Leonet (foto: Deivid Correia)
Quando Camius foi formar uma frase sobre política, os outros brincaram, dizendo que a política é mais complicada no Haiti. “Eu estudo política para saber como dirigir este país”, foi o que o haitiano de 45 anos escreveu. Isso, talvez, seja uma compreensão que ele tem mais que muitos brasileiros.
Um dia de passeio que Karla fez com os alunos, se transformou em algumas redações, uma delas é a de Moliere:
“Nome: Moliere
Dia 23 foi um dia de passeio para todos haitianos da Escola Municipal Profª Iracema de Souza Mendonça especialmente pela profª Karla. Nós fomos em três lugares todos são maravilhosos. O Museu José Antônio Pereira guarda a cultura não deixa perder as coisas tão importantes. O memorial da cultura indígena também muito bonito perfeito.
Finalmente a profª Karla Fernanda da Silva Torres, eu não tenho palavras para explicar o quanto eu fiquei contente. Que Deus abençoe cuide de você e sua família, especialmente a sua mãe.”
Em dois dos quatro dias de visita a Escola, a Câmara dos Deputados votava a proposta de redução da maioridade penal. Durante dois dias as contradições de dois caminhos se cruzaram. Não se sabe que rumos o país seguirá no que se refere a dar oportunidades ou retirá-las. Muitas vezes, e esses dias foram exemplos, punição e educação caminham lado a lado.
No que tange aos grupos em que o conhecimento estabelece a linha essencial entre sobreviver ou desistir, a educação ainda é o caminho. As aulas noturnas da jovem professora Karla Fernanda estão mudando a vida desses haitianos.




