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segunda, 14 de junho de 2021
Tema Livre

TEMA LIVRE: Um Clássico, por Ediane Palhano

Psicóloga especialista em adolescentes e adultos, Ediane vislumbra novos textos na literatura

10 junho 2021 - 12h46Por Por Ediane Palhano

Um clássico

Todo final de ano é sempre a mesma coisa: a clássica faxina.

Eu li em algum lugar. Acho que foi no Facebook – Não guarde coisas sem uso, pois assim a energia não flui. “Deuzulivre” a energia não fluir e eu não acreditar nos posts da internet! Praticamente um sacrilégio nos tempos atuais. E esse tinha muita cara de ser verdade. Era todo decorado com imagens indianas. 

Todos anos a mesma coisa. Prendo meu cabelo, depois que consigo achar uma maldita “xuxinha”, que aliás, alguém sabe me dizer para onde vão todas as milhares de unidades que a gente vive comprando e nunca tem? Só podem estar junto com os pés de meia que misteriosamente somem também. Escolho a playlist da vez: “Aquelas que não assumo que escuto”. Ademais, já avisei minha Advogada: do jeito que a coisa anda estranha não tarda muito para o Spotfy me chamar para depor, questionando os nomes que batizo minhas seleções musicais. Enquanto isso, sigo sendo subversiva musicalmente.

E lá fui eu para a sessão desapago e separei tudo por categoria: os casacos para Ong da minha amiga. As mini-saias para as primas jovens. As camisetas surradinhas vou deixar para limpar a casa. Os vestidos de festa eu vou guardar porque só usei uma vez. Algumas calças jeans não me servem mais – são as mais ingratas, sendo as primeiras a denunciarem nossas extravagâncias - mas não vou me desfazer delas porque juro de pé junto e pela minha mãezinha que vou entrar dentro delas novamente. Vou começar uma dieta nova na segunda-feira sem falta! Também juro, por Nossa senhora dos Brechós que vou levar aquela sacola na costureira. Tem também aquela blusinha que comprei na promoção porque estava muito barata, e nunca consegui vestir, mas como toda mulher não perco a esperança de um dia acordar inspirada.   Mesmo sabendo que a verdade é que eu sempre uso as mesmas peças. Se elas falassem certamente diriam: Amadaaaa???? Jura que sou eu de novo?!

Porque a gente guarda tanta coisa? Não falo só de roupas e objetos, mas também de sentimentos. Joguei um monte de coisas fora, apenas objetos, porque os sentimentos eu venho tentando toda terça-feira às 13:30 na minha terapia, mas ainda não consegui.

Guardo coisas que nem sei porquê e outras chego a duvidar da minha sanidade mental.  Não é possível que comprei um Berimbau naquela minha viagem para Porto Seguro! Não tinha ninguém para me impedir?!

Ah! Mas é tão fofo...vou guardar ele de novo!

A sessão desapego/ descarrego ia bem, tão bem que baixou um santo arrumador que me fez enfrentar até mesmo o maleiro do guarda-roupa, aquele gigante empoeirado que a gente protela uma encarnação para arrumar. Abro a porta e me deparo com um clássico dos anos 80. Invejosos dirão que é só um quadro cafona, mas na verdade era o sonho de qualquer garota daquela época. Praticamente um papel de cartas gigante. Daqueles que a gente guardava em pastas, colecionava e trocava com as amigas. 

Havia me esquecido dele. Como pude? Ganhei da minha madrinha quando eu tinha mais ou menos 11 anos de idade. Minha madrinha era uma mulher linda, mesmo sem atender nenhum suposto padrão de beleza da época. Ela tinha um andar manso e elegante, sempre parecendo estar em cima de um salto 15.

Eu passei algumas férias na casa dela, nem sei precisar quantas, mas minha memória afetiva garante que foram todas até eu atingir a vida adulta. Ela era carinhosa e doce, como o mate leão que fazia diariamente e me servia numa xícara de porcelana florida, mesmo em dias de calor a pino.

 Todas as noites eu a admirava sentada na sua penteadeira, de camisola e penhoar combinando, onde religiosamente dava início ao seu ritual de beleza antes de se deitar. Fazia pacientemente rolinhos com os dedos nos cabelos, prendia com grampos dourados e os envolvia com um lindo lenço florido. Ao final, passava delicadamente seu creme Monange nos braços e mãos enquanto conversava amenidades do dia-a-dia com meu padrinho de pijama azul que também a admirava, deitado em sua cama com sonoros “benhê” pra cá, “benhê” pra lá. Ali eu assisti minha primeira novela romântica, ao vivo e em cores. Ali eu conheci o amor e acreditei nele. Ali eu desejei ter alguém para chamar de “benhê” um dia.

Ele estava bem no fundo do armário, todo desbotado, mas não ao ponto de não conseguir lê-lo e com a mesma doçura da minha madrinha afirmando.

“De amor em amor, nasce uma flor”

Foram alguns minutos de silêncio e contemplação, lá estava eu novamente tentando entender aquela frase enquanto era invadida pelo cheiro do creme e não pude impedir que meus olhos marejassem. Minha madrinha se foi e seus rituais de beleza foram mantidos até os últimos dias de sua luta contra uma terrível doença. Ela viveu linda e morreu linda. Eu me despedi de seus cachos dourados e em seguida guardei no fundo do armário o quadro que havia ganhado dela. Fechei o quadro no armário e me fechei para o amor. Bastaram algumas escolhas erradas e meia dúzia de tentativas frustradas para eu desistir. Coisa difícil essa história de amar. 

Foquei na carreira, nas viagens, nas compras parceladas no cartão de crédito e nas terríveis dúvidas do século XXI. Comer ou não comer glúten?  Ovo faz mal? Carboidrato à noite engorda? 

Quem precisa de amor? 

Eu. 

Eu preciso de amor. 

Preciso amar e ser amada.

Todos precisamos.

Hoje me despeço do quadro e decido acreditar no amor novamente. 

Vou procurar um “benhê” para chamar de meu, porque um clássico nunca sai de moda, e o amor é um deles.