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Política

há 3 meses

Ulisses Rocha 'rebaixa' Segov da política e pasta perde função

Advogado, apontado como homem de confiança de Lídio Lopes, assumiu no lugar de Youssif Domingos, indicado por Tereza Cristina

Alçado ao posto de secretário de Governo de Campo Grande após a queda do experiente Youssif Domingos, o advogado Ulisses Rocha acabou por rebaixar à pasta, mesmo de modo inconsciente. O homem de confiança do marido da prefeita Adriane Lopes (PP) assume com a missão declarada de reorganizar a base política e fortalecer a imagem do governo municipal, em meio à turbulência e crise financeira. 

O primeiro ato público do novo secretário foi uma visita protocolar à Câmara Municipal, onde prometeu o retorno do estacionamento rotativo na Capital. 

A lógica da administração é invertida. Em um momento de "crise" e "turbulência", quando a gestão mais precisa reorganizar a base política, seria esperado a nomeação de um articulador político ainda mais forte que Youssif, indicado direto da senadora Tereza Cristina (PP), para gerir o incêndio.

A prefeitura fez o exato oposto. Ela rebaixou o perfil da pasta de "político" para "técnico". Esta decisão sinaliza que a gestão desistiu de ter uma articulação política institucional independente via Segov. A função política foi 100% absorvida por Lídio Lopes, deputado estadual esposo da prefeita, e Ulisses Rocha assume como um "gestor de crise" técnico. Seu "perfil conciliador" não é para formular estratégias de poder, mas sim para executar tecnicamente as medidas de austeridade e absorver o desgaste político na Câmara.

GESTÃO SITIADA
A crise política na Segov não ocorre no vácuo. Ela é o reflexo de um colapso administrativo generalizado que toma conta de Campo Grande desde o início do novo mandato, em janeiro de 2025. 

O problema central da gestão é o descontrole fiscal. A prefeitura estourou o limite da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Relatórios indicam que as despesas com folha de pagamento atingiram 57,73% da Receita Corrente Líquida, um montante de R$ 3,022 bilhões nos últimos 12 meses, que representa R$ 185 milhões acima do teto legal de 54%.

A infraestrutura urbana básica de Campo Grande entrou em colapso. Múltiplas fontes descrevem o cenário como uma "epidemia de buracos". A situação é tão crítica que, em diversos bairros, moradores estão tapando os buracos por conta própria, utilizando entulho e terra.

O problema atingiu o nível do constrangimento político. O vereador Flávio Cabo Almi (PSDB) usou a tribuna da Câmara para desabafar que a rua onde mora está "intransitável" e que ele sente "vergonha de sair e encontrar com os vizinhos". 

Na zona rural, em fevereiro, a queda de uma ponte sobre o Córrego Cabeceira da Onça isolou produtores, impedindo o escoamento da safra. A prefeitura alegou "falta de mão de obra", mas o problema é percebido como financeiro e gerencial.

O caos administrativo se reflete diretamente nos serviços essenciais. Na Saúde, pacientes denunciam rotineiramente a falta de médicos em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Na UPA Moreninha, por exemplo, foram registrados relatos de esperas de mais de 4 horas. A Secretaria de Saúde (Sesau) chegou a admitir a falta de profissionais escalados, justificando com a "alta demanda".

Na Educação, foram feitas denúncias graves sobre a falta de segurança em Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI). Um vídeo gravado por uma mãe mostrou que era possível entrar e caminhar livremente pela EMEI Jardim Carioca, sem qualquer segurança, portaria ou abordagem, expondo a vulnerabilidade das crianças. A prefeitura classificou o episódio como "pontual".

A gestão de Adriane Lopes opera sob uma dualidade de comando disfuncional. O poder de jure (da prefeita e seus secretários) é constantemente esvaziado pelo poder de facto (do articulador-marido, Lídio Lopes). Esta estrutura, onde o poder real não é o poder formal, gera paralisia.

A administração municipal, enfrentando uma rejeição de 80% e um "caos administrativo", parece ter desistido de governar e passou a sobreviver. A queda de Youssif Domingos foi o custo pago por um político experiente que, segundo fontes, não suportou a falta de preparo da gestora em um governo onde a autonomia é nula e o poder real reside fora do Paço Municipal. 

Enquanto a guerra de bastidores define quem manda, a cidade sem médicos, sem segurança nas escolas e sem asfalto é deixada à própria sorte.

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