Se há 60 anos o nacionalista e imperscrutável Getúlio Dornelles Vargas saiu da vida para entrar na história, hoje desejamos muito que os políticos saiam da história pela porta dos fundos, que é o que lhes cabe.
Getúlio é a mais ambígua personalidade da política brasileira e um dos personagens mais estudados pelos historiadores e sociólogos. Até mesmo os mais isentos costumam analisar Getúlio em duas fases: do início de sua carreira política, até o final de seu primeiro mandato; e o outro Getúlio, eleito democraticamente em 1950 até o suicídio em 1954. Os menos isentos o analisam como “demônio” ou como “o grande construtor do Brasil”.
Vale lembrar que Getúlio tinha uma capacidade de monopolizar as massas por meio de uma empatia nata e discursos bem elaborados, além de conseguir jogar com maestria na diplomacia internacional captando recursos das divergentes correntes políticas do pré e pós-guerra. Era uma ameaça para a entreguista “UDN, que nunca conseguiu nada no voto”.
Lá e cá
A política dá voltas, maiores e mais velozmente que o mundo e, sempre repassa pelos mesmos lugares, com personagens semelhantes. Não é diferente, mas os políticos têm perdido o brilho e a capacidade de articulação e artimanhas. Os atuais estão sem viço, mas mantêm os vícios.
Recente personagem teve sua trajetória marcada pela empatia e capacidade de movimentação de massas, no entanto foi um arremedo de presidente e esteve sempre muito distante de ser um estadista (termo que, sequer compreende).
Getúlio nomeou interventores para os estados e criou, dessa forma, pequenos territórios de domínio de caciques políticos, temerários aprendizes de ditadores, muitos dos quais foram também eleitos por uma democracia caolha, onde os poderes estavam atrelados a estes mandantes.
Lá e cá e o inimigo
Mais que adversário, inimigo declarado de Getúlio foi Carlos Lacerda. Dono do jornal Tribuna da Imprensa, declarou em Depoimento publicado em 1978, um ano após sua morte: "Não gosto de política... gosto é do poder. Política para mim é um meio para chegar ao poder”, diz Carlos Lacerda.
A paciência não era sua maior virtude. Em 1955, Juscelino Kubitschek eleito presidente da República, Lacerda, golpista e testa de ferra de políticos mais sagazes como Magalhães Pinto (falido Banco Nacional), José Sarney, Antônio Carlos Magalhães, defendeu a anulação das eleições. Juscelino não havia feito maioria, seu meio milhão de votos sobre Juarez Távora eram votos dos comunistas. Às favas com o jurisdicismo da ala legalista da União Democrática Nacional (UDN). O caso era apear Juscelino, e logo João Goulart, seu vice, do poder. Lacerda tinha pressa.
Carlos Lacerda era o orador brilhante que impulsionava os sagazes políticos conservadores da UDN, inteligência aguda e opositor dos trabalhistas (Partido Trabalhista Brasileiro – PTB), através de seu jornal lançava mísseis políticos, fazia denúncias escabrosas muitas vezes sem provas. Usava de seu jornal para devastar os inimigos com sua metralhadora de palavras.
Foi um político derrotado. Andou sempre no avesso do poder, era peça importante para ser usado pelos generais, mas nunca foi considerado político suficientemente brilhante para ser promovido a tenente. Terminou derrotado pelo regime militar – que apoiara e, depois, o baniu da vida política. Lacerda chegava à maturidade de seus 50 anos em 1964. Aspirava à Presidência, queria ser o candidato da “revolução”, nas eleições de 1965. Errou feio. Lacerda se foi em 1977, inglório, morto de uma complicação cardíaca.
Qualquer semelhança é mera coincidência.
Quem foi Getúlio Vargas
Getúlio Dornelles Vargas (19/4/1882 - 24/8/1954) foi presidente do Brasil durante dois mandatos: 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. Assumiu o poder em 1930 após liderar a Revolução que impediu a posse de Julio Prestes. Entre 1937 e 1945 instalou a fase de ditadura, o chamado Estado Novo. Seu governo foi marcado pelo nacionalismo e populismo.
Fechou o Congresso Nacional no ano de 1937. Criou o Departamento de Imprensa e Propaganda para censurar e controlar manifestações opostas ao seu governo, sob o comando do senador mato-grossense, Filinto Müller.
Realizações
Criou a Justiça do Trabalho em 1939; Criou e implantou o salário mínimo, Consolidação das Leis do Trabalho, semana de trabalho de 48 horas, Carteira profissional e férias remuneradas.
Fez fortes investimentos nas áreas de infraestrutura: criação da Companhia Siderúrgica Nacional, Companhia Vale do Rio Doce e Hidrelétrica do Vale do São Francisco. Em 1938, criou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Após um golpe militar, Vargas deixou o governo em 1945.
O Segundo Mandato
Vargas foi eleito presidente da República em 1950, através das vias democráticas, ou seja, pelo voto popular. Continuou com uma política nacionalista. Criou a campanha do "Petróleo é Nosso", para impedir que empresas estrangeiras pudessem explorar o petróleo em terras brasileiras. Esta campanha resultou, posteriormente, na criação da Petrobrás.







