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Polícia

MANTEVE O BEBÊ: em transição hormonal, transexual é estuprado e engravida na Capital

O trauma foi profundo, mas ele levou a gestação adiante e aguarda por justiça

20 abril 2020 - 07h00Por Rayani Santa Cruz

A dor e o trauma são imensuráveis em casos de estupro, e quando existe uma gravidez após o crime, o peso dobra. Agora, imagine a situação de um homem trans (em tratamento hormonal) que é estuprado por um conhecido, esconde a situação por vergonha e medo, e meses depois descobre uma gravidez?

Esse é o caso do Sidnei Silva (nome fictício para preservar a vítima) de 20 anos, que recém chegado de Corumbá, e com ânsia de vida melhor, acabou enganado e estuprado em junho de 2019 por quem dizia ser “um amigo”, em Campo Grande.

Sidnei que nasceu com o sexo feminino conta que não procurou um médico e que aplicava testosterona no corpo por conta. Ele teve grandes mudanças, inclusive no físico e na voz. Quando chegou à Capital, ao início de 2019, procurou trabalho e conheceu um vendedor ambulante de 43 anos. O homem o contratou para fazer algumas diárias e aparentemente sempre estava disposto a ajudar e o tratava como amigo.

Após alguns meses, ele ganhou a confiança de Sidnei e o chamou para ir a sua residência com a justificativa de proposta de emprego. “Eu estava desempregado, procurando ganhar dinheiro. Como tinha vindo do interior, não conhecia quase ninguém aqui, só a minha namorada, agora esposa. Eu fui. Cheguei lá, entrei e, quando vi que ele estava sozinho, ele já foi pra cima de mim. Falou que ia fazer eu virar mulher”, desabafou a vítima, que após o estupro não teve coragem de contar a ninguém, até saber da gravidez.

“Depois do ato, ele me deixou sair. Eu corri, fiquei com medo de contar pra minha esposa. Não sei direito, fiquei zonzo e fui pra casa. Um pesadelo, só queria esquecer”, diz.

Sidnei conseguiu um emprego de atendente e, ao final dezembro de 2019, pediu demissão, pois queria viajar para a cidade natal e apresentar a esposa à família. 

“Após isso eu viajei, levei minha esposa para conhecer minha família e não fazia ideia que estava grávida, continuava malhando e seguindo a vida normal. Quando foi no dia 17 de janeiro minha barriga começou a mexer. Achei que era ‘lombriga’, porque não estava grande, estava musculosa. Minha esposa também sentiu. E acabamos indo no médico contra a minha vontade. Após a ultrassom, descobrimos o bebê”.

Sidnei revelou a verdade. “Eu não sabia o que fazer e contei pra ela [esposa] tudo o que tinha acontecido. Ela me surpreendeu e disse pra eu dar graças a Deus porque era uma vida e não uma doença. No começo, foi muito ruim pra mim, não nego, mas graças ao apoio dela, ocorreu tudo bem”, explicou.

Segundo ele, o bebê tem um mês de nascido. O boletim de ocorrência foi registrado e o processo segue em segredo de justiça. Sidnei aguarda a passagem da pandemia para prestar novo depoimento e disse que o estuprador segue respondendo em liberdade.

“Depois que passar a pandemia eu quero resolver tudo certinho. Por enquanto, só quero participar da vida com ele [o bebê], e amá-lo muito porque antes eu não o amava nenhum pouco. E a gente vai conversar com ele conforme for crescendo, entende”.

Sidnei quer esquecer o assunto tão dolorido e tenta de todas as formas enxergar o lado positivo.

“Eu não quero prorrogar esse assunto, eu quero esquecer, banir da minha vida. E todo o mal que a pessoa faz, volta para ela, estou seguro na mão de Deus e acredito n'Ele. A gente enxerga ele [o bebê] como um presente e está dando tudo certo, agradeço muito e fico feliz em compartilhar minha história para alertar também as pessoas que chegam do interior”.