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Polícia

Criança de 3 anos tem parte do pênis amputada após cirurgia de fimose e pai se desespera

Cirurgião foi encontrado morto em casa dias após o procedimento

16 outubro 2019 - 12h21Por Luis Abraham

Um menino de 3 anos teve parte do pênis amputado após passar uma cirurgia de fimose em Malacacheta, Minas Gerais. O pai da criança contou que o cirurgião não admitiu e só percebeu a mutilação quando transferiu a criança para um hospital de Teófilo Otoni, que a submeteu a um procedimento de reconstrução da parte que sobrou do membro.

"Lá eu fui chamado para uma sala, onde me disseram 'infelizmente houve a amputação do pênis do seu filho'. Aí eu fui pro chão, passei mal'”. De acordo com informações do G1, o cirurgião responsável pela cirurgia, que consiste na retirada do excesso de pele no órgão genital, morreu em casa dias após o fato, ocorrido no Hospital Municipal Dr. Carlos Marx.

A confirmação da morte do médico foi dada pela Prefeitura de Malacacheta, que até o momento disse não ter sido emitido o laudo com a causa da morte do cirurgião. A secretaria de Saúde informou ao G1 que, além do cirurgião, ainda participaram do procedimento um anestesista, um enfermeiro, um instrumentador e dois circulantes de sala. A secretaria disse ainda que solicitou a abertura de um procedimento administrativo.

O pai explicou que pediu a enfermeira para trocar o curativo sujo de sangue e não conseguiu ver o membro. “Eu deixei o meu filho no hospital e minha mãe ficou de acompanhante. Eu fui para uma reunião de trabalho e quando retornei soube que tinha algo errado. A cirurgia que deveria ter durado uns trinta minutos levou cerca de quatro horas. Quando tirou o primeiro esparadrapo, tinha tipo uma gaze enrolada simulando que o pênis estaria ali no meio. Tudo ensanguentado. Quando levantou a gaze não tinha pênis visível. Fiquei doido, falei que isso não era normal".

O pai conta que chamou o médico de plantão, porque o que tinha operado havia ido embora, e ele disse que não poderia avaliar porque não havia participado da cirurgia. "Eu pressionei: 'doutor, posso ficar tranquilo que tá tudo normal, então?'. E ele disse 'não, eu não falei isso, só digo que não tenho condições de avaliar porque não participei da cirurgia'”, conta.

E então foi atrás do prefeito e do secretário de saúde do município. “Eu mostrei a foto do meu filho e perguntei 'isso é normal?'. Eu vi que ele [secretário de saúde] ficou espantado, mas continuou dizendo que estava tudo bem. Horas depois apareceu o médico que fez a cirurgia e disse que estava normal, disse 'daqui dez dias vai começar a desinchar e vai dar pra ver o pênis dele'”.

Mas o menino continuava a reclamar de dores na região, no dia seguinte o pai assinou um termo de responsabilidade e transferiu a criança por conta própria para o hospital de Teófilo Otoni. Na unidade, o menino passou por novos procedimentos cirúrgicos para avaliar o estado em que se encontrava e reconstruir o órgão.

O pai da criança conta que o laudo do segundo hospital apontou que houve laceração do prepúcio e diz que somente no futuro poderá saber se o filho poderá recorrer a uma prótese. A conta da internação em Teófilo Otoni ficou em torno de R$ 10 mil e o pai afirma que precisou pegar dinheiro emprestado para pagar, pois não recebeu apoio ou assistência do município. Também falou que somente semanas depois, após o caso ter repercutido na mídia, a Prefeitura o ressarciu dos custos da segunda internação, porém não tem prestado assistência à criança.

Ao G1, a Secretaria de Saúde disse que tem prestado apoio através das visitas domiciliares realizadas pela Equipe de Saúde da Família e ofertando consultas médicas e atendimento psicológico. Informou ainda que o pai foi ressarcido dos custos hospitalares no dia 4 de outubro e que tem contribuído com a Superintendência Regional de Saúde de Teófilo, através do Núcleo de Segurança do Paciente, para a investigação do ocorrido.

Investigação

A avó da criança procurou o promotor Roberto Vieira dos Santos, e o Ministério Público solicitou que a Polícia Civil investigasse o caso. O inquérito foi aberto na semana seguinte à cirurgia que amputou parte do membro do garoto. O MP aguarda a conclusão das investigações para avaliar as providências que serão tomadas.

A delegada Mariana Grassi Colin informou que o crime de lesão corporal está sendo apurado. Segundo ela, os familiares já foram ouvidos e agora está ouvindo os membros da equipe que participaram da cirurgia. A intenção é apurar se o erro foi apenas do médico que o operou ou mais pessoas teriam contribuído para os danos sofridos pela criança.

Reparação

O menino se recupera da cirurgia de reconstrução do órgão mutilado. Segundo o pai, ele continua sendo acompanhado pelo médico que fez a segunda cirurgia. “Agora é acompanhar a recuperação dele. É preciso ver como ele vai reagir, cuidar que ele receba os estímulos necessários para se desenvolver, para que sejam minimizados os danos”.

O pai ainda lida com muitas perguntas que permanecem sem respostas a respeito da amputação indevida e as consequências dela, mas disse ter certeza de que será longa a batalha que o filho enfrentará para lidar com os danos do erro ao qual foi submetido. Para arcar com custos do tratamento de saúde da criança, o pai criou uma vaquinha virtual pedindo contribuições a quem possa ajudar. Até o momento a campanha já arrecadou R$ 10,3 mil na internet.

“Deus tem colocado as pessoas certas no caminho e isso que tem nos dado força para encarar o que for preciso. Tenho milhares de perguntas. O que mais me deixa indignado é que os médicos que atenderam ele em Teófilo Otoni disseram que se o meu filho tivesse recebido atendimento correto desde o primeiro momento, podiam ter minimizado os danos. Se não tivessem omitido que algo havia dado errado na cirurgia, meu filho poderia ter sofrido menos. Agora quero saber o que aconteceu, quero justiça e quero que isso não aconteça com nenhuma outra criança”, conclui o pai.