A influência do empreiteiro João Alberto Krampe Amorim dos Santos na contratação de empresas que administram obras públicas em Mato Grosso do Sul surpreendeu a PF (Polícia Federal). De acordo com as investigações da Operação Lama Asfáltica, empresários de outros estados aguardavam um espaço na agenda do empreiteiro para participar de reuniões com ele e o então secretário de obras, Edson Giroto.
Em interceptações telefônicas realizadas em 15 de maio de 2014, a secretária de Giroto liga para Elza Cristina Araújo dos Santos, espécie de ‘faz tudo’ do grupo criminoso, pois não consegue contatar João Amorim. A funcionária quer confirmar a disponibilidade do empreiteiro para uma reunião com o empresário Antônio Marcílio Petrin, proprietário da Encalso Engenharia e Construtora, e com os representantes da empresa Brasília Guaíba, que aguardam apenas o aval de Amorim para comprar as passagens com destino a Campo Grande.
Diretor comercial do grupo Encalso Damha, Antônio Petrin manteve contrato com o empreiteiro João Amorim enquanto acumulava contratos milionários com o Governo do Estado, durante a gestão do ex-governador André Puccinelli (PMDB). Conforme extratos selecionados pela PF durante as investigações, a Encalso Construções foi contratada para a pavimentação da MS-040, no trecho Campo Grande a Santa Rita do Rio Pardo, através de três contratos nos valores de R$ 30,4 milhões, R$ 31,4 milhões e R$ 27 milhões. Veja:



Um dos encontros entre Petrin e os ‘representantes’ sul-mato-grossenses realizado em 11 de dezembro de 2014 foi documento pela PF que acompanhou a viagem de Giroto e Amorim até Presidente Prudente (SP) no famoso avião prefixo PP-JJB, conhecido como ‘cheio de charme’. Segundo as investigações, a reunião que aconteceu no aeroporto paulista serviu para discutir a “assinatura de uma escritura no bojo de contratos milionários das empresas do grupo Encalso Damha” em Mato Grosso do Sul e em Campo Grande.
A visita de Amorim foi planejada entre um funcionário do grupo Encalso e Elza Cristina. Em uma das ligações interceptadas pela PF, dia 5 de dezembro, às 08h39, o funcionário afirma que Petrin está preocupado com a demora na conversa, possivelmente por causa do fim do mandato peemedebista. “Então ele está em pânico. Ele está... Sabe? E a solução dos projetos está na mão dele, depende dele. Ele, para você ter uma ideia, está disposto a mandar um avião aqui e pegar o doutor João, levar lá, conversam e ele traz ele de volta aqui”, explica.
No dia 8 de dezembro, às 09h51, João Amorim conversa diretamente com Petrin. Conforme a conversa, o empresário da Encalso aguarda o encontro para marcar uma cirurgia, possivelmente para a visão. Os problemas de saúde teriam o impedido de viajar ele mesmo para Campo Grande. “Eu achei até que eu ia mandar o avião. Porque assim já conversa. Porque se ficar esperando eu fazer essa cirurgia aí tudo aí... [...] Isso que tá aí, vai, leva. A gente vem aqui, eles olham tudo, daí se tiver que já assinar, dá tempo de fazer escritura esse ano ainda que é bom, né?”, destaca Petrin.
A viagem foi documentada também em diversos diálogos entre os envolvidos realizados no dia 10 de dezembro. Inclusive, no dia combinado, uma quinta-feira (11), Giroto perde o horário e acaba atrasando o voo. Veja os vídeos do desembarque em Presidente Prudente e do encontro no aeroporto:
Policiais registraram o momento de desembarque de Amorim e Giroto
Reunião foi realizada no saguão do aeroporto paulista
O relacionamento entre os dois grupos ainda é comprovado através de diálogos entre funcionários da empresa Encalso e Elza Cristina. Em uma interceptação telefônica realizada dia 17 de dezembro, às 09h03, um funcionário identificado como Luís negocia um aditivo com a representante de Amorim. “Então, o que eu queria ver com você, nós tínhamos que fazer um aditivo do contrato, né? Porque como aumentou o... as horas trabalhadas, tudo, então a gente precisa fazer um aditivo. Eu já estou com ele até esboçado e o pessoal já está fazendo também as medições”, destaca.
Conforme a PF, o grupo Encalso-Dahma mantém diverso contratos com o Governo do Estado, constrói estradas e condomínios de luxo em São Paulo e Mato Grosso do Sul, e é subcontratada da Proteco Construções e vice-versa em diversos contratos. Além disso, o ex-secretário Edson Giroto construiu uma mansão avaliada em R$ 7 milhões no condomínio Damha, em Campo Grande. A casa foi vistoriada dia 9 de julho, quando os agentes cumpriram 19 mandados de busca e apreensão nas residências e escritórios dos envolvidos.







