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Política

Ex-servidor da 3ª Vara acusa juiz Odilon de negociar sentenças

Jedeão de Oliveira, ex-assessor do juiz, foi demitido por sumiço de fortuna e acusa ex-chefe de crimes

26 outubro 2018 - 11h20Por Celso Bejarano e Luís Abraham

Jedeão de Oliveira, ex-chefe de cartório da 3ª Vara Federal, em Campo Grande, período que a seção judiciária era chefiada pelo agora aposentado juiz federal Odilon de Oliveira, candidato do PDT ao governo de Mato Grosso do Sul, declarou que o magistrado teria negociado sentença.

“Tenho um indicativo de pessoas que podem apontar a venda de sentenças, mas não sei o número ao certo. Está nas mãos das autoridades”, afirmou Jedeão, em entrevista concedida à FM UCDB, na manhã desta sexta-feira (26).

Jedeão foi afastado da 3ª Vara em julho de 2016 por ter sido acusado de desviar em torno de R$ 11  milhões de um cofre que fica num dos cômodos da seção judiciária. A fortuna, que deveria ter sido depositada em conta judicial, tinha sido confiscada de investigados por crimes federais, tráfico de drogas, principalmente. 

Correição (apuração de fatos determinados relacionados a deficiências graves dos serviços judiciais) feita pela Corregedoria do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), entre os meses de agosto e setembro de 2016, percebeu o desaparecimento da quantia e, até agora, somente Jedeão foi punido com a exoneração.

De acordo com a entrevista, Jedeão, que é primo distante de Odilon, falou à emissora de lugar indefinido, deixando a entender que o ex-servidor teme por eventual ataque criminoso. Ao ser indagado a razão de falar do caso somente agora, depois de dois anos de sua demissão, Jedeão assim se manifestou:

“Aconteceu em um momento estratégico da minha defesa, o que requereu eu criar um documento público, registrado em um cartório no interior de São Paulo, para minha segurança, o qual algumas pessoas sabem da localização exata para que se algo aconteça comigo isso venha à tona”.

Depois de demitido, Jedeão, que atuou por duas décadas como assessor direto do juiz Odilon, alegando ter sido ameaçado de morte, mudou-se de Estado.

“O conteúdo [denúncia que levanta suspeita de o juiz ter negociado sentença] foi repassado às autoridades no início do ano [2018], como não havia movimento nisso, temi pela minha integridade, então decidi tornar público isso e chamar um jornalista da Folha de São Paulo, que já estava investigando isso. E à partir daí vieram os demais órgãos da imprensa”, contou Jedeão.

O ex-chefe de cartório da 3ª Vara Federal afirmou também que resolveu falar publicamente sobre o episódio de sua demissão porque “um dos candidatos [Odilon] gosta de falar com todas as letras que eu sou um bandido, parece que meu nome é feito de açúcar”.

Já quanto ao sumiço do dinheiro, Jedeão afirmou que:

“No dia da minha demissão tive menos de uma hora para juntar as minhas coisas. Quando se trabalha durante 20 anos em um mesmo local, seu local de trabalho se transforma em uma extensão da sua casa e você acaba juntando muita coisa. Então eu não consegui pegar tudo. Mas tenho como indicar caminhos para chegar lá e mostrar pessoas chave que possam provar o desvio”.

Jedeão revela ainda que o seu trabalho era fiscalizado com frequência ao menos uma vez por ano pela conhecida correição.

“Eles falam que eu sumi com R$ 11 milhões da 3ª Vara, mas o interessante é que em todos os anos ocorre uma auditoria na vara, tendo como responsável o próprio juiz”, disse o ex-servidor, cujo salário no período da demissão girava em torno de R$ 10 mil. Quem o indicou para o emprego foi o próprio magistrado.

Ainda na entrevista para a FM UCDB, Jedeão diz que pode ter sido incriminado propositadamente: “é um controle [relação do dinheiro confiscado] que fica nos processos, após a minha saída a Vara foi tomada por correligionários do juiz e, então, os documentos que apontavam os desvios foram ‘achados’ em minha mesa como se eu tivesse arrancado dos autos”.

JUIZ CONTESTA

Odilon de Oliveira, em entrevistas que comenta o caso disse que foi ele quem pediu para a Corregedoria do TRF-3 investigar Jedeão, assim que soube do sumiço  do dinheiro. Ou seja, o magistrado aposentado que teria afastado o ex-servidor do cargo.

O juiz afirmou também que Jedeão só teria procurado a imprensa logo depois de anunciar o interesse em disputar a eleição.

O depoimento de Jedeão é investigado pela Polícia Federal a pedido do MPF (Ministério Público Federal).

PROCESSOS

Corre contra Jedeão ações judiciais na 1ª Vara, 2ª Vara, 4ª Vara e 5ª Vara Federal, em Campo Grande. Enriquecimento ilícito, prejuízo ao erário e improbidade administrativa são os crimes supostamente praticados por ele.

O volume de dinheiro desviado por ele teria alcançado, incialmente, a cifra de R$ 6 milhões, mas a conta não é exata. É uma estimativa. Num dos processos que Jedeão de Oliveira é acusado por desvio de dinheiro, o qual o TopMidiaNews teve acesso, suspeita que motivou sua demissão, é revelado que o sumiço do recurso ocorreu no dia 13 de novembro de 2003.

Ou seja, o desvio só foi descoberto em julho de 2016, pouco mais de 13 anos depois.