Durante pelo menos quatro anos, o título de governador de Mato Grosso do Sul não poderá mais acompanhar o nome de André Puccinelli (PMDB). Mas, os mais de 20 anos de vida pública no estado foram mais do que suficiente marcar sua figura no cenário político regional. Conhecido por diversas obras, como o 'faraônico' Aquário do Pantanal, e sem receio algum de se envolver em grandes polêmicas, Puccinelli encerra, nesta quarta-feira (31), seus oito anos de gestão e passa a faixa de governador do estado para o rival Reinaldo Azambuja (PSDB), em evento público marcado para a tarde desta quinta-feira, 1º de janeiro.
Mestre das obras
O perfil de exímio construtor público se tornou evidente, ainda quando ocupou, entre os anos de 1998 a 2006, o cargo de prefeito de Campo Grande. Pavimentações, recapeamentos, tapa-buracos, escolas e unidades de saúde estavam entre os projetos que entravam para a listagem de obras que ele mesmo criou para promover os feitos de sua gestão. A estratégia de autopromoção fez escola e também foi aderida pelo seu sucessor no cargo, o ex-prefeito Nelson Trad Filho (PMDB), que deu ar requintado ao incluir a contagem em totens de concreto.
A vitória para governo do Estado sobre o petista Delcídio do Amaral, em 2006, ampliou seu canteiro de obras e os recursos para serem aplicados. Elementos tão grandiosos unidos em um só projeto não poderiam receber nome menos significativo. "MS Forte" foi o batismo para as ações de desenvolvimento promovidas pelo estado a partir de 2009.
Apesar de abranger ações estratégicas para o desenvolvimento do Estado em todas as áreas, desde logística até assistência social, foram as obras de infraestrutura que mais receberam atenção do governador. Implantando ao final de seu primeiro mandato, o programa foi um dos elementos que garantiram sua reeleição em 2010 e ganhou continuidade na gestão seguinte.

Puccinelli é considerado um "mestre-de-obras", como o ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. (Foto: arquivo/ Geovanni Gomes)
As obras do MS Forte I e II abrangeram 79 municípios e contaram com de cerca de R$ 2,5 milhões. O principal diferencial do programa está na aplicação, maior do que o comum, de recursos próprios. Conforme o próprio Puccinelli, cerca de 60% dos investimentos saíram dos cofres do governo do estado, contra 30% de recursos federais e 10 % municipais. "O governo, além de custear suas ações, pagou seus funcionários em dia, investiu em casas populares, em 36 escolas, nos 3362 quilômetros que construímos de estradas novas e recapeadas, nos seis hospitais já feitos e dois em construção", destacou durante entrega de patrulhas agrícolas no segunda-feira (29).
Apesar de todo o esforço, Puccinelli encerra seu governo sem concluir a maior e mais cara obra de sua gestão, o Aquário do Pantanal. Localizado na Capital, Campo Grande, o maior aquário de água doce do mundo deve abrigar seis milhões de litros da água e 32 tangues de peixes. A obra tinha previsão inicial de custar R$ 85 milhões, mas, em números oficiais, já soma R$ 150 milhões. Estimativa extraoficial dá conta de que o custo beira os R$ 300 milhões.
Polêmicas
Com o título de governador, as declarações polêmicas de Puccinelli se tornaram quase rotina. Uma das primeiras atitudes que tiveram repercussão nacional ocorreu em 2009, quando o governador chamou o então ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de "veado fumador de maconha". Além de o ameaçar dizendo que se Minc participasse da Meia Maratona Internacional do Pantanal, marcada para o dia 11 de outubro daquele ano, ele "o alcançaria e o estupraria em praça pública".
No ano seguinte, a polêmica foi em torno das questões agrárias do estado. Durante a abertura da Expoagro em Dourados, André Puccinelli conclamou todos os setores ricos do estado a serem "mais nacionalistas" e unirem-se na luta contra os trabalhadores rurais sem terra e os povos originais. Defendeu ainda a tese de que a demarcação das terras dos povos originais faria com que todas as pessoas do Mato Grosso do Sul tivessem que viver de caça.

Com o sucessor ao governo do estado Reinaldo Azambuja (PSDB). (Foto: arquivo/Deivid Correia)
Em no decisivo para sua reeleição, Puccinelli não mediu esforços e até partiu para agressão física para garantir o cargo. O eleitor Rodrigo de Campo Roque, um montador de acessórios para automóveis de vinte e três anos, foi agredido com um tapa pelo governador. A confusão aconteceu enquanto estava conversando com eleitores do bairro Aero Rancho II, na periferia de Campo Grande, e se irritou quando foi chamado de "ladrão" pelo rapaz.
Em setembro de 2013, o governador provou mesmo que direitos humanos não era seu forte ao condecorar o policial militar Evanildo Gomes, que matou dois bandidos durante o assalto a uma lotérica na rua da Divisão, no bairro Parati, em Campo Grande. O sargento também ganhou uma promoção por ação em prol da sociedade. “Vou dar uma medalha para cada bandido que ele mandou para o inferno”, afirmou Puccinelli na ocasião.
Escândalos
Apesar de encerrar o mandado como alvo de investigação no MPE-MS (Ministério Público Estadual) devido ao contrato com a empresa Fluidra Brasil, que vai ganhar R$ 25 milhões para gerir o sistema de suporte à vida do Aquário do Pantanal, este está longe de ser o maior escândalo de sua gestão.
Puccinelli também já foi denunciado pelo Ministério Público Federal por enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro. O processo se encontra paralisado no Supremo Tribunal de Justiça (STJ), devido à falta de autorização dos deputados da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, para que o STJ proceda com os autos.

Escandalos marcaram gestão de Puccinelli, mas não foram suficientes para retirá-lo do cargo. (Foto: arquivo/ Geovanni Gomes)
As investigações da Polícia Federal, por meio da Operação Uragano, não pouparam Puccinelli. O Governo do Estado foi pego em um esquema ilegal de pagamento de propinas a deputados da Assembleia Legislativa, a desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul e a membros do Ministério Público do estado. O relato foi feito pelo deputado estadual Ary Rigo a jornalista Eleandro Passaia, que denunciou o esquema. Porém, o processo nunca foi pra frente.
Não bastando o tapa em eleitor para garantir sua reeleição ao governo do estado, Puccinelli utilizou da coação para tentar reeleger seu candidato, Edson Giroto, a Prefeitura de Campo Grande. No dia 21 de agosto de 2012, foi publicado um vídeo gravado dia 10 de agosto de 2012, na sede do PMDB de Campo Grande em que o governador pratica coação eleitoral sobre servidores. O vídeo inicia com uma funcionária comentando sobre exoneração para os convocados que não estivessem presentes, então Puccinnelli, com uma lista, chama pelo nome os funcionários públicos que devem dizer sua intenção de voto para prefeito e vereador. Após o anuncio, o André dava opiniões e instruções sobre o candidato escolhido pelo eleitor. O governador também dá orientações sobre a forma que devem ser as peças publicitárias dos candidatos.







